A viagem

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Depois de nove meses saí da Chapada para voltar a Minas, rompendo, pela primeira vez, as barreiras dessa nossa bolha verde. Por isso andei ausente aqui do Notas e também por isso voltei correndo, pra tentar organizar em palavras esse furacão que a viagem provocou no meu peito. Tem hora que eu preciso cuspir as coisas pra entender melhor o que elas são e como estão em mim, e as palavras sempre foram melhores aliadas nesse processo. Então, meu bem, senta que lá vem chumbo grosso! Rá!

O que botou meus pés na estrada foi o Festival de Fotografia de Tiradentes, um freela que já faço desde 2011 e que esse ano me deu a delícia de uma exposição com algumas fotos de Tomé. Então, casquei no cerrado com Nina, o irmão dela, uma malinha vagabunda de roupas, muita animação e um borboletário inteiro no estômago. Tive a sorte de ter comigo nessa empreitada uma amiga/irmã que veio de Sampa e minha santa mãezinha para ajudar a dar conta do recado filho 1+filho 2+ trabalho (sem essas boas quatro mãos extras a mamãe polvo aqui teria perdido metade da juba!).

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Fiquei 10 dias longe de casa e, se ficasse 11, teria um mini infarto, confesso. Esse momento fora daqui foi um cacho de sensações que ainda está dependurado aqui dentro. Vou descascando uma por uma, amassando, sendo amassada, misturando outras coisas, engasgando com o doce e o amargo, tirando as partes podres, devorando com boca boa, enchendo a barriga. Foi lindo rever os (bons) amigos e perceber que a saudade hoje é diretamente proporcional ao amor que nos une além mar. Revisitar a casa da mãe e dos avós foi um carinho na alma e um afago na memória, que trouxe de volta até o cheiro de tantos bons momentos juntos. Encontrar gente nova, falar sobre coisas que não terra, planta, praga e bicho, ver mais de 50 pessoas juntas num mesmo lugar, comer uma porcaria ou outra foi divertido e deu um frescor “nas ideia”!

Foi massa também perceber que a coisa do consumo exagerado saiu desse corpo que me pertence e ficou enterrado num pedaço de chão qualquer por aí. Em meio a tanta oferta, loja, coisa, tranqueira, propaganda, atrativos, necessidades inventadas, novidades e tecnologias que deixam a gente tonta, passei batido na vontade de ter alguma coisa. Meus objetos de desejo durante toda a viagem foram um caminhão de madeira, um quebra cabeça e um jogo da memória pro Tomé, além da goiabada cascão pra Hugo, tudo por 60 realidades. E o mais interessante é que foi tudo muito natural, não fiz esforço algum para negar meus desejos, eles só não existiram e ponto. Acho que hoje preciso mais de coisas que preenchem os quereres da alma do que coisas que consigo pegar com as mãos, amém mil vezes!

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Mas, por outro lado, um tanto de coisas me incomodou e me fez viver 10 dias com os pés lá e com o coração aqui. As crianças foram o reflexo dessa confusão e me surpreendeu sentir o quão habituadas e adaptadas elas estão com a vida na Chapada, e esse era o recado que eles me davam diariamente. A cidade (e a cultura que nela vibra) impôs sapato no pé e tirou o pé descalço, xixi no banheiro e não no matinho, calor insuportável sem brisa fresca, muita informação visual e pouco tempo para digeri-la, barulho de carro, buzina, gente conversando e nada de passarinho ou silêncio. Isso sem contar que passei quase 10 noites sem dormir tentando acalmar a agitação da Nina que me dizia, entre um choro e outro, que a calmaria da nossa casa era o melhor lugar do mundo (e toda vez que ela “falava” isso eu me perguntava 24582485 vezes se ela realmente precisava passar por isso. Coisa/culpa/besteira de mãe, deve ser).

Sair daqui foi uma experiência estranha e valiosa, ao mesmo tempo. Hoje sinto como se essa aventura tivesse atravessado meu caminho para me dizer que tô sim na estrada certa. Que nossos filhos parecem estar felizes com a infância que estamos proporcionando a eles, que eu amo demais meu companheiro e que, por isso, a gente precisa deixar nossa relação respirar um bocado da nossa ausência vez ou outra. Que família e amigos são tão delícia quanto dançar na sala like no one’s watching! Sinto que eu comecei a acalmar no peito aquele sentimento insistente e desbotado de não pertencer a lugar nenhum. Que eu pertenço mesmo é ao meu amontoado de amor Hugo+Tomé+Nina, nesse lugar eu fico linda, loira e japonesa.

