A rede

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Esta gaveta de devaneios aqui é meu divã, é nela que entro toda vez que preciso entender alguma coisa que tá acontecendo na bolha verde e no meu peito. Sempre tive a sensação de que quando a gente “fala”, consegue visualizar melhor o sentimento, como se a as palavras fossem o corpo do que perambula lá dentro. Na real, falar nunca foi meu forte, as palavras da minha infância e adolescência moraram muito mais no papel do que na boca. Mas o tempo deu jeito de me ensinar a cuspir as coisas, principalmente as ruins, aquelas que vão criando uma borda preta ao redor do coração quando a gente não põe pra fora. Hoje eu falo mais que a nêga do leite, falo com jeito, falo baixo, falo na hora certa (ao menos, tento!), falo só quando e com quem quero falar. Mas escrever me leva a lugares onde nunca conseguiria chegar pela boca, o texto é onipresente, não tem bordas ou fronteiras, é um registro, uma memória, tem pernas próprias, é falar sem ser interrompido, é entrar em contato com um outro “eu” que escreve.

E essa firula toda pra dizer o quão longe este blog tem ido e pra quão perto pessoas lindas ele tem nos trazido. Gente que  nunca vimos, que não sei do que gosta, que nunca nos viu, que se parece com a gente, que adora nossas criOnças, que chora pitanga comigo, que nos enfeita com energia boa, que pergunta se a gente tá bem, se choveu, como anda a horta, gente que dá dicas, que compartilha conhecimento, escreve mensagens de afeto, reclama da vida na cidade, manda roupa dos seus filhos para os nossos, multiplica os devadeios, entra na nossa casa sem saber, quer ver a gente feliz, manda carta, brinquedo e livro, escreve poesia, preenche espaços vazios e nos faz sentir rodeados por uma multidão quando estamos fisicamente só os quatro.

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Não sei se alguém tem ideia do que é isso, acho que nem eu tenho direito. Essa rede lheeeenda vem sendo tecida diariamente com um carinho que nem dá pra descrever, que é voluntário, que é genuíno, que sinto ser leve e forte, por isso chega aqui de forma tão doce e gostosa de sentir. Não sei contar quantas vezes me peguei pensando na moça que está presa na rotina alucinante de São Paulo e quer criar a filha livre no interior, na menina de 14 anos que se espelha na gente pra desenhar seu futuro, no cara que se inspirou na liberdade das escolhas e pegou estrada sem rumo pra viver a vida larga que a gente tanto sonha. É, acima de tudo, imensamente gratificante fazer parte, em algum momento, da vida de outras pessoas e receber na nossa outras tantas, todos os dias.

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A mágica também mora no cruzamento dessas teias, quando as pessoas se encontram e se identificam nos comentários do blog, quando se esbarram em redes sociais, quando trocam alguma coisa entre si. Eu acho massa e fico toda besta me sentindo correio elegante que cruza caminhos do bem. Então pensei que esse post poderia ser também meio “utilidade pública” e expor coisas bem legais que algumas pessoas, que nos acompanham por aqui, fazem. Como não sei do talento de todo mundo, vou começar a brincadeira com aqueles que já conheço. Algumas são pessoas que já abracei, outras encotrei apenas no mundo virtual, mas todas com muito amor pelo que fazem. Se você também tem uma belezura pra mostrar, deixe um comentário com um link ou coisa do tipo que vou dando update no post e aumentando a lista de coisa boa pra gente se jogar! Então segura que lá vai:

Temco: Marcinha arrasa no artesanato com tecidos lindos, meu queixo cai toda vez que entro no site.

Que Trenzinho!: Patrícia enfeita seu neném com roupas, acessórios e adesivos lindíssimos pro quarto deles, a bichinha tem bom gosto, viu?

Gourmet Chocolates da Sorte: a gordinha aqui morre por um chocolate e a Cíntia me mata toda vez que vejo foto dos que ela faz.

Poeme-se: a Mariana é uma florzinha que derrama poesia na vida da gente e tem uma lojinha virtual com quadros, camisetas, pôsters e mais um cadinho de fofura.

