Toda escolha é uma despedida

Sim, estamos indo embora daqui.

Algumas mudanças não são apenas geográficas, elas pesam mais que a distância, carregam na mala o desejo latente de arriscar. Nós decidimos mudar tudo, começar do zero, limpar os espaços poluídos do peito, desapegar das tralhas materiais, respirar mais leve o cheiro de uma mudança pra lá de desejada e necessária.

E não é novidade pra ninguém que toda escolha é, de alguma maneira, uma troca. É preciso sempre deixar alguma coisa para poder conquistar outra. Não vai ser fácil e ninguém tentou nos provar o contrário, nem a nossa vontade de que isso fosse uma verdade. Mas vai ser nosso, já é nosso caminho e nos sentimos muito honrados pela decisão de respeitar o que pula dentro do coração.

Estamos deixando Lagoa Santa/MG para morar na Chapada Diamantina/BA. Dentro dessa frase cabe tanto que não sabemos pensar sem sentir um turbilhão de coisas ao mesmo tempo. Dentro dessa escolha cabe o entendimento de relações que nossa alma vem nos cobrando há tempos:

– queremos que nossos filhos (tomé, com dois anos,  e nina, sementinha de 07 meses) tenham a oportunidade de crescer respeitando a natureza (dos bichos, plantas e , sobretudo, dos homens) e com valores enraizados na simplicidade, verdade, honestidade e amor, muito amor. Sentimos que eles (e todos os outros que virão vida afora!) são crianças de espírito livre, cheios de luz e consciência. Obrigá-los a crescer na cidade, enjaulados em apartamentos, moldados pelo consumismo social e submetidos à uma educação tradicional nada inteligente seria, de alguma forma, negar toda a essência desses dois serzinhos. E isso seria, para o tipo de família que nos propusemos a ser,  o maior de todos os crimes inafiançáveis!

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– estamos deixando a cidade e todo o seu “conforto” para descobrirmos quais são as nossas verdadeiras necessidades enquanto cidadãos conscientes nesse mundo de meu Deus. Tanto tempo tendo tudo ao alcance atrofiou nossos braços e nossa capacidade de ponderar o que realmente precisamos;

– vamos reestabelecer a relação com o nosso tempo rei. O relógio deixa de ser regido pelos ponteiros sociais e desacelera para uma batida natural, calma e muito pessoal. O dia agora há de começar com neblina e silêncio rompido pelo canto do galo no nascer do sol, um beijo prá buzina dos carros nervosos pela manhã;

– precisamos reinventar nossa maneira de nos sustentar, de nos relacionar com grana. É hora de rever esse “casamento” e nos arriscar numa aventura mais auto-sustentável, bem à moda antiga mesmo. Teremos menos notas na carteira para ter em nosso pedaço de terra mais galinhas e ovos, cabras e leite, hortas verdes e saudáveis, frutas frescas e saborosas, água pura e cristalina, energia solar. Por mais bobo ou inatingível que isso possa parecer, estamos trocando a praticidade do comprar pronto pela (hoje) rara experiência do plantar/esperar/colher;

– acreditamos na evolução como seres humanos e sentimos que precisamos desta escolha para completar tal processo. Viver de forma mais consicente, voltar a um estilo de vida simples, estar mais próximo da natureza, respeitar o outro e a nós mesmos, zelar pela felicidade dos nossos filhos, colocar o amor em seu devido e merecido lugar, dentre tantas outras coisas, faz parte do nosso processo evolutivo;

– estamos nos fortalecendo enquando núcleo familiar, e isso é como multiplicar o amor por 10 mil. Teremos e seremos mais uns para os outros, a rotina há de ser baseada no cuidado e na atenção com nós mesmos. As relações entre pais e filhos, marido e mulher hão de ser reinventadas quando vividas de forma tão mais íntima e sem interferências. Estamos prontos para nos vermos de tão perto, na alegria e na tristeza.

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A lista de razões que nos leva à esta escolha é enorme e ainda acho que não sabemos completá-la, o tempo há de nos ajudar a entender tudinho. Mas deixamos aqui esse diário meio aberto onde vamos registrando as aventuras desse processo que escolhemos viver.

Nossa gratidão e o sorriso mais largo para nossas famílias, que entendem e respeitam nossa alma cigana e inqueita. Aos amigos de todas as horas, à tudo o que vivemos antes de chegarmos até aqui, à tudo o que a vida ainda guarda pra gente, seja onde e como for. Estamos partindo de peito aberto e com a certeza de que a distância não é mais que um cálculo.

A nossa escolha nada mais é por viver uma vida larga, não apenas uma vida longa.

Um beijo e um abraço de urso em cada um de vocês que tem um cadinho da gente.

Manu, Hugo, Tomé e Nina.

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