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Minha gratidão e meu amor eterno à mamãe+irmãos, vovó+vovô, amigos+seus filhotes, Festival de Fotografia de Tiradentes+equipe linda por toda a delícia que foi (re) vê-los e morrer de rir, inclusive da saudade que sentimos uns dos outros.

Sair foi bom, mas voltar pro aconchego da nossa bolha verde foi muito melhor!

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37 pensamentos sobre “A viagem

  1. Que lindo o seu relato, Manu! Admiro demais toda a história de vocês e fico feliz pelo que estão vivendo e por nos mostrarem que o que importa é quem a gente tem nessa caminhada. Copiei esse trechinho em que você diz: “Acho que hoje preciso mais de coisas que preenchem os quereres da alma do que coisas que consigo pegar com as mãos, amém mil vezes!”, porque a cada dia me identifico mais com isso!

    Beijo grande!

  2. Não é a toa q passamos a ser chamados de Fam. Zeca Tatu , hj somos avessos a multidão ,barulho,shopping e tudo q nos tire esse pouco de sossego q ainda temos do qual não abro mão. Q/ bom Manu foi esta viagem , mas tenho plena certeza q o retorno à caverna foi melhor mil vezes e falo isso em relação as crianças Esta calmaria q temos no mato reflete de maneira tão positiva em crianças que qnd vejo meu Bento diante de outras crianças na escola me assusto , mas nada me faz desistir do meu objetivo , qnto menos melhor , qnto mais puder afastá-lo de certas contaminações creio q terei infinitos lucros , aposto nisso diariamente . Fica na Paz ! Abços Afetuosos. Maria Morais.

    • Que alegria! é assim que me sinto com seu texto. Falo com meus amigos que são textos “domingo de sol” mesmo que na segunda. Também agradeço sua generosidade em compartilhar conosco toda essa beleza, que é a simplicidade da vida.

  3. Oi Manuela, texto lindo como sempre. Eu já tinha vontade de conhecer a Chapada e agora eu tenho o sonho de conhecer a Chapada.Estava pensando em ir em julho, preciso de dicas. É um bom mês para ir? É complicado ir sozinha? abraços

  4. Oi Manu, licença entrar na sua casa e gratidão por me receber. Conheci hoje a história de sua família (no nômades digitais e imagino que deve ter rolado uma boa repercussão… talvez sua caixa esteja lotada, então torço pra conseguir um espacinho!). Além de beleza e inspiração, essa história me areja e dá coragem: estamos no mesmo caminho (meu companheiro e eu) e por propósitos muito semelhantes (que você coloca tão bem nesse texto). Depois de nascer e viver quase três décadas na cidade mais caótica do país, mudamos de São Paulo (SP) para São Thomé das Letras (MG) – uma roça a 15km da cidade, onde vamos bio-construir nossa casa, plantar nosso alimento, compartilhar os excedentes, produzir nossa energia, tratar nossos resíduos. E, no futuro, desenvolver um espaço onde possamos resgatar e despertar nas pessoas, com projetos educativos – quem sabe uma escola de verdade 🙂 mas com conteúdo e métodos diferentes? – o valor da terra e de tudo que ela nos provém, a capacidade de fazer-você-mesmo e compartilhar habilidades e a delícia de conviver, além de viver, entre outras coisas. Enfim, ler você aqui me incentiva e, mais do que isso, faz sorrir dos meus medos quando percebo que passaram (esse trecho me pegou de jeito: “aquele sentimento insistente e desbotado de não pertencer a lugar nenhum” já me pegou muitas vezes). Enfim, senti vontade de compartilhar meu sentimento e agradecer por compartilhar do seu. E, pelos comuns da trajetória, aproveito para sugerir que a gente possa compartilhar outras questões: da água à horta, passando por esses medinhos e as tão desejadas soluções! Abraços fraternos.

    • Milena, sinta-se em casa, vc é muito bem vinda por aqui! Esse meu diário de devaneios tem me trazido surpresas lindas e eu caio de amores quando alguém me escreve dizendo que tá seguindo os passos de uma vida simples e cheia de sentido, assim como a gente está começando. Vamos trocar sim mil figurinhas sobre tudo, acredito que nossa caminhada fica mais feliz ainda quando compartilhamos experiências, erros, acertos, alegrias e chororôs! Muito grata pela sua mensagem, por nos acompanhar, pelo carinho, pela inspiração também! Seguimos nos falando! Um beijo e um abraço de urso em vcs!

