A fotografia

Captura de tela 2013-10-28 às 14.13.41

 

Algumas pessoas têm me dito que começaram a nos seguir no Instagram, onde eu postava, praticamente, fotos da rotina do Tomé. Acontece que não estamos mais usando essa “gavetinha” moderna de arquivar lembranças, aqui na roça o “uairelés” não funciona.

Mas, como a fotografia é um braço da nossa memória e não vivemos sem ela, não paramos de registrar o crescimento do pequeno. Há algum tempo atrás pensamos numa forma de guardar cada cantinho da infância dele sem nos prendermos à validade do papel fotográfico e mídias digitais ou ao humor do nosso HD. Então decidimos fazer um álbum virtual com as fotografias que tiramos dele com nosso celular. Nada preocupado com técnica e tudo registrado com olhos cheios de amor. Um grande arquivo de imagens na internet, num “lugar” seguro e de fácil acesso também aos familiares que estavam longe.

Então fica aqui o endereço da caixa de sapato moderninha do Tomé (e a da Nina não demora!), onde guardamos para ele as memórias de sua própria infância. Com todo o respeito ao tempo rei, sabemos que ele um dia nos roubará algumas lembranças. Mas temos tantas e tão lindas que, a cada foto tirada, acreditamos estar dando uma rasteira nele e guardando para sempre um momento inesquecível da nossa família!

O parto

IMG_3220_3664

Quando nos mudamos para cá Nina tinha sete meses de vida na minha barriga. Pensamos muito em como seria esse parto, mas nunca cogitamos a possibilidade de ela não nascer aqui. Em momento algum sentimos que precisaríamos de alguma estrutura que a cidade não poderia nos proporcionar, como um bom obstetra ou um hospital “seguro”, por exemplo.

Durante esses nove meses de gestação, esse bebê plantou em mim uma certeza gigante de que estávamos muito bem e que sua chegada seria linda, onde e como fosse. E eu me agarrei à ela até o último minuto de barriguda, a bichinha era um girininho dentro de mim e já se manifestava com tanta força. Fiz algumas visitas ao posto de saúde da cidade e levei alguns exames pedidos pelo médico (um jovem recém-formado em clínica geral) para ter certeza de que estávamos em perfeitas condições de ter um parto normal, assim como foi o de Tomé, sem intervenção alguma e com todo respeito a nós e ao nosso momento.

IMG_3225_3666

Na tarde do dia 02 de outubro Nina começou a dar sinais de sua chegada. Nossa malinha com roupas já estava pronta, Tomé iria ficar na casa da vizinha, as pequenas contrações me surpreendiam de quando em quando. Passei o dia fazendo tudo como se fosse um outro qualquer, tirando o fato de minha cabeça não parar de pensar nela e meu coração sentir a bichinha cada vez mais próxima. Comemos, tomamos banho, assistimos filme e dormimos. Lá pelas onze da noite as contrações me acordaram como despertador que avisa “é hora do trabalho, simbora”! E na compania delas eu fiquei até as 2h50, andando pelo quarto, me alongando, cronometrando contrações, conversando com minha filha, nos preparando para sua chegada. Acordei Hugo e disse que era hora de irmos para o hospital. Não fosse o fato de não termos uma parteira por aqui, não teria saído de casa para receber esse bebê, seria um belo de um parto domiciliar (como acredito ser o próximo! Tô animada!).

Cheguei, fiz ficha de entrada, parei pra esperar a contração passar, troquei de roupa, Hugo não podia me acompanhar e voltou pra ficar com Tomé (regra sem graça do hospital), me instalei num quarto com outras duas recém-paridas, contração, contração, contração, contração. Em momento algum me senti sozinha, tive medo, sofri. Eu queria Nina no meu colo e estava muito perto disso, me sentia  como uma leoa forte e confiava no meu corpo como nunca antes, eu poderia parir sozinha aquela criança! E foi mais ou menos isso que aconteceu mesmo. Depois de uma hora da minha chegada, entrei na onda contração/força/contração/força e, quando senti que ela estava quase saindo, gritei pela enfermeira que me levou para outra sala onde estava o médico. Este, de cabelo em pé e cara de sono, só fez olhar pra minhas pernas abertas e dizer: “menina, espere um pouco e segure esse bebê aí, ainda não coloquei as luvas”! Hein? Eu, no meu último impulso de força, respondi: “eu não, segure você minha filha porque ela vai nascer agoooora!”. E foi!

IMG_3228_3667

As quatro da manhã minha pequena estava nos meus braços e eu, naquela mistura doida de alegria, choro, alívio, amor e mais amor, senti a gratidão desse momento vibrando em mim como a dormência que tomava meu corpo pela força que acabara de fazer. Acho que toda vez que contar sobre esse momento vou sentir este nó na garganta que tô sentindo agora.

E voltamos para nosso quartinho de hospital, nós duas, ansiosas pela visita do papai e Tomé.  Achei que dali pra frente tudo caminharia “normalmente” até o momento da alta e da volta pra casa, o que eu mais queria. Mal sabia eu que ainda tinha muito o que fazer por ali e que Nina, minha desde pequena guerreira, me ajudaria a ajudar outras pessoas. No nosso quarto conheci Cidinéia e Poliane, a primeira mãe de uma gravidez de risco e de um bebê que nasceu praticamente morto. A segunda com 20 anos, terceiro filho e mãe solteira. A primeira beirando a uma depressão sem fim e sustentando um sangramento de 30 dias. A segunda chorando de dor e parindo coágulos de sangue filhos de uma hemorragia perigosa.

