A grana

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A dependência exagerada do dinheiro sempre foi uma feridinha no nosso pé (pra não falar uma pereba mesmo!). O lance de trabalhar pra pagar contas, trabalhar mais porque as contas aumentaram, ganhar mais porque precisa-se de mais e precisar custa caro, soa pra gente como correr atrás do rabo. Então, quando nos mudamos pra cá, trouxemos na nossa matula o objetivo de tentar algo bem próximo da auto-suficiência. Temos plena consciência de que este é um caminho bem longo, mas sem a ferida no pé fica mais fácil caminhar.

Toda essa firula pra tocar em um assunto que muita gente vem me pedindo por e-mail, mensagem de Facebook e nos comentários deste meu caderno de devaneio: quanto de dinheiro a gente precisa pra jogar a vida bandida fora e começar essa outra história no meio do mato? Pois bem, antes da resposta, algumas considerações beeeeem importantes:

–       pra viver essa vida você tem que estar pronto para se entregar a ela de corpo e alma, não adianta estar aqui com metade do coração preso em uma saudade doída de lá;

–       é preciso entender que este cenário verde não combina com sapato de salto e batom vermelho, se é que você me entende;

–       as necessidades são reduzidas a metade, mesmo porque você não tem um quarteirão fechado de lojas nos 500km mais próximos;

–       o desapego é seu exercício diário, tipo yoga pela manhã;

–       a criatividade tem que ser elevada à máxima potência uma vez que, se realmente precisa de algo que não tem, você pensa trinta vezes nas possibilidades de fazer antes de comprar pronto;

–       a felicidade dos seus filhos não está nas roupas mais bacanudas e nos 184795 brinquedos que falam, pulam e fritam ovos. Reaproveitar peças usadas de outras crianças é a forma mais inteligente de economizar e evitar a pemba do consumismo exagerado, assim como não se compra em loja alguma a delícia de uma tarde com massinha feita em casa e trepação no pé de goiaba;

–       tem hora que você pira em não ter uma reserva no banco pra “se alguma coisa acontecer”, mas meia hora depois passa;

–       “dinheiro é um pedaço de papel que não se leva par ao céu”, um mantra a se aprender.

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E mais um monte de coisas que eu poderia ficar aqui tagarelando por horas, e tantas outras dessa relação que eu ainda nem descobri, uia! Mas, voltando à coisa prática da nossa experiência, vamos começar do começo.

Os cinco hectares de terra foram comprados pela minha sogra e seu ex-marido, ela mora na França e a terra estava parada com a casa ¾ pronta. Viemos e terminamos o que faltava na sua estrutura, acabamento, alguns móveis e outras cositas mas. Também investimos em ferramentas pra trabalhar e todo o sistema de irrigação da terra (canos, mangueiras, bomba de água e uma parafernalha sem fim).

Nossos custos fixos mensais são internet e eletricidade, enquanto não criamos nosso próprio sistema de energia solar, que tá guardadinho na lista de planos atrevidos! Soma-se aqui também um bocado de bosta de vaca. Enquanto não temos a nossa, temos que comprar esterco de outras fazendas para cuidar da horta orgânica, plantas e pomar.

A lista do supermercado vai diminuindo cada vez mais a medida que a gente vai aprendendo a trocar uma coisa pela outra, vai aumentando nossa produção própria e vai abrindo mão de coisas que acreditava não poder viver sem, tipo biscoito Passatempo recheado! Alguns exemplos: Tomé não usa mais fralda e as da Nina são de pano herdadas do filho de uma querida amiga de SP. Lencinhos de limpar bumbum foram trocados por algodão e chá de camomila, que é um super cicatrizante (plantamos a camomila no herbário pra isso também).  Sabão em pó foi trocado pela Wash Ball e o detergente virou sabão de côco pra não sujar a água da pia que irriga as bananeiras. Temos a horta+pomar+galinhas+cabra que nos alimentam bem com sua produção (mas tem hora que acontece de empacar tudo, aafff!). Fazemos iogurte, bolo, geléia e pão em casa, o café a gente troca com o vizinho e por aí vai…

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A grana que trouxemos pra cá foi a venda do nosso carro, algo em torno de 15 mil “realidades”. Todo ele foi gasto com investimentos na casa, na terra e em nosso sustento, lembrando que no começo não tínhamos produção de nada e por isso gastávamos mais. Hoje vivemos com muito pouco e seguimos planejando uma série de benfeitorias muito necessárias em nossa terra. Por isso, enquanto não tiramos 100% do que o plantio nos oferece, contamos com alguns freelas de produção de texto que faço pela internet. Um trampo termina o quarto de hóspedes, outro melhora o galinheiro, outro faz a caixa d’água. E assim seguimos, algumas horas bem perto do olho do furacão, a aprender essa nova forma de viver o dinheiro. O mais importante é entender que não é ele quem manda nessa bagaça! Somos nós que ditamos as regras por aqui e damos a ele o tamanho que queremos dentro de nossas vidas. E não é utopia, não é impossível, é uma escolha, mais uma vez. Talvez enfrentar a grana de frente seja o maior desafio dessa nossa cultura capitalista, pobres de nós! Mas, como me disse o amigo Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem. E isso, mermão, aqui tem de sobra! Rá!