–  Leitura da Aura: Ruah Flor de Câmi (Camila) faz um trabalho bem bonito e intenso pra quem busca uma conexão maior com seu ser, ô lindeza!

Retalho Hand Craft: Thiago tem mãos de fada e faz, entre outras coisas, umas carteiras ecológicas de chorar, espia só.

Inkaiko Bags: as bolsas (e os cintos e as pulseiras e as carteiras e tudo mais) da Mell são uma coisa, eu tenho e amo.

Renata Pineze Fotografia: ela e o maridón tem um olho pra coisa que dá até arrepio!

Retalhos Craft: A Jamile saiu da cidade pra morar no interior com a família também, faz um bocado de coisas fofas pra gente grande e pequena.

Fabu Pires: o cara mora longe, mas eu sonho em ter um quadro dele na minha parede!

Whisgo: essa plataforma é filha de um amigo querido e é um barato! Nela você troca experiências de viagens com outras pessoas, organiza as memórias e informações da sua trip em cadernos e mais um bocado de coisas interessantes. (no Instagram e no Facebook)

– (e mais um tanto que me esqueci agora, sorry, gente!)

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Também queria agradecer, com todo meu coração de melão, a todo mundo que nos acompanha e nos dá força pra seguir seguindo! Eu, Hugo e as crianças sentimos cada sopro de amor que vem daí de fora, abraçamos cada desejo de felicidade que  chega de longe e plantamos na terra cada palavra de incentivo que recebemos, para que crescam e prosperem por muito tempo. A caminha que deriva dessa nossa escolha não é fácil, isso já é sabido, mas fica muito mais leve quando a gente sente que não está sozinho e que, mais ainda, caminha de mãos dadas com tanta gente do bem.

Aproveito a carona pra pedir desculpas pelos comentários que ainda não respondi, tem hora que me perco nessa confusão de casa, criança, freelas e tudo junto ao mesmo tempo agora. Mas sempre leio as mensagens, com olhos brilhando de alegria e satisfação, podem acreditar.

É bonito demais escolher um caminho tão único e receber, em cada curva dessa estrada, flores que vão nos enfeitando de certeza. Tomara que um dia a vida nos dê a sorte de encontrar essas milhares de pessoas que nos lêem todo dia para dar um abraço-quebra-cotela de gratidão em cada uma!

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O aniversário

 

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Tomé fez três anos.

Três anos é tempo suficiente para se dar três voltas completas ao mundo, conhecer culturas incríveis, trocar experiências valiosas, se perder e se encontrar em lugares inóspitos. Há três anos eu dou voltas em torno do meu próprio eixo tentando reconhecer todas as minhas bordas e limites, viajo pra dentro dos buracos mais escuros da maternidade e saio deles cada vez mais forte e cheia de perguntas que me fazem querer voltar. Há três anos vivo, sem ir muito longe geograficamente, as experiências mais intensas de troca, de entrega, de loucura, de choro, de felicidade imensurável, de inconstância, de dúvidas, de amor que não consigo adjetivar, não mesmo.

Três anos é tempo suficiente pra se especializar em algum tema e ser um profissional bem sucedido. Nesses três anos Tomé nos ensinou coisas que nenhum livro ainda escreveu, nos trouxe entendimentos, verdades e aceitações que nenhuma escola poderia proporcionar. Durante esse tempo, fomos matriculados no melhor de todos os cursos, onde não há notas mas sim muitas provas, não há professor melhor que o bom senso, as reprovações nos ajudam a subir degraus evolutivos, o conteúdo é infindável, os alunos sempre serão os mais velhos, por mais que acreditemos estar ensinando o tempo todo. Talvez nunca chegaremos ao “nível” de bons profissionais, quem sabe isso aconteça perto de virarmos algodão doce e ganharmos o céu. Mas, querendo, temos 365 chances de sermos bem sucedidos na montanha russa que é educar e ser educado por um filho. E ser bem sucedido não quer dizer fazer como todo mundo faz ou como a cultura na qual você foi educado te enquadrou. A gente tem é que ter esperteza e silêncio pra poder observá-los todo santo dia e sentir como estão crescendo. São eles os guardiões das respostas que tanto buscamos em revistas, artigos, filmes e uma parafernália de palavras que nos ensurdecem pro que eles nos contam.

