A mulher

IMG_5657

O exercício de se desprender de certas coisas parece ser infindável por aqui. Quanto mais tempo ficamos, mais nossa percepção sobre algumas relações vai mudando e exigindo da gente uma faxina interna daquelas de suar a camisa. Estamos meio cobra trocando de pele, aumentando um gominho na ponta do chocalho, amadurecendo e ficando (ao menos tentando) mais bonitos internamente. Muitas vezes tudo isso nos dói, muitas mesmo. Mas sabemos onde queremos chegar e essa certeza sopra no ar toda a poeira fina e marrom que acontece no caminho.

A bola da vez pra mim é a figura feminina (Hugo também tem os processos dele e uma hora ele chega pra derramar isso por aqui também!). A mulher que eu era, a que elas são por aqui, a que eu sou e a que eu quero me tornar, a que minha filha pode aprender a ser e meu filho a respeitar. Esse bolo de questões me leva pra uma viagem bem intensa láááááá  pra dentro, e essa é sempre hora de apertar os cintos, ai! Então achei melhor melhor começar pela observação, pelo silêncio antes da interrogação ou da afirmação, pelo peito aberto que evita o julgamento e o auto flagelo.

IMG_5656

As mulheres daqui são espinhas dorsais fortes e eretas. Elas estão na arrumação e limpeza da casa, no cuidado rotineiro com a fragilidade dos mais velhos, debaixo do sol forte batendo enxada na plantação, na feira vendendo a colheita, na educação dos filhos, num bico ou outro fira de casa, na beira do fogão a lenha, nos problemas a serem resolvidos na cidade, na cama do marido. Sem elas os maridos, filhos, genros, sobrinhos, netos e irmãos seriam bem menos fortes para dar conta de todo o resto (que não é pouco também). São elas as guardiãs do bem estar masculino, a outra roldana da harmoniosa engrenagem família.

Meu lado queimador de sutiã, que veio de uma vida independente, trabalhando sempre fora, sem muita cozinha ou tanque, quase nada de tempo para se dedicar ou entender como se cuida (bem) de um lar ou de um marido, tem abaixado a cabeça e encontrado outra forma de ser mulher por aqui. Aos poucos, começo a perceber que o conceito de submissão não tem nada a ver com o que se vê nas relações por aqui (ou que eu, infelizmente, aprendi por aí), que coisa de mulher pode ser sim coisa de mulher e que ela não precisa fazer nada além daquilo pra provar alguma coisa pro homem dentro ou fora de casa. Que existe uma aceitação plena do seu espaço e que isso não esbarra num orgulho ou numa necessidade de ser mais ou ser diferente. Muito pelo contrário, elas são conscientes da importância do trabalho que fazem e não almejam outra posição porque ali é o lugar onde conseguem esparramar todo seu amor pelos seus. Cuidar tão de perto, de muita coisa, de tanta gente, com tanto afinco, todo santo dia, durante uma vida inteira, não é para qualquer um.

IMG_5663

E eu acho isso lindo, como nunca senti antes. Porque tô começando a entender e querer me doar pra esse lugar com toda vontade que vibra aqui dentro. Tô trocando de pele e deixando ruir uma mulher que vivia do lado de fora de casa pra tentar erguer outra que da o sangue por esse ninho cheio de trabalho feio com amor. Não há de ser uma rotina fácil, cansa, exige disciplina diária, coragem e paciência. Mas em troca vem coisa que eu nem sei contar aqui, coisa que eu ainda vou descobrir e sentir com o passar do tempo, coisa que eu já consigo perceber me enchendo de satisfação. E, na real, é isso que importa mesmo, não ser uma regra ou uma exceção, mas ser aquilo que se quer e da conta de ser. Eu escolhi ser dona de casa, ser zeladora do meu castelo, protetora dos meus pintinhos, escudeira fiel do meu companheiro. Optei pelo que creio ser o desafio mais gostoso, pela adrenalina da transformação, pelo que eu acredito e não pelo que me impuseram ou me disseram que era pouco para uma mulher.

Então é dada a largada, que venham as delícias e mazelas desse caminho novo, dessa nova figura feminina. Me desejem boa sorte, porque amor pra renascer e seguir tentando evoluir a gente aqui tem pra dar e vender!

IMG_5666

A viagem

Nina e nêga-1

Depois de nove meses saí da Chapada para voltar a Minas, rompendo, pela primeira vez, as barreiras dessa nossa bolha verde. Por isso andei ausente aqui do Notas e também por isso voltei correndo, pra tentar organizar em palavras esse furacão que a viagem provocou no meu peito. Tem hora que eu preciso cuspir as coisas pra entender melhor o que elas são e como estão em mim, e as palavras sempre foram melhores aliadas nesse processo. Então, meu bem, senta que lá vem chumbo grosso! Rá!

