Criar X comprar

Galho de goiabeira achado no mato+pedaço de tecido = suporte para toalhas de rosto e toucas nos banheiros.

Galho de goiabeira achado no mato+pedaço de tecido = suporte para toalhas de rosto e toucas nos banheiros.

Nossa vida por aqui traz exercícios diários de adaptação e, confesso orgulhosa, estamos nos saindo muito bem na maioria deles. Coisas simples como separar e reaproveitar o lixo, trocar detergente por sabão de côco, temperar a comida apenas com o gersal que produzimos, fazer nosso próprio pão e comprar só mesmo o essencial, tem sido uma delícia e uma pergunta: porque não fazíamos isso antes?

Nesse processo de reforma da casa (ainda não 100% pronta, mas já nos abriga) vivemos muito a coisa do criar ao invés de comprar. Viemos para cá com uma merrequinha de grana do nosso carro que vendemos em Minas. É engraçado, mas até para viver sem depender do dinheiro você precisa de dinheiro. Pensamos muitas vezes e ouvimos muito “não é melhor juntar uma grana para depois poder começar essa nova vida com mais segurança?” Sim, seria lindo, mas não estávamos afim de passar mais um ou dois anos correndo atrás de juntar um tutu que, no final das contas, nunca seria suficiente para garantir tal “segurança”. E, me desculpe a boca suja, mas que porra de segurança é essa que a gente tanto quer e acha que precisa? Quando penso nisso, sempre me vem à cabeça um cachorro correndo atrás do rabo, cômico se não fosse tão triste. É a mesma coisa com filhos, as pessoas esperam ficar legal de grana pra poder ter uma criança e se esquecem de tantas outras “condições” tão mais importantes. Mermão, filho dá trabalho e gasta dinheiro sim, mas o que vai fazê-lo feliz não é o que você vai comprar pra ele, amor e carinho tem de graça no coração da gente.

Enfim, nesse processo todo de desapegar um pouco do consumo entramos numa onda de fazer nossas próprias coisinhas, começando por alguns detalhes da casa. Claro que muita coisa teve que ser comprada sim, ainda não aprendi a fazer uma cama, por exemplo, mas um dia eu chego lá. Mas começamos, de forma muito natural, a virar nossos olhos para a matéria prima local e dar mais asinhas à nossa imaginação. Então fomos inventando um troço aqui e outro ali para poder enfeitar tudo com nossa cara, aos poucos e com bem pouco. Um metro de tecido, por exemplo, custou R$13,00 e rendeu capas para latinhas, forro para suporte de canecas, cobriu um pedaço de madeira que virou chaveiro, bolsa de livros no quarto do Tomé, alcinha para suporte de toalha de rosto para os dois banheiros e mais um bocado de coisas. A ideia é bem essa, sabe? Gastar pouco ou nada, invetar moda e ficar com essa sensação gostosa de que aquilo foi feito por você e tem toda a sua energia ali.

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Garrafa pet+fita adesiva colorida = porta lápis pra mesinha de artes do Tomé.

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Pedaço de tecido+prego = bolsas de livros para mini-biblioteca do nosso tico-tico.

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Caixote de madeira achado na feira da cidade = prateleira para brinquedinhos do pequeno.

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Cabo de vassoura velha+pedaço de corda = arara de roupas (nós de-tes-ta-mos armários e fizemos isso em todos os quartos!)

 

Como dizia minha boa e velha avó, não precisa ter talento, basta ser esforçado. Aqui eu acho que é bem isso, não é uma questão de saber ou não costurar, ter o não ideias legais, conseguir ou não um caixote de madeira na feira. O lance é que nos acostumamos tanto com o comprar pronto, que qualquer coisa é desculpa para não criar ou, ao menos, nos permitir tentar. Mas eu te digo, de cadeira, que vale a pena demais. Vale pela diversão de fazer algo novo, vale pela sensação gostosa de se permitir o desafio da criação, vale o sentimento nobre de estar suprindo suas próprias necessidades sem gastar para que outro alguém ou alguma coisa o faça.

É claro que tudo isso tem a ver com um fator muito importante, o tempo. Sim, precisa-se de tempo para fazer com calma e amor, a criatividade da gente é inimiga da pressa. Mas, depois que se toma gosto pela coisa, fica difícil pensar de outra forma. Hoje, aqui em casa, pensa-se duas vezes antes de comprar alguma coisa. Dá pra fazer? Não sei, nunca fiz, vamos tentar? Assim tem sido também com a alimentação, assim tem sido nossa rotina de recriar a relação com grana.

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Pedaço de madeira encontrado nos arredores da casa+uma mãozinha de verniz+ ganchinhos = cabideiro para toalhas e roupas dos banheiros.

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Espelhinhos da venda por R$3,00+bottons antigos = espelho engraçadinho para banheiros.

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Obra linda do marido lindo! Galho de goiabeira+uma mãozinha de verniz = porta retrato de mesa.

