O cúmplice

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Eu sempre acreditei em um grande amor, desses que preenchem os cantos do corpo e tomam a alma inteira da gente. Eu sempre quis esse amor. Eu sempre soube que a vida cruzaria nossos caminhos, fosse como e quando tivesse que ser. E acho, cá com meus botões, que essa certeza foi plantada em mim quando tinha seis nos de idade, quando era uma pirralha na escola e conheci um pirralho que se dizia apaixonado por mim. Era um moleque bem pra frente, com um redemoinho engraçado no cabelo liso de doer e dos mais bagunceiros da área. Ele vivia me rodeando, me dando presentes, insistindo nessa paixão. Eu sempre na defensiva, sem saber direito o que ele queria de mim com a incansável determinação de um adulto. Por anos ele foi meu par na quadrilha da escola, até que as mães de outros meninos vieram reclamar junto a diretora e pedir um sorteio para determinar, democraticamente, meu “noivo”. E assim foi feito, sendo sorteado ninguém mais ninguém menos do que o danado do menino apaixonado. “Marmelada! Repita o sorteio, professora!” Mas não adiantava, a vida parecia já ter escolhido meu par, saiu o nome dele pela segunda vez! 25 anos depois disso, aquele moleque insistente apareceu na minha vida com a mesma paixão daquela época. Só então eu pude entender quem ele era, o que ele queria de mim e tudo o que poderíamos construir juntos. Eu sabia que meu grande amor chegaria, só não sabia que ele estava guardado nas gavetas do nosso peito desde a infância.

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Hugo é meu companheiro de aventuras, alguém que me completa de forma tão intensa que não sobra espaço para pensar como seria a vida sem ele agora. É o cara que me enche os olhos toda vez que o vejo de longe, que o observo em silêncio, prestando atenção nos seus trejeitos, sua forma de parar os pés quando fuma um cigarro, no movimento das suas mãos quando fica ansioso. A noite, enquanto Hugo dorme e eu amamento Nina, fico olhando pra ele e lembrando das nossas viagens pelo mundo, pensando na nossa cumplicidade, sentindo a força da nossa união, desejando que ele nunca saia dali, do meu lado, de dentro de mim. E agradeço, com o peito cheio de alegria, por tê-lo como parte tão linda da minha história, que agora é nossa.

Foi ele quem me trouxe a grandeza de ser plural, de dividir tudo e multiplicar por amor. Me ajudou a lidar melhor com as diferenças, aceitá-las quando se dá conta e entendê-las quando se abre o peito pra isso. Me mostrou que ligar o “foda-se” pode ser a melhor saída para uma determinada situação e que ser sempre a boa moça sucks! Nossas trocas são diárias, regadas a boas risadas, choro ou silêncio. Silêncio este que foi trazido por ele também, a não necessidade de discutir, de argumentar, de questionar. Calar, ás vezes, é respeitar o lugar do outro, é olhar pra dentro, é se perguntar e se descobrir.

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Depois de quase quatro anos juntos, ainda choro de amor, ainda sinto arrepios quando ele me toca, ainda me emociono quando olho pra família que construímos juntos. é tudo tão cheio de amor, de verdade, de carinho e respeito que eu nem sei falar. Eu me sinto tão segura ao lado dele, tão forte que poderia viver cem anos recomeçando vidas e vidas com a filharada toda nas costas! Hugo é o cara que me faz crescer todo dia, junto com nossos pequenos e a vida que escolhemos viver. Ele é meu cúmplice nas aventuras dessa estrada, a melhor de todas as surpresas que a vida me deu.

Com os olhos cheio d’água, com o corpo vibrando esse amor que tanto me emociona, agradeço a ele por tudo que foi, é e ainda será. E deixo aqui, nessa pequena declaração de amor, toda a alegria em dividir minha existência com ele e nossos filhos. Quem dera um dia a gente poder traduzir essa plenitude em palavras, melhor mesmo é sentir a certeza de que somos melhores juntos. Te amo, Magrelo, daqui até a lua, ida e volta.

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A horta

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Ainda não choveu por aqui, apenas poucos dias de um chuvisquinho malandro que vem pra não deixar a gente perder as esperanças de uma boa tempestade. Seguimos grudados na previsão do tempo, acreditando que São Pedro não nos esqueceu e guardando nossa plantação para mais tarde. Enquanto isso, estamos trabalhando na horta da casa e colocando em prática alguns conceitos da permacultura que estudamos antes mesmo de vir pra cá.

