A casa

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A vida por aqui anda empoeirada de reforma, literalmente. Nossa casa está sendo finalizada e ainda não podemos nos instalar nela, o que nos causa uma ansiedade sem fim. Então dormimos na casa de uma amiga que mora em SP e passamos o dia ajeitando as coisas por lá. O tempo já começa a nos desafiar e nos jogar na cara que quem manda aqui é ele, só nos resta entender e aprender essa outra forma de sentí-lo: a casa pronta, o trabalho, o plantio, o retorno da terra, nada acontece do dia para noite, tudo tem seu próprio ponteiro. E você (nós!), que veio da cidade e acostumado com tudo pronto, abaixe sua bola e respeite o relógio da nova vida.

Entendido o recado, vamos nos dividindo pela casa e descobrindo os quatro hectares de terra que são nosso sustento. Enquanto Tomé brinca no monte de areia, eu procuro madeira para fazer os cabideiros da casa e Hugo desenha o sistema de irrigação das terras. Eu colho frutas para fazer suco no almoço, Hugo pega na enxada e Tomé segue toda e qualquer trilha que encontra mato afora. Hugo lida com os pedreiros, eu tomo café quentinho na casa de Dona Zi e Tomé rega as mudas que plantou no jardim com o pai. E assim a gente vai se encontrando nessa casa, fazendo planos pra terra, “assuntando” a vida com os mais velhos, nos acostumando à nova rotina, que de rotina nada tem.

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Ainda tudo no começo, ainda tudo girino. Ainda tudo novidade, mas sempre carregado de certeza da nossa escolha, parece que sempre pertencemos a essa vida. As mudanças vêm vindo com calma e respeitando nosso tempo de adaptação, esse processo tem sido uma delícia para nós quatro. Por falar nisso, muita gente tem me feito perguntas práticas sobre algumas coisinhas dessa mudança, respondo algumas delas aqui e agradeço um monte pelas mensagens lindas que temos recebido!

–       Aí tem internet? Sim, o Pedro, moço dos Correios, veio aqui, subiu nas montanhas do nosso terreno, fez uma gambiarra de primeira e instalou uma internet bem boazinha pra gente. Mas não pega telefone celular e um número fixo custa uma antena de 600 “realidades” (o que não teremos, por enquanto, e não sentimos falta alguma);

–       Vocês continuam comprando coisas no supermercado? Sim, ainda não atingimos nossa meta de auto-suficiência, mesmo porque não tivemos tempo suficiente para colher o que plantamos. Mas, mesmo assim, é só o básico (produtos de limpeza, higiene, etc). Temos quase 15 tipos de fruta no nosso quintal, as verduras e legumes vêm da horta da Dona Zi, arroz, feijão, mel, leite e outras coisinhas vêm da feirinha de produtores locais. As coisas aqui tem gosto de verdade, comer voltou a ser um prazer e não só uma refeição. Isso também quer dizer que produzimos um lixo quase 70% orgânico, o que já é um afago na nossa relação com a natureza;

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–       Tem médico? Sim, tem o SUS e uns três clínicos gerais que cuidam de todo mundo. Trocamos nossa cara (e problemática) Unimed pelo cartão da família que Maridalton veio aqui em casa pessoalmente fazer. Ele, agente de saúde da cidade, ficou sabendo que uma grávida havia chegado na sua área de atuação e fez questão de vir me explicar tudinho sobre o pré-natal feito pela enfermeira Aline no posto. Não somos mais um número de carteirinha, aqui cada pessoa é realmente uma pessoa;

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–       Tomé vai pra escola? Não, decidimos não voltar com ele para escola agora. Acreditamos que temos tempo e amor suficiente para mantê-lo conosco o dia todo, aprendendo e participando de tudo o que estamos construindo. O convívio social é feito com outras crianças do povoado, todo mundo das fazendas de café tem família grande e a criançada corre solta pela região. Ele, que não é bobo, já deu jeito de se enturmar;

