A mãe

 

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Ando tomando uma rasteira atrás da outra da maternidade, vim aqui hoje chorar minhas pitangas com quem costuma, gentilmente, visitar essa minha gaveta de devaneios. Minha doce ilusão de que tudo seria mais fácil nessa segunda viagem ao fantástico mundo das mães virou purpurina no vento. Algumas coisas “técnicas” até são, tipo os truques mágicos para fazer dormir, a habilidade para pegar as coisas no chão com o pé, fazer xixi com neném no colo, trocar fralda em cinco segundos e de olho fechado e mais um milhão de peripércias que a rotina nos ensina.

Até aí tudo bem, acontece que o buraco é mais embaixo (na verdade, mais pra dentro). A montanha russa na qual a gente entra quando vira mãe está hoje muito mais rápida e emocionante com duas crianças em casa e dentro do meu coração, táqueopariu! A começar pelas relações entre nós: pai e filho 1 e 2, mãe e filho 1 e 2, mãe e pai, filho 1 e filho 2. Como Nina chegou há apenas 3 meses, estamos aprendendo tudo isso juntos, cada um no seu tempo e da sua forma, entre tapas e beijos.  Eu, como galinha protetora, fico querendo dar conta de todo esse emaranhado de sentimentos que rolam no meu galinheiro durante nossa jornada de crescer a e como família. Besta que sou, comecei agora a entender que não dou conta (e não tenho que dar mesmo) de resolver os problemas que cada um de nós encontra nesse caminho.

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Então agora soltei um pouco o osso dos outros e foquei no meu, que anda duro de roer, cá entre nós. Aqui em casa a gente funciona meio que como um dominó, se uma peça cai, todo mundo vai junto. Com muita força na peruca e amor pra dar e vender, fui/estou revendo minha posição como mãe nesse quebra-cabeças que é o núcleo familiar:

–       a relação de amor e ódio que Tomé tem com a irmã é dele e eu não tenho muito o que fazer senão observar pra entender e orientar. Ele precisa ser livre prá viver essa novidade e manifestar da forma como bem entender. Ao invés de ficar metendo minha mão atrevida na história deles, agora eu apenas estendo essa mão para dar apoio, prá ele entender que “tamo junto” nessa viagem;

–       também não morro mais de tristeza quando ele olha prá mim e diz que vai à cidade com o pai e que “você não vai com a gente e vai ficar aqui em casa sozinha com a Nina, mamãe”! Diminuí o melodrama em 70% e agora morro de rir, ufa!

–       meu tempo de mulher do meu marido diminuiu um tanto para aumentar o de mãe e pai. O que era uma tragédia grega se transformou na delicada rotina de simples gestos e cuidados que reafirmam nosso carinho como casal. Entre uma tarefa e outra nos encontramos para um abraço de mão suja de terra ou um beijinho com um bebê no meio;

–       o lado muiézinha foi embora e nem me deu tchau. Já chorei muito essa não despedida, mas resolvi me divertir e acho lindo vestir calça suja, calçar bota velha e pegar na enxada com mão cheia de calos. Descobrir que a beleza feminina é tão intensa que se manifesta mais para dentro do que pra fora é libertador por demais, recomendo!

–       tem coisa que só quem é mãe entende, nossos céus e infernos não são legíveis à outras pessoas (principalmente os infernos). Então larguei mão do chororô e da birra por ser incompreendida e decidi capinar um lote para conversar e resolver as coisas eu “consigo mesma”;

–       e tem mais coisa, muito mais. E ainda vai ter mais, muito mais. Avemaria!

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Mas o mais legal de tudo é passar por essa tormenta a cada três meses, é entender que isso nunca vai acabar, é chorar e rir de si mesmo o tempo todo, é perceber que você está mudando, é observar a mudança no outro, é assumir os erros/perdas/vacilos, é ter vontade de tentar outra vez, é colocar pra fora nem que seja gritando sozinha no meio do mato, é olhar pra dentro e não perder a essência de vista, é não desanimar, é buscar lucidez  pra agir, é ouvir o que pulsa no peito, é se atentar aos detalhes, é tanta coisa que eu ainda não descobri o que é.