O que botou meus pés na estrada foi o Festival de Fotografia de Tiradentes, um freela que já faço desde 2011 e que esse ano me deu a delícia de uma exposição com algumas fotos de Tomé. Então, casquei no cerrado com Nina, o irmão dela, uma malinha vagabunda de roupas, muita animação e um borboletário inteiro no estômago. Tive a sorte de ter comigo nessa empreitada uma amiga/irmã que veio de Sampa e minha santa mãezinha para ajudar a dar conta do recado filho 1+filho 2+ trabalho (sem essas boas quatro mãos extras a mamãe polvo aqui teria perdido metade da juba!).

                                                Nina e nêga-1-2 Nina e nêga-11 Nina e nêga-10

Fiquei 10 dias longe de casa e, se ficasse 11, teria um mini infarto, confesso. Esse momento fora daqui foi um cacho de sensações que ainda está dependurado aqui dentro. Vou descascando uma por uma, amassando, sendo amassada, misturando outras coisas, engasgando com o doce e o amargo, tirando as partes podres, devorando com boca boa, enchendo a barriga. Foi lindo rever os (bons) amigos e perceber que a saudade hoje é diretamente proporcional ao amor que nos une além mar. Revisitar a casa da mãe e dos avós foi um carinho na alma e um afago na memória, que trouxe de volta até o cheiro de tantos bons momentos juntos. Encontrar gente nova, falar sobre coisas que não terra, planta, praga e bicho, ver mais de 50 pessoas juntas num mesmo lugar, comer uma porcaria ou outra foi divertido e deu um frescor “nas ideia”!

Foi massa também perceber que a coisa do consumo exagerado saiu desse corpo que me pertence e ficou enterrado num pedaço de chão qualquer por aí. Em meio a tanta oferta, loja, coisa, tranqueira, propaganda, atrativos, necessidades inventadas, novidades e tecnologias que deixam a gente tonta, passei batido na vontade de ter alguma coisa. Meus objetos de desejo durante toda a viagem foram um caminhão de madeira, um quebra cabeça e um jogo da memória pro Tomé, além da goiabada cascão pra Hugo, tudo por 60 realidades. E o mais interessante é que foi tudo muito natural, não fiz esforço algum para negar meus desejos, eles só não existiram e ponto. Acho que hoje preciso mais de coisas que preenchem os quereres da alma do que coisas que consigo pegar com as mãos, amém mil vezes!

Untitled-1

Mas, por outro lado, um tanto de coisas me incomodou e me fez viver 10 dias com os pés lá e com o coração aqui. As crianças foram o reflexo dessa confusão e me surpreendeu sentir o quão habituadas e adaptadas elas estão com a vida na Chapada, e esse era o recado que eles me davam diariamente. A cidade (e a cultura que nela vibra) impôs sapato no pé e tirou o pé descalço, xixi no banheiro e não no matinho, calor insuportável sem brisa fresca, muita informação visual e pouco tempo para digeri-la, barulho de carro, buzina, gente conversando e nada de passarinho ou silêncio. Isso sem contar que passei quase 10 noites sem dormir tentando acalmar a agitação da Nina que me dizia, entre um choro e outro, que a calmaria da nossa casa era o melhor lugar do mundo (e toda vez que ela “falava” isso eu me perguntava 24582485 vezes se ela realmente precisava passar por isso. Coisa/culpa/besteira de mãe, deve ser).

Sair daqui foi uma experiência estranha e valiosa, ao mesmo tempo. Hoje sinto como se essa aventura tivesse atravessado meu caminho para me dizer que tô sim na estrada certa. Que nossos filhos parecem estar felizes com a infância que estamos proporcionando a eles, que eu amo demais meu companheiro e que, por isso, a gente precisa deixar nossa relação respirar um bocado da nossa ausência vez ou outra. Que família e amigos são tão delícia quanto dançar na sala like no one’s watching! Sinto que eu comecei a acalmar no peito aquele sentimento insistente e desbotado de não pertencer a lugar nenhum. Que eu pertenço mesmo é ao meu amontoado de amor Hugo+Tomé+Nina, nesse lugar eu fico linda, loira e japonesa.

Nina e nêga-2

Minha gratidão e meu amor eterno à mamãe+irmãos, vovó+vovô, amigos+seus filhotes, Festival de Fotografia de Tiradentes+equipe linda por toda a delícia que foi (re) vê-los e morrer de rir, inclusive da saudade que sentimos uns dos outros.

Sair foi bom, mas voltar pro aconchego da nossa bolha verde foi muito melhor!

IMG_2673_2769

O sumiço

Captura de tela 2014-04-03 às 21.42.11

Gente, ando meio sumida deste devaneio sem fim que é o Notas. Mas é que andei viajando e só agora voltei pra casa, ufa! Tô organizando a vida dentro e fora do peito e já venho contar como foi esse primeiro rompimento da bolha verde!

Beijo pra todo mundo!

Manu