O perrengue

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Muita gente pensa que nossa vida aqui é um mar de rosas, um conto de fadas, propaganda de margarina. E essa gente toda tá quase certa mesmo, estamos caminhando pra isso porque nós realmente queremos essa vida. Mas todo percurso, tenha ele o destino final que tiver, tem curvas, buracos, quebra-molas, pedras, pneu furado. Conosco não poderia ser diferente, esse caminho longo o qual escolhemos trilhar é uma lindeza, mas tem perrengue também, meu bem.

Então, se ficar o bicho pega e se correr o bicho come, nós optamos por fazer carinho no bicho. Nossa rotina aqui não combina com uma coleção enorme de problemas pesados, chatos, grandes, gordos, insistentes, sofridos, chorões. Isso não quer dizer que eles não existam, apenas existem do tamanho que nós olhamos para eles, do peso que conseguimos lhes dar. Além disso, tem a vantagem do contexto, do cenário onde estamos inseridos, ufa! Aqui o perrengue é mais sereno, menos cruel, mais baiano na rede.

Pra falar bem a verdade, eu tenho uma preguiça danada  de sofrer os “problemas” dessa minha vida. Então, com muita praticidade, a gente enxerga, sente, racionaliza, pensa, age, soluciona e fim. Tudo sem arrastar muitos adjetivos sofridos ou custosos, carece disso não, minha gente! Qualquer tipo de perrengue toma da gente o espaço que nós mesmos lhe permitimos ocupar. Se a gente coloca fermento nele, cresce que é uma beleza e acaba nos consumindo. Se deixamos ele se esparramar sem rédeas, vai molhando tudo e nos encharca. Se o enfrentamos com medo, ele monta em cima. Se o ignoramos, ele se fortalece e nos dá boas rasteiras. Ter problema, na verdade, é um problema seu (meu, dele, dela..). Afinal de contas, assombração sabe pra quem aparece, né não?

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Listo aqui algumas encrencas que têm nos desafiado nesse começo de vida roceira delícia. Muitas delas (a maioria) podem parecer idiotas aos olhos de quem vive outro tipo de vida. Mas é o que eu já disse aqui nesse devaneio sem fim: é tudo uma questão de escolha e nós escolhemos viver “pobRemas” pequenos, simplesmente porque  cansamos e não queremos mais os grandes. Então vou chorar aqui nossas pitangas rotineiras:

–       a chuva chegou e chegou á vista, tá pagando todo o tempo que gastou em outro canto do mapa até chegar aqui. Sem reclamar (porque fizemos muita dança e ovo na janela pra recebê-la), vamos aprendendo a lidar com tudo o que ela trás, tipo: detona diariamente meus canteiros de flor, encharca nossa sala cheia de goteiras, as roupas e sapatos ficam naquela catinga de cachorro molhado;

–       conseguimos virar a terra que estava seca demais mas agora tá tudo parado porque o trator não consegue gradear o terreno que tá molhado demais. Nada de plantação até agora, aaarrrggghhhh!

–       as galinhas deram para fugir do galinheiro, as dondocas vivem comendo nossas mudas e cercando nossa horta;

–       a cabrinha foi picada por uma cobra e morreu. E agora como é que protege nossos bichos desses bichos?

–       entreter um ogrinho de dois anos e meio super/mega/hiper ativo dentro de casa quando o céu ta desabando lá fora é rebolar nos 30;

–       esses fédazunha de besourinhos estão atacando nossas plantas e comendo tudo, da couve ao pé de maçã. Uma bela duma guerra declarada!

–       a caixa d’água esvaziou e tem ar nos canos, nada de água nos banheiros e muitos banhos de balde;

–       a luz acaba quase todo dia com chuva ou sem. Missão banho/jantar/cama de um bebê e uma criOnça a luz de velas é gincana das melhores pra suar a camisa;

–       enfim o fim do dinheiro reserva, agora é pensar no “sevirol” e correr atrás do capilé até a plantação bombar!

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Todo dia aparece um pepininho desse nipe aí, a gente sabe que sem eles não tem graça. Então o melhor mesmo é saber tocar o barco e não comer bola pra ele não virar. A gente ainda tá aprendendo os problemas daqui, mas de uma forma bem leve e sadia, sem se arrastar e aumentar a proporção da coisa. Nessas horas, quando percebemos a miudeza das nossas questões diárias, sentimos também a certeza de que fizemos uma boa escolha. Já que tem que haver perrengue nessa vida bandida, que seja com vento no rosto, vista linda pras montanhas, Billie Holiday na vitrola, muito amor no peito e gratidão profunda pela formosura que é se aventurar pelo caminho.

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A saudade

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Quando a gente tem alma cigana, aprende-se a ser amigo da saudade. Na verdade, essa é quase uma imposição da vida fora de casa, me dei conta disso bem cedo, quando juntei minha matula e fui viver longe da família, aos 16 anos. Às vezes, sinto que minha alma resolveu viver essa amizade meio que como uma defesa para não sofrer esse conflito: o corpo querendo voar mundo afora e o coração sem sair do lado de quem se ama e quer bem.

Muita gente nos pergunta porque optamos por viver tão longe dos nossos, tipo “não dava pra viver essa aventura ali mesmo no interior de Minas ou em algum mato mais próximo de casa?”. Não, mil vezes não! Pra quem vive a vida de peito aberto, desrespeitar o destino é ofensa das mais graves, assim como se apegar à relações, bens materiais, lembranças do que se foi. O lance é encontrar roupa nova para sentimentos já conhecidos, é isso que aprendemos desde muito tempo. Nossa saudade hoje tem saia de babado, blusa de flores e sapato confortável. Nós a vestimos com amor e carinho, e em troca ela não nos dói. Essa forma de cultivar tal sentimento companheiro de quem vive solto foi a mais doce e respeitosa que encontramos até hoje.

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Todas as pessoas, lugares, experiências, coisas, trocas, momentos que vivemos estão guardados em nossa memória. Algumas de maneira tão forte que as sentimos vivas quando vibram em nosso corpo, quando percebemos sensações que nos transportam pra um tempo passado. Isso é lindo e alimenta nossa alma com um bocado de lembrança boa e a certeza de uma vida bem vivida. É como se tivéssemos nascido uma parede branca e, durante o caminhar, fossemos encontrando peças coloridas e nos transformando em um mosaico enorme que só será completo quando virarmos algodão doce no céu. E nada disso nos dói, causa tristeza, pesar ou vontade de que tivesse sido diferente. A saudade que sentimos é mansa e nos faz bem, afaga nosso peito e nos mostra quanto amor já demos e recebemos nessa estrada.

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Outra coisa massa que a saudade nos proporciona é a possibilidade de repensar as relações das quais nos separamos geograficamente quando nos mudamos. É realmente incrível como conseguimos nos enxergar melhor em determinado contexto quando estamos fora dele. Então estamos repensando nossos laços familiares, amizades de hoje e de ontem, desatando nós, entendendo porquês, curando feridas, sentindo a importância das pessoas, reavaliando nossos lugares na vida delas e o delas nas nossas. Um exercício natural, cheio de sensibilidade, sorrisos, choro, clareza, surpresas e insistência, porque não é o primeiro e está longe de ser o último. Amém!

Sentimos essa saudade boa de tudo e de todo mundo porque ela não nos remete à falta ou ausência. Pra ser bem honesta, acredito que seja muito pelo contrário. A saudade é um sentimento tão doce e cheio de zelo que pode ser a melhor forma de ponderar o quanto da gente o outro tem. E, cá entre nós, isso é bonito por demais!