A mulher

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O exercício de se desprender de certas coisas parece ser infindável por aqui. Quanto mais tempo ficamos, mais nossa percepção sobre algumas relações vai mudando e exigindo da gente uma faxina interna daquelas de suar a camisa. Estamos meio cobra trocando de pele, aumentando um gominho na ponta do chocalho, amadurecendo e ficando (ao menos tentando) mais bonitos internamente. Muitas vezes tudo isso nos dói, muitas mesmo. Mas sabemos onde queremos chegar e essa certeza sopra no ar toda a poeira fina e marrom que acontece no caminho.

A bola da vez pra mim é a figura feminina (Hugo também tem os processos dele e uma hora ele chega pra derramar isso por aqui também!). A mulher que eu era, a que elas são por aqui, a que eu sou e a que eu quero me tornar, a que minha filha pode aprender a ser e meu filho a respeitar. Esse bolo de questões me leva pra uma viagem bem intensa láááááá  pra dentro, e essa é sempre hora de apertar os cintos, ai! Então achei melhor melhor começar pela observação, pelo silêncio antes da interrogação ou da afirmação, pelo peito aberto que evita o julgamento e o auto flagelo.

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As mulheres daqui são espinhas dorsais fortes e eretas. Elas estão na arrumação e limpeza da casa, no cuidado rotineiro com a fragilidade dos mais velhos, debaixo do sol forte batendo enxada na plantação, na feira vendendo a colheita, na educação dos filhos, num bico ou outro fira de casa, na beira do fogão a lenha, nos problemas a serem resolvidos na cidade, na cama do marido. Sem elas os maridos, filhos, genros, sobrinhos, netos e irmãos seriam bem menos fortes para dar conta de todo o resto (que não é pouco também). São elas as guardiãs do bem estar masculino, a outra roldana da harmoniosa engrenagem família.

Meu lado queimador de sutiã, que veio de uma vida independente, trabalhando sempre fora, sem muita cozinha ou tanque, quase nada de tempo para se dedicar ou entender como se cuida (bem) de um lar ou de um marido, tem abaixado a cabeça e encontrado outra forma de ser mulher por aqui. Aos poucos, começo a perceber que o conceito de submissão não tem nada a ver com o que se vê nas relações por aqui (ou que eu, infelizmente, aprendi por aí), que coisa de mulher pode ser sim coisa de mulher e que ela não precisa fazer nada além daquilo pra provar alguma coisa pro homem dentro ou fora de casa. Que existe uma aceitação plena do seu espaço e que isso não esbarra num orgulho ou numa necessidade de ser mais ou ser diferente. Muito pelo contrário, elas são conscientes da importância do trabalho que fazem e não almejam outra posição porque ali é o lugar onde conseguem esparramar todo seu amor pelos seus. Cuidar tão de perto, de muita coisa, de tanta gente, com tanto afinco, todo santo dia, durante uma vida inteira, não é para qualquer um.

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E eu acho isso lindo, como nunca senti antes. Porque tô começando a entender e querer me doar pra esse lugar com toda vontade que vibra aqui dentro. Tô trocando de pele e deixando ruir uma mulher que vivia do lado de fora de casa pra tentar erguer outra que da o sangue por esse ninho cheio de trabalho feio com amor. Não há de ser uma rotina fácil, cansa, exige disciplina diária, coragem e paciência. Mas em troca vem coisa que eu nem sei contar aqui, coisa que eu ainda vou descobrir e sentir com o passar do tempo, coisa que eu já consigo perceber me enchendo de satisfação. E, na real, é isso que importa mesmo, não ser uma regra ou uma exceção, mas ser aquilo que se quer e da conta de ser. Eu escolhi ser dona de casa, ser zeladora do meu castelo, protetora dos meus pintinhos, escudeira fiel do meu companheiro. Optei pelo que creio ser o desafio mais gostoso, pela adrenalina da transformação, pelo que eu acredito e não pelo que me impuseram ou me disseram que era pouco para uma mulher.

Então é dada a largada, que venham as delícias e mazelas desse caminho novo, dessa nova figura feminina. Me desejem boa sorte, porque amor pra renascer e seguir tentando evoluir a gente aqui tem pra dar e vender!

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71 pensamentos sobre “A mulher

  1. Como é bom saber que existem pessoas como vocês!
    Como é bom ler esse blog.
    Você faz ideia do quanto é inspiradora?
    Uma curiosidade boba: em relação à saúde, com é por aí? Atendimentos pediátricos das crianças, os acompanhamentos, as gripes, vômitos, remédios…

    Eu daqui sinto enorme felicidade de ver que existem pessoas como vocês. A esperança de “um mundo melhor” grita dentro de mim.

    Sorte pra vcs!

    • Ei, Carol!
      Que massa essa mensagem!
      Bom, por aqui a saúde é por conta do SUS. Não temos plano de saúde e, caso precisemos de alguma coisa, somos atendidos no posto de saúde da cidade, a 15 km de casa. Até hoje não precisamos de nada, as crianças nunca ficaram doente a ponto de ter que visitar um pediatra ou medicamento. O máximo foi uma tosse e gripe do Tomé curadas com muito soro, própolis, mel e amor! Tem dado muito certo dessa forma: alimentação saudável, pé no chão e nada de médico!

      Gratidão pelo carinho e mil beijos em vc!

  2. Oi, Manu. Há semanas que ensaio escrever umas palavrinhas, pensei em compartilhar alguns links, como esse curso de horta orgânica https://www.youtube.com/watch?v=79WuaY8Pbao ou esse site sobre permacultura http://www.permaculture.co.uk/, mas acho que vocês estão andando tão bem neste quesito que os links nem são de grande importância.