Meu corpo, danado que é, deu jeito de me colocar em pé rapidinho e me dar uma baita força vinda nem sei de onde.  Me sentia pronta para dar a luz a outra criança antes de mesmo de 24 horas do meu parto. E foi nessa força que me apoiei para conversar muito com Cidinéia, ouvi-la, deixá-la chorar essa perda, levá-la ao banheiro, buscar seus remédios, pegar sua água, dar um abraço apertado. Nina dormia um sono tão profundo que me permitiu emprestar os braços livres para o bebê de Poliane, que acabou transferida para outra cidade em busca de melhoras. A pequena não pôde ir junto e fiquei com ela, ninando e conversando, até uma tia chegar, junto com o nascer do sol. Foi lindo poder ajudar as pessoas num momento tão especial, o universo sabe mesmo onde nos colocar para nos dar a chance de sermos melhores.

IMG_3231_3668

Na volta pra casa, olhando as montanhas da Chapada pela janela, ouvindo uma música boa e olhando para nós 4 ali apertadinhos na cabine da caminhonete, meu coração besta se encheu de alegria e plenitude. Estávamos maiores, mais fortes, mais completos, mais felizes. Nina chegou para ser mais uma brotinho do nosso jardim, chegou reafirmando nosso amor, carinhosamente nos dizendo que somos todos um só. Estamos muito felizes, cada dia mais, e assim será!

Gratidão enorme a todo mundo que nos mandou mensagens de boas vindas, de felicidades e vibrações positivas pela chegada da filhota. A bichinha, Tomé, Hugo e eu retribuímos com muitos “xêros” nessa gente linda!

IMG_3209_3662

IMG_3213_3663

A chuva

IMG_3116_3628

Chover sempre foi, pra mim e para minha vida agitada na cidade, um verbo carregado de transtornos. Sinônimo de trânsito intenso, frio, sapato molhado, guerra de sombrinhas na rua, dificuldade para sair de casa e por aí vai… Quase nunca me permiti olhar pra ela como algo realmente bom, quase sempre me faltou sensibilidade para entender a grandeza de seus benefícios para o todo, não só para o meu dia egoísta.

Pois bem, aqui estamos nós esperando pela chuva como criança que espera papai noel na noite feliz, que ironia! Para começar nossa plantação e nossa agrofloresta, precisamos de um bocado de água do céu para cuidar da terra seca e judiada pelo astro rei. Nossa horta, nosso herbário, nossas mudas de maçã, nosso mudário de café, tudinho precisa de água para acontecer.

IMG_3125_3633

IMG_3130_3634

O povo da região tem um amor incondicional pela chuva, fala e reza pela sua chegada quase todo dia. Claro! Todo mundo vive da terra e a terra não vive sem água. O consumo aqui é bem consciente, a água da nascente é pura, cristalina e dividia entre casas e roças vizinhas. Não falta nada pra ninguém e todo mundo sabe cuidar do seu pra não faltar pro outro, uma “regra” local que poderia salvar mundos e fundos se fosse aplicada pra geral.

A época da chuva começa, teoricamente, agora em outubro. Mas tá quente até, venta forte do sul e do norte, nuvem vai, nuvem vem e nem sinal da danada. Estes dias me peguei pensando nessa relação com a natureza e no respeito que estamos aprendendo  a ter por ela. A nossa dependência da chuva para trabalhar e ver nossos frutos crescendo é algo que me fez repensar um bocado de coisas, desde o consumo da casa até nossa pequeninice diante dos fenômenos naturais “banais”, como a própria chuva. Nada, nadica é sem razão ou sem importância. Parece que a natureza foi desenhada de forma tão simples e, ao mesmo tempo tão perfeita, que me assusta demorarmos tanto para entender isso. Sim, foi preciso eu precisar enlouquecidamente da chuva para sacar que ela é mais do que uma água que cai do céu e atrapalha o trânsito.

IMG_3123_3632

Então seguimos abrindo nossas janelas pela manhã e reparando o sentido do vento, a quantidade de nuvens, o calor do ar,  as andorinhas ao redor. Amanhecemos e passamos o dia sentindo a natureza e seus sinais, vigiando suas mudanças mais singelas, vibrando pela água que vai trazer fertilidade pra nossa terra. É uma experiência linda, é uma espera calma e serena, principalmente porque aqui aprende-se a confiar na terra.  A chuva tá demorando, talvez porque o homem tenha mudado tanto as coisas que ela agora mudou os ponteiros do seu relógio. Mas ela chega, uma hora chega e vai varrer essa roça com água e muito verde. Enquanto isso a gente fica aqui, cuidando de cada folhinha pequena que brota, comemorando cada pêssego novo no pé, cada florzinha que insiste e resiste bravamente como guerreira que é.

IMG_3118_3630

IMG_3119_3631

Ah! Peço desculpas pela demora em responder as mensagens e comentários lindos que temos recebido. É que nossa pequenina chegou esses dias e estamos lambendo a cria a maior parte do tempo. Depois eu conto tudinho como foi!