A ideia principal é produzir nela o nosso consumo e cortar mais algumas itens da lista de compra, além da delicia de comer o que foi produzido por nós mesmos com tanto amor e dedicação. O excedente, caso haja, vira moeda de troca com outros produtores locais ou é vendido na feira de agricultores da cidade. Optamos, desde o começo, pelo plantio orgânico, mesmo sendo ele um pouco mais “trabalhoso” que o normal. Nada de agrotóxicos, nada de fertilizantes, muito preparo e cuidado com a terra para que ela cuide bem do que for plantado ali.

Hugo (meu marido ninja!), pegou pesado na enxada e capinou toda a área que escolhemos para a horta. Até esta escolha demanda uma certa atenção, temos que pensar na direção do vento, na quantidade de sombras nos canteiros, na proximidade com a casa, no escoamento de água, na inclinação do terreno. Um bocado de detalhes que, junto a outros fatores, ajudam a garantir um trabalho bem feito. Eu, que só plantei na vida feijãozinho com algodão no copo de Danoninho, vou aprendendo com Hugo (que também nunca fez isso mas mete a bunda onde o coração está!) o quão interessante, bonitas e simples são as coisas da terra.

Então fizemos quatro canteiros maiores, um pequeno para as mudas de tomate que ganhamos do vizinho e outros menores para flores que ajudam a espantar insetos e praguinhas que temem seus cheiros e cores vibrantes. Em uma das laterais replantamos algumas mudas de abacaxi que estavam em outra parte mais longe do terreno e por isso sem cuidado e alguns girassóis. Depois de prontos as “camas” das sementes e mudas, é hora de cuidar dos canteiros para recebê-las. Aqui tudo tem que ter calcário, o PH da terra é muito ácido e jogamos esse pó de pedra para amenizar. Estamos agora esperando alguns dias para poder misturar o adubo e cobrir tudo com papelão e palha de capim. Segundo a permacultura, a terra nunca deve ficar descoberta, assim ela se mantém mais úmida e a gente economiza até 50% de água para irrigá-la. Tão lógico, tão simples e tão pouco usado pela agricultura convencional.

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Equanto isso, começamos o nosso mudário, a parte mais legal onde toda a família trabalha junta. Tem sido uma delicia sentar ao pé da mangueira, encher saquinhos de terra, colocar com todo cuidado as pequenas sementes, aguar e correr pra vê-las brotando todo dia pela manhã. Nessas tardes, Tomé nos acompanha bagunçando os pacotes de semente, perguntando sobre tudo, correndo atrás da cachorra Pipoca. Nina colabora dormindo em seu cantinho e me deixa de braços livres para trabalhar. Eu queria um dia poder traduzir tudo o que sinto quando vejo a gente ali, juntinhos, de frente pras montanhas da Chapada, com solzinho bom batendo no rosto, semeando nosso alimento e construindo a vida que escolhemos viver. E tudo tão bonito, tão bom de sentir, tão certo de que era pra ser assim, tão feliz e pleno.

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Também aproveitamos essa espera do calcário na terra para fazer o composto orgânico, um fertilizante natural que a permacultura nos ensinou para dar um “up” nas mudinhas. Hugo estudou, leu, viu vídeos e botou a mão na massa. Com zero dinheiro e muita vontade, juntou adubo seco, cocô de vaca fresco, capim seco, capim fresco, palha de café, urina e pedaços de carne velhos. Cada item desses tem sua função dentro do processo, se quiser entender mais sobre o assunto, aqui tem um vídeo bem massa que explica direitinho tudo (só tem em inglês, óquei?). Depois cobriu com lona e ali fica por 18 dias até se decompor e virar um adubo riquíssimo para o solo. Uma das coisas mais fodas da permacultura, pra mim, é esse lance de aproveitar toda e qualquer coisa que se tem por perto para fazer algo rico e de grande utilidade no seu plantio. Bingo!

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Agora estamos esperando o tempo de transplante das mudas para os canteiros, cada uma tem sua hora e vamos vigiando ansiosos por vê-las fortes. Cada brotinho novo que aponta é motivo de festa na casa. Tomé vai aprendendo junto com a gente e ficamos imensamente felizes em vê-lo crescendo cercado pelas mágicas da natureza, com todo amor e respeito que ela merece! Minha gratidão sem tamanho ao pai dele, meu amor, cúmplice e companheiro, por nos guiar com tanto carinho por essa viagem linda que é o cuidado com a terra, a permacultura. Ainda temos um bocado de estrada pela frente, aí vamos nós, juntinhos!

Ah! E se a permacultura te interessar, aqui tem um monte de coisas legais pra aprender um cadinho sobre o assunto, a gente recomenda! E, se alguém também tiver dicas, livros, links legais para compartilhar, iremos adorar, nunca fizemos nada disso e toda troca é mais que bem vinda.

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