O povo

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A vida sempre me presenteou com gente linda enfeitando todos os cantos pelos quais passei, lucky me! É como se nesse processo doido de preencher as linhas do caderno em branco que nascemos fossemos encontrando letras, palavras e desenhos que se encaixam e vão construindo nossa história. Muitas delas me deram conforto, interrogações, alegria, amor. Outras ainda moram em mim pelo incômodo, pela forma como foram espelho e me fizeram descobrir coisas escondidas lá no brejo do meu peito. Na intensa missão de não ser uma ilha, é bem válido levar na mala boa dose de atenção e coragem para entender como, quando e porque as pessoas nos completam.

Aqui tenho vivido o outro de forma bem intensa. Cercada de mais mato que gente, venho aprendendo como nunca o valor das pessoas. O povo daqui é lindo, meu deus! Moramos em uma região povoada por mais ou menos 10 casas e cada uma delas com, no mínimo, seis pessoas. Todas estas famílias fazem parte de uma grande família, todo mundo aqui é parente de todo mundo. Ainda me confundo com tantos laços e acho que Dodô é irmão de Lena e filho de Iázinha quando, na verdade, Lena é esposa de Dodô, que é irmão de Cristiane, que é sogra de Iázinha e a confusão por aí segue. Nós somos os únicos “intrusos” nesse grande ninho, mas fomos recebidos como se sempre tivéssemos sido parte dele. A matriarca de toda essa gente é vovó Zi, uma senhora de 86 anos, nossa vizinha, minha melhor amiga.

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Vovó Zi é uma árvore forte e suas raízes espalhadas por essa terra são pedaços de todo o bem querer que ela carrega em seus imensos 1,50 de altura. Cada filho, neto, bisneto, sobrinho, genro ou nora espalha por gerações a simplicidade, a honestidade, o carisma, o zelo, a honra, o respeito, a fé e o amor que dela brotou. Quando ela entra em silêncio pela porta da nossa casa para uma prosa de final de tarde, é como se uma brisa fresca batesse e limpasse cada canto desse lugar. A leveza de seus passo miúdos é sinônimo da calma que o tempo impôs ao corpo. O câncer na pele é a lembrança constante de uma vida inteira vivida na lida de muié macho. O amor pelas flores e a esperteza para os mistérios da terra são respeito e desejo de envelhecer igual.

Eu sempre sinto que tenho muito a aprender aqui, quando eles pensam que nós é que trazemos conhecimento da cidade. Mal sabem eles que aquele tanto de gente anda meio perdido e sem saber de muita coisa, ao menos se esquecendo das mais importantes. O costume aqui é entrar sem bater porque todo mundo é bem vindo, é levar couve pros vizinhos se a chuva foi boa e a horta tá cheia, é dividir a água da nascente em “partes” iguais, é trocar mudas para que nada deixe de crescer nessa terra, é cumprimentar com olho no olho e aperto de mão firme, é prometer e cumprir, é cuidar das crianças dos outros, é pagar os favores com muita gratidão e um litro de leite ou meio quilo de café fresquinho.

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Tudo bem simples e verdadeiro. E acho que é essa pureza que beira a inocência é que me encanta e me provoca tanto para uma mudança urgente. Ainda dá tempo de ser melhor, agora é a hora de limpar o brejo do peito e buscar nessas pessoas a grandeza que aquela outra vida me escondeu. Aqui a gente consegue imaginar de forma bem clara como o tempo passará em cada um de nós, um rio largo e cheio de força. Espero de verdade que consigamos viver esse povo com a beleza que ele merece e, pra isso, precisamos nos tornar mais bonitos também. E acho que esse seria um bom começo de ano, sabe? Desistir daquela velha e cansada lista do que fazer ou não nos próximos 365 dias e pensar em como SER uma mudança positiva durante cada segundo deles. Nossa família tá pegando carona na grandeza desse povo aqui e te deseja o mesmo, quem sabe assim o mundo ganha de presente mais vovós Zi e fica mais cheio de doçura e amor.

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27 pensamentos sobre “O povo

  1. Olha, nesse ponto eu sinto que tenho sorte: morar numa cidade pequena, de 10 mil habitantes, me possibilita também “lidar” com essa simplicidade, com essa coisa de entrar na casa sem bater (pelo menos na de alguns dos meus vizinhos”. Seu blog é muito inspirador e emocionante. Parabéns por despertar sentimentos bons e desejos de mudança em nós, leitores.

    Beijo!

  2. e a mineirinha-baiana puxa mais um cadinho da sergipana-paulista para a real…
    Manu, leio e releio os seus textos sem preguiça. ai, ai.. até suspiro.
    mas já estou esperando o livro, tá? rsrs
    recheadinho de fotos de Tomé, Nina e seus bravos pais …
    bjs

  3. Que lindo !
    Que vida linda vc tem.
    A cada post q leio, confesso que tenho mais vontarde de fazer o mesmo. Largar “tudo” (como se esse tudo fosse importante) e ir morar numa cidadezinha do nordeste. Vc nos inspira. Quem sabe um dia, né ?
    bjs querida prá vc e sua família

  4. a simplicidade tem seus encantos, e como é bom viver assim, tenho muita saudade e vontade de fazer o mesmo q vces pegar os meus filhos e fazer o de volta pra minha terra. Esse povo é lindo do jeitinho q vce falou entra sem bater, faz amizade facil, acolhe estende a mão. Parabéns pela sua escolha.

  5. Linda, nobre e forte mulher! Compartilho de seus sentimentos! Quando crescer quero escrever igual a você! Ao passear pela Chapada venha a Igatu nos visitar com essa linda família, a nossa os espera de braços abertos! Beijos e feliz 2014 para todos nós!

  6. adoro o jeito que escreve e a sua visão em tudo são enfeitados pela simplicidade…
    vou acompanhando por aqui e admirada por sua força e coragem….
    parabens, querida!
    bjos em vc e sua familia linda

  7. Emocionada com os seus relatos, nunca vi ninguém descrever com tanta doçura os encantos da minha linda cidade “Piatã”, de longe posso sentir o cheiro desse povo e o quando eu amo tudo isso… Obrigada por cada palavra o “Nota sobre uma escolha” diminuirá minha saudade desse “MEU PEDACINHO DE CHÃO”. Bjs Manu :*

  8. Olá Manu ao ler um pouco da sua história de vida um antigo sonho transborda, aqui e agora, dentro do meu peito, e já não cabe mais na gaveta do coração, precisa sair, ganhar estrada, ganhar as montanhas e matas. Um sonho que começou a ser germinado há 20 anos atrás qdo passei alguns meses na Chapada dos Guimarães, e os caminhos da vida foram aos poucos tentando me enquadrar na vida da cidade, e hoje estou aqui numa cidade do interior de Minas, que já se tornou grande demais para mim e agora já é hora de voltar para roça, de onde nunca devia ter saído!

Solte o verbo!

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