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Três anos é tempo suficiente para se tornar gente que fala, anda, pensa, interage e mais um monte de coisas. E nesse tempo, enquanto Tomé aprendia, a gente reaprendia. Por isso eu sempre digo que cada filho é uma chance que a vida nos dá de começarmos tudo outra vez, só que agora de forma mais bonita e inteira. Nós aprendemos a andar com cuidado pelas ruas, a prestar mais atenção aos riscos que podem nos fragilizar, a vigiar os passos que guiam a família toda. Repensamos a forma de nos alimentar para instigar, de forma bem natural, o aprendizado do alimento saudável e benéfico pro corpo. Reconhecemos o poder e a energia das palavras, nos vigiamos para medí-las e fazê-las nascer da boca de forma consciente, ponderada e cheia de verdade. Além disso, mais um mundo de coisas que fomos aprendendo com e por ele: dormir pouco pra vigiar seu sono, sonhar mais alto pra ele seguir avante, controlar nossas emoções pra ele ter espaço de manifestar as dele, compartilhar experiências pra multiplicar amor. E mais e mais e mais e mais…

Então resolvemos celebrar todo esse tempo de renascimento, esses três anos em que estamos crescendo juntos como pais, filho, família, amigos, parceiros. Sentimos que temos muitos motivos pra isso, ah se temos! Acontece que nunca fomos muito fãs da forma tradicional de comemorar aniversários, dessa fórmula pronta que o capitalismo impôs fazendo de refém nossa criatividade e trocando o verdadeiro sentido da coisa por presentes caros. Sem ninguém pedir minha opinião e sem julgar os que acreditam nessa forma de celebrar (cada macaco no seu galho, beibe!), penso que tudo isso é muito cruel e uma pena!

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Nossa celebração aconteceu no pomar, espaço que papai limpou com muito capricho. Mas, antes disso, ajudei Tomé a fazer os convites do piquenique e fomos entregar pessoalmente nas casas das poucas crianças que moram por perto. Cortamos caixas de ovos, enchemos de terra, plantamos uma mudinha de suculenta, ele desenhou num papel, cortamos em pequenos quadradinhos, eu escrevi data e hora, amarramos com um retalho de pano e pronto! Custo zero e diversão garantida, foi massa ver ele curtindo esse processo todo!

Usamos as bandeirinhas que vovó Tetê havia trazido pra gente há um tempo atrás pra enfeitar o pé de amora, local do nosso encontro. Colocamos a mesa da sala lá fora, fizemos um bolo, biscoitinhos de tapioca e suco de manga do quintal. A ideia foi ninguém trazer presente, mas sim contribuir com o que tinha sobrando na horta, no pomar, na terra. E veio maça, banana, laranja, mandioca cozida, uva e lá vai coisa boa! Juntos, construímos uma mesa farta e uma reunião simples e gostosa, bem como Tomé é e merecia. Ele, que sempre achou que aniversário era um lugar e não uma data (porque já tinha ido a duas festas aqui e imaginava que a palavra “versário” era a casa dessas crianças!), falava o tempo todo que estava tudo lindo e que estava feliz. Bingo! Era isso o mais importante.

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Tomé, meu filho, que a vida seja tão larga quanto seu sorriso de todo dia. Que tenhamos clareza para poder enxergar os melhores caminhos e seguirmos por eles de mãos dadas. Que venham mais muitos anos cheios de curvas, linhas retas, montanhas e estrada afora. Porque sentimos e respeitamos seu espírito livre, a grandeza da sua alma, a força da sua personalidade, a bondade que já brota forte no seu coração. Gratidão por tudo que conseguimos ser e fazer até aqui, por toda a luz que você nos direciona, por todo o amor diário e sem tamanho que você derrama em nosso peito. É com ele e por ele que buscamos ser melhor, ser completos, ser família, ser essa delícia que a gente saber ser juntos. Renascer há três anos atrás foi o melhor presente de todos, que esse sentimento seja multiplicado a cada 365 dias, por uma vida inteira.

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