  5. Vocês me inspiram, e bateu logo de imediato com uma conversa minha com meu namorado, pq pensamos e desejamos morar na Chapada Dos Veadeiros, seguindo o caminho de vcs, é mais fácil já q ele é de Brasília e conhece demais aquele lugar.
    Mas bate o medo, a insegurança e lendo aqui o seu relato, nos encheu de esperança e vontade. Moro em SP, pego trânsito, chego no trabalho e em casa exausta, sempre sem tempo para mim, para a família e amigos e repito sempre, como um mantra: Não quero mais isso para mim, quero viver!
    Acho que nem imagina o bem que está fazendo, escrevendo e nos mostrando que isso é possível, de um certo modo a fuga do sistema é possível, não é um sonho e sim realidade.
    Gostaria de perguntar algumas coisas, se possível… por e-mail talvez, kkkk pq é sério, de repente daqui um ou dois anos faremos o mesmo.
    Grde abraço!

  6. Olá!!! Gostaria de parabenizar pelo blog. Me identifico muito com a forma que você escreve. Gosto muito de ler seus relatos e tenho compartilhado com meus amigos. O que gerou grande repercussão. E o compartilhamento bombou muito… Iniciei um blog faz pouco tempo, osantipodas.wordpress.com, eu e meu companheiro. Estamos começando então temos muito a aprender e muito a compartilhar. Moramos num instituto de bioconstrução, Tibá, entao qualquer coisa podemos trocar umas figurinhas. =D Grande abraço.

  7. Desculpa pela invasão! Acabei de descobrir seu blog e estou aqui lendo e admirando tudo o que você esta vivendo! A decisão que tomou é linda! E com certeza vou acompanhar sempre! Parabéns pelo seu blog, sua família linda e sua atitude maravilhosa.

  8. Oi família linda! Depois de algumas escapadas da vida corrida e cheia de complicações desnecessárias finalmente criei coragem para comentar!

    Que coisa linda saber que existem pessoas com o coração assim, tão verdadeiro, tão conectado com o mundo, aceitando, aprendendo e sendo feliz mesmo com todas neuras que nossa cabeça insiste em inventar…
    Vocês são uma inspiração pra mim, espero um dia alcançar pelo menos um pouquinho do espírito livre e mente aberta que vocês possuem. Me emociono e me identifico com cada relato.

    O mundo nos pertence, vamos que vamos!
    Grandes beijos, abraços apertados e xixi no matinho! Rs

  9. Passando para desejar uma feliz Páscoa para o pessoal da bolha verde, seja lá o que ela significar para vocês! Prá variar um pouco, mais um belo relato com belíssimas fotos! Obrigada!

  10. Lindo blog. Obrigada por compartilhar conosco suas experiências tão ricas. Estou na torcida para que a terra seja generosa com vocês e a vida, repleta de satisfação a cada dia.

  11. Sem querer ser cético ou pessimista quanto ao futuro do planeta em que vivemos, acho que vcs se adiantaram no tempo, ao tomarem a decisão certa, por escolha, de viverem a vida simples e sem a falsa necessidade de coisas e tal, que a sociedade de consumo nos faz refém.
    A coragem de vcs nos contagia, e eu e minha esposa seguiremos o mesmo tipo de trilha assim que me aposentar daqui a 20 meses. Só não decidí ainda para qual região iremos.
    Desejamos pra vcs e a todas as pessoas que compactuam com esse velho novo tipo de vida, que perseverem e alcancem toda a Felicidade que procuram. Até.

  12. Meu Deus, que coisa mais linda! É a primeira vez que estou vendo seus relatos, conheci a poucas horas a partir de uma matéria da Nômades Digitais e da Hypeness e já estou encantada, até me emocionei. Achei realmente linda a atitude, não sei explicar mas me emocionou muito ver seus relatos e pontos de vista. Você tem muito jeito para expressar o que sente e acha, e escreve maravilhosamente bem! Muita felicidade e muita sorte para vocês.

  13. Compartilho desses sentimentos e vivências, como filha de pais que trocaram a cidade pelo campo. E agora como mãe quero fazer o mesmo.