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Capa de CD velho+retalho de tecido+fitinha de veludo = porta retrato de parede.

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Cantinho com porta retratos feitos com molduras alternativas e a custo quase zero.

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Molduras de madeira R$1,00 cada+mão de tinta colorida = joguinho de retratos na parede de adobe.

Ainda temos muito o que melhorar nesse “quesito” também, mas começamos a sentir, nessa brincadeira de decorar a casa, que podemos (re) aproveitar mais as coisas, olhar com mais cuidado para nosso entorno, repensar a função e utilidade de tudo. Assim, aos poucos, podemos consumir menos marcas e lojas, depender menos do sistema, precisar menos de futilidades. Tem sido interessante essa nossa descoberta, sabe?  Por mais familiar que sempre tenha sido o “menos é mais”, talvez nunca tenhamos experimentado sua verdade. Agora sim, aqui nesse meio do mato, longe de tudo, estamos mais perto que nunca dessa essência. Saravá!

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Caixotes de feira R$18,00 cada+mão francesa = armário de cozinha diferente

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Pedaço de madeira achado nos arredores da casa+retalho de tecido+prego = porta canecas e xícaras de café.

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Pedaço de madeira encontrado nos arredores da casa+mão de verniz+prego = porta penelas/colheres/coadores…

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Latinhas de leite em pó+retalho de tecido = potes para armazenar grãos, café, frutas secas…

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Caixote de madeira achado na feira da cidade+mão de verniz = porta tempeiros na cozinha.

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Vidros de azeitona reaproveitados da lanchonete da cidade+retalho de pano = suporte para talheres.

A gravidez

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Toda gestação é uma montanha russa, aos menos as minhas sempre são. E, como se não bastasse a inconstância desses nove meses e os 1920471840 hormônios gritando dentro da gente, eu ainda invento de me mudar toda vez que engravido.  Aos quatro meses de Tomé dentro de mim nos mudamos de São Paulo para Lagoa Santa. Agora, um pouco mais atrevida, venho com Nina, aos sete meses, para a Chapada Diamantina.

Gestar uma criança é para mim tão mágico que vale todo e qualquer sacrifício, vale cada mudança no corpo, cada enjôo e azia, cada minuto da barriga mexendo. E isso é só o começo, o que vem depois do nascimento é algo que a gente nunca vai ter ideia da grandeza que é. Eu amo a maternidade como se tivesse nascido pra ter 12 filhos, é como se tivesse a chance de reaprender a minha vida toda vez que uma outra pulsa no meu ventre.

Nina tem se mostrado uma bela de uma guerreira antes mesmo de nascer. Não tem sido fácil suportar a inquietude da mãe que ela escolheu pra si. Aqui acordamos bem cedo, sempre de acordo com o relógio do Tomé, que nunca passa das 07h. Tomamos juntos, assim como fazemos todas as refeições, nosso café da manhã cheio de coisinhas simples, naturais e saudáveis. Depois disso o dia começa e a bichinha participa de tudo sem me roubar o ânimo.  Lixamos madeira para fazer nossas prateleiras, regamos as plantas, brincamos na areia com Tomé, fazemos almoço, lavamos vasilha, varremos a casa, lavamos roupa, fazemos bolo de banana, ajudamos o papai a limpar o pomar, vamos a cidade com o irmão pulando em cima da barriga (nosso carro é uma saveiro e são 13 km de buraco até lá!) colhemos mexerica, sentamos um pouco, damos banho no Tomé, tomamos o nosso, jantamos e deitamos. Ufa! Os dias são longos, assim como nossas conversas quando estamos sozinhas, assim como os carinhos que papai nos faz quando deitamos e descansamos do dia agitado e produtivo.

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Agora, aos oito meses e já sentindo pequenas contrações que avisam a sua chegada, ainda nos sentimos bem dispostas e não paramos. Alguns desconfortos vão chegando e caracterizando esse típico e difícil final de gestação. Mas seguimos em ritmo acelerado e ouvindo as broncas do pai que, se pudesse, nos amarraria ao pé da cama para nos ver quietas por um tempo.

Nina é minha companheira, nessa confusão toda da mudança é um norte pra gente em várias coisas. Quase tudo, desde como gastar o pouco dinheiro que trouxemos para começar essa nova vida até a ordem dos móveis na casa é ditado por ela e seu irmão mais velho. Nina é minha certeza de que a família tá dando certo, um segundo filho programado e com tanto amor é repetir e multiplicar a alegria do primeiro. Nina é, acima de tudo, meu segundo coração batendo fora do peito.

À você, nossa pequena guerreira, toda gratidão por dividir com tanta força esse momento importante das nossas vidas. Por fazê-lo ainda mais especial, por nos escolher como pais e amigos, por nos dar a chance de uma família mais completa e feliz, por nos proporcionar a alegria de poder reaprender tudo outra vez, agora com você nos ensinando.

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