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–       E o dinheiro vai vir como? A relação com grana mudou, precisamos de muito menos para viver, mas ainda não conseguimos ficar 100% livres dele, claro. A terra vai ser nossa maior fonte de renda, assim como para todo mundo por aqui. Estamos cuidando dela e prestes a entrar de cabeça na permacultura, plantando o que consumimos e fazendo um tutu com o excedente. Aqui tudo o que planta dá e, com muito trabalho, não há de faltar nada pra gente;

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–       Você não acha que ta fazendo uma loucura? Sinceramente, isso nunca me passou pela cabeça.  Loucura mesmo seria manter nossa família refém de uma vida que não era nossa. Seria negar nosso desejo de viver melhor, seria continuar acreditando num falso círculo de conforto. Loucura mesmo é deixar o medo calar seu coração e fechar seus ouvidos para aquilo que grita no peito, sabe? A gente tá feliz sim, estamos entendendo um monte de coisas/pessoas/valores/relações que ainda não faziam sentido na cidade. Estamos aprendendo como nunca, toda hora, sem parar, com erros e acertos, rindo e chorando. Estamos nos desafiando, estamos nos aventurando. Estamos tudo e qualquer coisa, menos cometendo uma loucura!

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A chegada

Chegamos, estamos em casa.

Com três malas de 23kg cada, saímos de Lagoa Santa e seguimos rumo à Salvador. O resto ficou pra trás, foi vendido, doado, poucos livros guardados, exercício ímpar de desapego e do qual eu acreditei nunca poder ser capaz! As despedidas foram doídas, algumas adiadas, outras mais fáceis do que imaginávamos. Deixar uma cidade e suas relações é também repensar o lugar das pessoas na vida da gente.

Tomé sempre no foco das atenções, agitado e “esponjinha” de toda nossa ansiedade. As crianças sentem e manifestam tudo, sempre, independente da idade e capacidade de compreensão exata dos acontecimentos. Poucos minutos de observação poderiam denunciar seus movimentos agitados, seu choro por nada, sua desobediência exagerada e agressividade. Ele sente e coloca pra fora, mais esperto que os próprios pais, que tentam esconder as coisas de si mesmos. Com muita paciência, conversa e amor, respeitamos esse momento dele, no fundo éramos um o reflexo das emoções do outro.

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A aventura de andar de avião distraiu e ajudou muito. Dormia e acordava falando “papai, mamãe, nina: eu tá voando”! Este primeiro dia em Salvador nos proporcionou uma das experiências mais lindas ao lado do Tomé, descobrir o mar. Com toda força das ondas e bênçãos de Yemanjá, chorei (sim, chorei!) de emoção ao ver ele se jogando na areia, caindo na água fria, sentindo o vento bagunçar os cabelos, o sal grudando no corpo, a liberdade destemida. Nosso filho é bicho solto, esse é um dos recados que ele me dá diariamente.

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Depois de alguns dias de muita praia e axé, nove horas de viagem dentro de um ônibus e a chegada na Chapada Diamantina. Mais um lugar novo, mais uma mudança de cenário, mais um perda de referências, mais longe do restante da família e amigos, Tomé pede socorro outra vez. E, neste dia, nós nos apoiamos uns nos outros para suportar a avalanche de sentimentos que essa escolha nos causou.

Parece que chegar aqui foi um soco no nosso estômago, quando a gente deseja muito alguma coisa o universo conspira e ela acontece. Estamos aqui. E agora, José? E esse mesmo soco que dói e amedronta traz em si uma das coisas mais bonitas que meu coração besta já sentiu: a força da união em nosso núcleo familiar, a capacidade de nos protegermos, de nos apoiarmos, de nos acalmarmos, de nos abraçarmos com tanto carinho. Nós quatro somos como notas de uma musica só e precisamos zelar pela harmonia final.

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Passado o susto da chegada e da concretização dessa nossa escolha, vamos ao trabalho que nos espera na reforma da casa e no começo do trabalho com a terra. Nos inspiramos em Tomé e seguimos desbravando sem medo, pegamos carona com ele e vamos aprendendo tudo de peito aberto. Na verdade, a vida nova é que chegou, não fomos nós que chegamos.

Manu, Hugo, Tomé e Nina.

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