O primeiro ano

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Em julho de 2013 a gente abria essa gaveta de devaneios e derramava uma despedida. Estávamos quebrando uma barreira, pulando um muro, rompendo bordas, demolindo paredes e fronteiras também geográficas. Como no tempo de um suspiro profundo que circula pelos cantos do corpo antes de sair  do peito, um ano já se passou desde que chegamos aqui. E, pensando sobre o começo dessa aventura, acho que consigo descrever mais como me sentia antes dela do que falar sobre em que nos transformamos ao longo desses 300 e tantos dias. Talvez porque o passado, mesmo que recente, seja o lugar onde guardamos a memória do que já entendemos. O presente, um pouco mais cruel, exige da gente clareza pra conjugar as lembranças do passado+experiências do presente+perspectivas do futuro.

Antes desse divisor de águas éramos uma família em construção, éramos sedentos por uma mudança no estilo de vida, éramos insatisfeitos com os excessos da cidade, éramos desafiados pelo desconhecido, éramos um saco de dúvida misturada à muita coragem. Hoje ainda estamos em “construção”, porém com um entendimento maior de como queremos navegar nesse mar aberto que é um núcleo familiar. Algumas certezas escorreram com a enchurrada quando as chuvas fortes aconteceram dentro da gente, a individualidade vem ganhando espaço e contrariando a ideia de que pra ser juntos tem que deixar de ser um, a verdade chegou como lençol branco que protege a cama onde dorme tranquilo o amor. Nosso estilo de vida mudou da água pro vinho e estamos, ainda, nos embriagando dessa mudança. Como todo bom bêbado, tem hora que trocamos as pernas e  caímos, mas damos boas risadas e nos divertimos dançando a coreografia que o universo nos propôs nesse momento. A cidade ganhou outra conotação pra nós, aos poucos ela foi deixando de ser um monstro de 37 cabeças e nos contando que algumas dessas cabeças são essenciais para o bem estar da nossa. As cidades cinzas não precisam ser lugares de permanência, elas podem ser pontes entre dois terrenos necessários, elas podem ser espaços de trânsito rumo ao seu oposto, passagens bonitas que enchem a mochila com seus excessos pra suprir as faltas de outro canto. Quanto mais conhecemos dessa vida aqui sentimos que o desafio pode ser ainda bem maior, nisso acho que não mudamos muito. É tipo um vício, estamos sempre esperando a próxima dose. E temos dúvidas, só que agora temos bem mais que antes. Isso porque estamos ampliando nossos horizontes gigantescamente, perguntar sobre uma sala é uma coisa, sobre uma casa inteira é outra. Esse caminho tem sido a tapas e beijos, mas também muito forte e de mãos dadas. A conexão com outro coração vibrando junto, dentro e ao lado é ouro nessa missão de buscar evolução e ser feliz na vida! Afinal, viemos aqui pra que, mermão?

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Fazer esse balanço é bem difícil pra mim, ao menos. Porque no meio desse pouco tempo, quase um contrato de experiência, a gente viveu nada e tanta coisa ao mesmo tempo. As crianças também, Tomé e Nina cresceram muito nesse intervalo, de forma bem simples e numa boniteza só. Quando penso pra escrever aqui ou releio o que escrevo, sinto meio um tom de despedida ecoando das palavras, mas esse sentimento vem sem querer, ele nasce a medida que vou soltando as coisas e essas outras escondidas pegam carona e vão se descolando do peito também. No fundo, acho que é bem isso mesmo, estamos dizendo até logo à esse primeiro tempo de vida larga e nos preparando para uma nova jornada. É como se tivéssemos, aqui e até agora, calçado bons sapatos para seguir o caminho que é longo e muito bem quisto por nós quatro. O relógio bateu a hora de olhar pra frente, de buscar algo ainda maior, de deixar a inquietude correr solta pelo corpo sem repressão, de nos desafiar outra vez, de nos perder para podermos nos encontrar diferentes, de ouvir o canto da alma cigana e livre.

Hugo me deu isso dia desses e achei bem bonito, tem muito a ver com nosso agora: “nômade não é forçosamente alguém que se movimenta: existem viagens num mesmo lugar, viagens em intensidade, e mesmo historicamente os nômades não são aqueles que se mudam à maneira dos migrantes; ao contrário, são aqueles que não mudam, e põem-se a nomadizar para permanecerem no mesmo lugar, escapando dos códigos” (Deleuze 2006: 327-328). Se não somos, estamos nômades, quatro nômades unidos por muito amor e prontos pra qualquer viagem, pra dentro ou fora de nós.

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Um ano inteiro cabe coisa demais, inclusive muita gratidão por cada mínima coisa que fizemos, vivemos, descobrimos juntos. Cabe tanta coisa que o tempo ainda não me deu tempo de digerir tudo. E a gente já quer mudar tudo. Mudar é sempre nosso melhor lugar. Então seguimos dormindo terra firme e acordando vento leve, olhando com esperteza para as possibilidades sopradas sutilmente pela vida, nos agarrando à perguntas que nos norteiam, abrindo o peito para que toda a imensidão da plenitude entre e se acomode sem pressa de sair.

Foi libertador, cada amarra desatada nesse processo foi como ganhar asas maiores.

Está sendo imenso, cada grão de entendimento é um afago na consciência.

Vai ser sempre de uma beleza surpreendente, estamos conectados uns aos outros e, dentro de cada corpo, somos espíritos buscando luz e emanando amor.

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