  14. Olá, Manu…foi um achado encontrar os seus textos. Sei, exatamente, o que fala e as suas reações. Ainda não fiz o caminho de volta. Nasci e cresci na roça, ganhei o mundo e hoje, ainda estou entre o Rio e a minha fazenda em Minas. Cada dia chego mais perto desta decisão. Ler os seus textos me fortalecem para realizar este objetivo. Parabéns !!!

  15. Estou lendo agora a matéria que saiu na crescer sobre vcs,me prendeu a essa hora mesmo sabendo que meu pequeno vai acordar bem cedo!td lindo!encantador,admiro a coragem de vcs e torço muito pra que todas as mudinhas creçam fortes,para que os besouros deixem as folhas em paz e as cobras desistam das cabras!!!
    Moro em um lugar muito verde,meu quintal é grande e cheio de perigos mais sou como vc,deixo meu Dante livre,ele tem o espírito livre,vive com a boca e o resto do corpo cheios de terra e qnd entramos pra dentro de casa ele fica lamuriando,”vamos deixá-los serem felizes”!!!bjs

  16. Oii Manu! Descobri seu blog hoje através de uma indicação do blog Potencial Gestante e pra entender a sua estória,comecei a ler desde o primeiro post..Mais que isso,descobri que Você sou Eu !! kkkkkkkkkkkkk.Somos muito parecidas,com uma diferença,vc já realizou eu ainda tenho medo.
    Sempre fui cigana,minha fase de adolescente passei toda indo embora de casa rs.Depois veio o casamento,o filho e hoje vivo rodeada de insatisfações e vontade de “ir embora”.
    O melhor de tudo vc mora pertinho de mim,moro em Jequié BA,Lençois não é longe daqui,depende muito da localização que vc more.Mas enfim,gostaria de saber oq ue te levou a escolher esse lugar e como foi que tudo aconteceu até vc chegar aí ? Talvez eu também vá…mas quando digo eu também vá,é sério! Muito sério ….Beijooos!

    • Ei, Thammy!
      A gente chegou até aqui porque a mãe do meu companheiro tinha um pedaço de terra na zona rural da cidade e resolvemos vir cuidar dela. Foi um processo rápido e bem intenso, em alguns posts eu conto como foi a mudança!
      Obrigada pela mensagem e pelo carinho!
      Beijo!

  17. Ler seu relato me fez relembrar das minhas escolhas. Não mudamos para uma bolha verde, mas optamos por morar em uma cidadezinha do interior no MT. Longe cultura estridente das grandes cidades. Poder ouvir mais a voz dos filhos que da TV ou do carro de som que passa na rua, poder andar pelas ruas sem se preocupar em ser assaltado, desacelerar. Parabéns pelas escolhas e mais ainda pela generosidade em partilhar suas reflexões. Vocês são minhas inspirações de desapego… Bjs Deus os abençoe.

  18. Muito simples os seus textos, mas também fortes!!!! Proporcionando a nós mesmos uma mudança e reflexão interior!!! Espero ver milhares de vezes seus posts! Esses dias também vi uma matéria em um blog sobre você, e até chamando sua vida de “tendencia” mas eu discordo. Até porque tendencias não proporcionam momentos assim, tendencia não proporciona sentimentos assim a não ser a mascara que vai caindo lentamente. Eu vejo em sua vida, e seu estilo de vida uma dedicação um amor e uma esperança de vida inenarrável! Ainda bem que voltou estava com saudades.
    PS: meu facebook deu bug, perdi ele. Tive que criar outro, te enviei uma solicitação de amizade, se possivel me aceite. É sempre bom ter você no roll de amigos. Beijos e muita luz.
    http://www.gislei.com

  19. Manu, que coisa boa são estes momentos que nos mostram que estamos no caminho certo! Com historias diferentes e trajetórias longínquas consigo muito me identificar contigo e com o que escrever! Adoro teu blog,teu jeito de escrever,teu carinho e amor pela vida e coisas. Está sendo uma viagem interna e externa acompanhar o teu blog e o caminhar de vcs desde que os descobri semana passada! Um beijo e muita luz, Marília

  20. sei bem como é isso , sempre que preciso ir a são paulo , fico desesperada para voltar pois sinto que lá não é mais a minha casa , a minha terra , apesar de que aqui moro na zona urbana , mas tenho uma choupana na zona rural e que de vez em sempre me escondo lá …..

Solte o verbo!

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