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A liberdade

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Estes dias tem ventado muito aqui na Chapada, um vento forte e insistente que faz barulho e deixa nosso cabelo piaçava mode on. Da janela do meu quarto fico olhando a paisagem enquanto Nina cochila no meu colo. Vigio, em silêncio, a dança das árvores e sinto que essa ventania vem soprando algumas coisas dentro de mim.

Desde que me entendo por gente tenho uma certa fascinação por vento e borboleta. Demorei um tempo pra entender, mas hoje sou certa de que esses foram os primeiros ícones “paupáveis” de uma sensação que me guia nesta vida bandida, a liberadade. Minha infância foi na fazenda dos meus avós, numa cidade-ovo perto de Barbacena, onde tomei durante anos pílulas deliciosas de pé no chão, barro na roupa, corrida no mato, lombo de cavalo, brincadeira na chuva. Acho que lá também fui picada pelo mosquito bicho solto, esse que tem um veneno tão forte que corre no meu sangue até hoje. Depois de crescida, tive meus pais abrindo portas pra mim o tempo todo, me mostrando um mundo lá fora, me dando bases fortes pra sair de casa e ganhar estrada. Nessa hora adolescente, ganhei de presente uma frase que não me lembro bem de onde veio, mas dizia algo tipo “asas pra quem tem, céu pra quem o quer”. Daí em diante nunca mais larguei minha fantasia de borboleta, sendo carnaval ou não, pego carona no vento e desfilo com ela por onde for.

Se hoje paro pra pensar, percebo quantas coisas a liberadade já me tirou nessa vida. Namorados atrevidos que queriam cortar minhas assinhas, amigos que não entendiam vôos distantes, empregos que me exigiam bunda quieta na cadeira por muito tempo, dinheiro que não pagava viagens mundo afora. A liberdade é cúmplice da escolha e da coragem, pra viver e entender a danada a gente tem que sacar que coisas vão pra outras virem. E eu sou completamente a-pai-xo-na-da pela sensação de ser livre, de guiar meus passos, de fazer meus caminhos, de me deixar levar pelo vento, de seguir sem rumo, de abrir mão dos planos, de deixar o acaso falar mais alto, de correr solta, de ser leve.

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Agora a minha liberdade não é mais adolescente, ela tem família, é mais madura e responsável, mas nem por isso menor. A nossa relação de amor agora é em grupo porque me casei com outro bicho solto, porque meus filhos vivem como eu vivi a infância e podem crescer como eu: dando uma banana para a mamãe aos 15 anos e ganhando mundo com mochila nas costas (ai meu coração!).

É fato que a constância da vida adulta tenta rasgar minha fantasia de borboleta frequentemente. Mas eu, que não sou boba e osso bem duro de roer, bato de frente e pago pra ver. A maternidade foi a primeira tentativa mais séria, ouvi inúmeras vezes coisas tipo “ah, menina, agora acabou sua andança! Filho prende a gente por demais!”. Daí pensei eu “consigo” mesma: se ser mãe é algo que pode roubar minha liberdade, a tal da maternindade só pode ser tão boa ou melhor que a coisa que eu mais prezo nessa vida. Sendo assim, vamos ver pra crer, que venham as crianças! E vieram, e quando eu comecei a sentir que poderia mesmo estar com as pontas das asas quebradiças, tratei de pegar as malas e me picar com meu companheiro soltinho na vala que nem eu!

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Hoje, aqui nesse matão de meu Deus, no meio desse nada, cercada de verde, sou tão livre quanto esse vento que sopra na minha janela. Isso porque, depois de tanto tempo de casamento, saquei que a liberdade é muito maior do que o ir e vir. Ela é pra gente aqui a leveza das nossas próprias escolhas, a não culpa ou peso sobre nossos erros, a simplicidade do nosso caminho, a grandeza do nosso amor como família, a força do agora, a não preocupação com um futuro distante, o respeito à individualidade de cada um, o não enquadramento à um rótulo social do qual não gostamos, o prazer de sentir o tempo passar manso, o café com bolo e brincadeira no meio do expediente de uma terça-feira despretensiosa.

A minha fantasia de borboleta pode estar velha, amassada, com um furo aqui e outro ali.  Mas dela eu não me desfaço e é com ela que convido o vento pra dançar essa música tão boa que é a vida. Bora ser livre, minha gente!

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