    Então pensei que talvez devesse escrever para compartilhar um pouco da história daqui e perguntar como foi o start ou a gota d’agua de vocês para a mudança acontecer. Do lado de cá sonhávamos em sair de São Paulo, mas eram planos sem data de realização. Isso mudou quando em fevereiro de 2013 encontramos um lugar que passamos a chamar de nosso, movemos o mundo para conseguir realizar o financiamento desse pedaço de chão. Foram meses vivendo na grande cidade ansiando viver no mato, só que ainda presos a ideia de que precisávamos trabalhar para levantar a verba, da para imaginar o quanto pesado estava viver assim. Então, alteramos os planos e decidimos mudar para a parte urbana da cidade que escolhemos, sem saber direito como seriam os próximos passos.

    Quanta mudança em apenas um ano, agora estamos na fase de transição, de guinada da vida, de carreira, buscando formas de viver com equilíbrio e descobrindo formas para juntar a verba necessária para seguir construindo o sonho. Ainda não estamos vivendo completamente no mato, mas já deixamos de morar empoleirados num apartamento, agora estamos com o pé no chão, mas de olho céu estrelado que a cidade pequena nos brinda, ainda não plantamos o que comemos, mas colocamos no prato muito do que é produzido por produtores locais e a nossa a hortinha de temperos está num vigor nunca antes visto.

    Assim como vocês estamos longe da família, e você não imagina que encontrei num trecho da sua reflexão A saudade a resposta para inquietações que vinham aumentando aqui no peito após a perda do meu pai recentemente. “Muita gente nos pergunta porque optamos por viver tão longe dos nossos, tipo “não dava pra viver essa aventura ali mesmo no interior de Minas ou em algum mato mais próximo de casa?”. Não, mil vezes não! Pra quem vive a vida de peito aberto, desrespeitar o destino é ofensa das mais graves, assim como se apegar à relações, bens materiais, lembranças do que se foi.” Respeitamos a voz interior que afirmou esse é o caminho, vamos desbravando o futuro e elaborando os percalços que aparecem.

    Quantos caracteres!! Escrevi mais do que imaginei, e nem registrei um comentário sobre a sua reflexão A mulher, talvez fique para uma outra oportunidade.

    Forte abraço

  3. Adoro cada um dos seus textos e fico sempre ansiosa a espera do próximo Manu. Que Deus ilumine sempre sua família linda! Beijos

    Obs. Minha i filha também se chama Manu (acho lindo esse nome)

  4. Visitar esse blog é perceber o quanto a gente deixa as coisas mais importantes, e de real valor da vida, de lado! Espero que continue tudo dando certo pra você, Hugo, Nina e Tomé. Sei que deve ser difícil postar direto aqui, mas dá uma saudadeeeeeee de ouvir você falar de maneira tão maravilhosa dessa escolha que fez! Ansiosa pelo próximo post! *————————–*

  5. Ola Manu

    Voce eh muito inspiradora! Gosto muito das suas publicaçoes. Ha um ano deixei o trabalho fora de casa pra me dedicar ao filho pequeno, ao marido e ao lar. As pessoas comentam porque eu parei de trabalhar e eu digo que na verdade comecei a trabalhar agora. Ate entao nunca havia me sentido tao exausta em minha vida. Por outro lado essa rotina me mantem em forma fisica sem precisar de dieta.
    Eu sinto que antes eu me cuidava por fora, mas hoje me cuido por dentro. Cuido do meu coraçao que bate sempre pertinho do meu filho quando sentamos pra fazer juntos todas as refeiçoes do dia.
    Um grande abraço pra voce!
    Continue escrevendo e inspirando pessoas.
    Carolina

  6. Nossa… que lindas palavras.
    Sempre me senti um peixe fora d’agua por desejar ser dona de casa. Sou enfermeira agora aos 35 consegui deixar o trabalho após o nascimento de minha primeira filha.
    As críticas estão maciças e impiedosas. Acaba sendo considerado “pecado” ou loucura deixar a carreira para se dedicar ao universo da vida no lar, dedicando-se a família. Obrigada.

  7. Olá!Como me faz bem passar por aqui e ler sobre vcs!Me inspira,me faz sonhar!Eu tenho essa vontade dentro de mim,de ser livre das coisas que os outros falam que é o certo.A vida na cidade me estressa,me entristece.Consome as pessoas e elas nem percebem.Trabalha-se muito,vive-se pouco.Mas diferente de vc,ninguém aqui me acompanha nessa escolha…infelizmente sonho sozinha.Então venho sempre aqui p sonhar com vcs!Quem sabe um dia.Esperança não falta.Saiba q aqui vcs tem uma pessoa q torce muito por vcs!Felicidades e saúde p vcs!
    Bjos
    ValériaSTPeres

  8. Como é bom ler tudo isso.
    Existe em mim um grande desejo de ser uma mulher de casa, dos filhos e do marido.
    Nunca entrou na minha idéia a multi tarefa de ser independente financeiramente e ser casada e ser mãe… acho que existe uma cumplicidade entre o amor de duas pessoas que gera uma nova vida e que se tornando mãe seja ela a cuidadora do lar e do amor entre essa nova família. Eu sonho com isso, estou casada a 4 meses,trabalho fora, porém não me vejo satisfeita,pois quero e ficar em casa, cuidar da casa do marido, e futuramente cuidar do meu filho…

    Existe sim multi mulher que fazem de tudo, não crítico pois ate mesmo fui criada em uma família de multi mulher… porém meu desejo não é reviver essa mesma história…
    Pesso que Deus me abençoe para fazer diferente e ser feliz com esse desejo do meu coração.

Solte o verbo!

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