Amor. É só isso que a gente precisa levar de monte na mala durante essa viagem longa que é ser mãe. E isso aqui em casa tem de sobra, ah tem! E é por isso que, mesmo depois de uma tarde inteira chorando pitangas e arrumando as gavetas do coração, eu fecho os olhos e escuto uma vozinha lá no fundo dizendo pra mim: que tal um terceiro filho?

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O povo

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A vida sempre me presenteou com gente linda enfeitando todos os cantos pelos quais passei, lucky me! É como se nesse processo doido de preencher as linhas do caderno em branco que nascemos fossemos encontrando letras, palavras e desenhos que se encaixam e vão construindo nossa história. Muitas delas me deram conforto, interrogações, alegria, amor. Outras ainda moram em mim pelo incômodo, pela forma como foram espelho e me fizeram descobrir coisas escondidas lá no brejo do meu peito. Na intensa missão de não ser uma ilha, é bem válido levar na mala boa dose de atenção e coragem para entender como, quando e porque as pessoas nos completam.

Aqui tenho vivido o outro de forma bem intensa. Cercada de mais mato que gente, venho aprendendo como nunca o valor das pessoas. O povo daqui é lindo, meu deus! Moramos em uma região povoada por mais ou menos 10 casas e cada uma delas com, no mínimo, seis pessoas. Todas estas famílias fazem parte de uma grande família, todo mundo aqui é parente de todo mundo. Ainda me confundo com tantos laços e acho que Dodô é irmão de Lena e filho de Iázinha quando, na verdade, Lena é esposa de Dodô, que é irmão de Cristiane, que é sogra de Iázinha e a confusão por aí segue. Nós somos os únicos “intrusos” nesse grande ninho, mas fomos recebidos como se sempre tivéssemos sido parte dele. A matriarca de toda essa gente é vovó Zi, uma senhora de 86 anos, nossa vizinha, minha melhor amiga.

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Vovó Zi é uma árvore forte e suas raízes espalhadas por essa terra são pedaços de todo o bem querer que ela carrega em seus imensos 1,50 de altura. Cada filho, neto, bisneto, sobrinho, genro ou nora espalha por gerações a simplicidade, a honestidade, o carisma, o zelo, a honra, o respeito, a fé e o amor que dela brotou. Quando ela entra em silêncio pela porta da nossa casa para uma prosa de final de tarde, é como se uma brisa fresca batesse e limpasse cada canto desse lugar. A leveza de seus passo miúdos é sinônimo da calma que o tempo impôs ao corpo. O câncer na pele é a lembrança constante de uma vida inteira vivida na lida de muié macho. O amor pelas flores e a esperteza para os mistérios da terra são respeito e desejo de envelhecer igual.

Eu sempre sinto que tenho muito a aprender aqui, quando eles pensam que nós é que trazemos conhecimento da cidade. Mal sabem eles que aquele tanto de gente anda meio perdido e sem saber de muita coisa, ao menos se esquecendo das mais importantes. O costume aqui é entrar sem bater porque todo mundo é bem vindo, é levar couve pros vizinhos se a chuva foi boa e a horta tá cheia, é dividir a água da nascente em “partes” iguais, é trocar mudas para que nada deixe de crescer nessa terra, é cumprimentar com olho no olho e aperto de mão firme, é prometer e cumprir, é cuidar das crianças dos outros, é pagar os favores com muita gratidão e um litro de leite ou meio quilo de café fresquinho.

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Tudo bem simples e verdadeiro. E acho que é essa pureza que beira a inocência é que me encanta e me provoca tanto para uma mudança urgente. Ainda dá tempo de ser melhor, agora é a hora de limpar o brejo do peito e buscar nessas pessoas a grandeza que aquela outra vida me escondeu. Aqui a gente consegue imaginar de forma bem clara como o tempo passará em cada um de nós, um rio largo e cheio de força. Espero de verdade que consigamos viver esse povo com a beleza que ele merece e, pra isso, precisamos nos tornar mais bonitos também. E acho que esse seria um bom começo de ano, sabe? Desistir daquela velha e cansada lista do que fazer ou não nos próximos 365 dias e pensar em como SER uma mudança positiva durante cada segundo deles. Nossa família tá pegando carona na grandeza desse povo aqui e te deseja o mesmo, quem sabe assim o mundo ganha de presente mais vovós Zi e fica mais cheio de doçura e amor.

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