O recomeço

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Não sei nem por onde começar a contar sobre esse final. Talvez dizendo que preferimos chamá-lo de recomeço, essa palavra já é velha conhecida e não nos intimida nem um tico. A vida deu uma cambalhota, uma rasteira, um empurrão, um sacolejo nos ombros, um aviso, uma oportunidade, uma escolha. Outra vez, todo dia, pra sempre, escolhas. As terras onde moramos na Chapada foram vendidas e, no tempo de um susto, tivemos que decidir o próximo cenário da vida. Sim, eu sentei embaixo do pé de pitanga e chorei. Mas o choramingo foi breve porque a gente tem dois mininu pra criar e uma vida inteira pra ser feliz.

A vida tá pedindo pra gente furar a bolha verde e, quando ela nos disse isso, alguma coisa lá dentro do peito consentiu com uma  força estranha. E, quando isso aconteceu, a gente se deu conta de que um sentimento novo estava começando a dar as caras, de que estávamos precisando colocar em prática o que esse tempo aqui nos trouxe de teorias. Demorei tanto tempo pra vir aqui derramar esta despedida porque ela demorou um tanto pra se fazer pronta no meu peito, foi foda fazer essa viagem forçada pra dentro e voltar mais forte pra continuar seguindo estrada. Peço mil desculpas pelo sumiço e agradeço de coração todas as mensagens lindas que recebemos nesse tempo fora do ar, essa energia boa chegou aqui em forma de abraço apertado e aconchego.

Mas eu sempre fui muito intensa em meus momentos, crises, processos e minha cabeça trabalha em conexão com meu corpo, costumando ter o tempo deles de assimilar as mazelas e bonitezas dessa vida bandida. Agora, depois de quase um mês longe da Chapada, percebo que o entendimento chegou de mansinho e trouxe com ele a aceitação, a entrega e a gratidão. Foi preciso me descolar daquele contexto pra poder enxergar bem o que ele foi pra gente durante este um ano de experiência, saímos de lá exatamente no mesmo dia em que chegamos e isso não foi proposital, os ciclos se fecham quando precisam e esse escolheu ser insisivo no data. Foi doído ter que deixar tudo pra trás, confesso. A sensação de ter que sair de “casa” correndo foi como ter o peito rasgado, o chão sumido, meu castelo de areia chutado por vinte pés. É engraçado perceber como a gente se entrega pra uma coisa com tanta alma e acredita prepotentemente que é o único responsável pelo seus caminhos. Mas é nessa que a gente derrapa, porque esquecemos que a vida é que tem razão.

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E, no meio de tanta escuridão, quando a bolha já não era mais verde e sim marrom, esse mesmo universo que nos tirou a certeza de um lugar pra chamar de casa, nos trouxe o azul de um mar cheio de possibilidades. E nos obrigou a repensar nossos desejos e necessidades, nos empurrou pra conversas noite afora, soprou no nosso ouvido boa dose de liberdade, nos fez lembrar que almas ciganas não pertencem à espaços físicos e sim à outras almas ciganas que caminham de mãos dadas rumo à próxima aventura. Aos poucos, meu coração foi voltando ao seu tamanho normal e deixando escorrer pelas milhões de células do meu corpo esse sentimento estranho de perda. Nessa hora, minha mente se ergueu e voltou a trabalhar com força e clareza para pensar a frente, pra imaginar caminhos melhores, pra continuar seguindo com a força de uma leoa que busca o melhor para sua matilha.

Sorte minha ter comigo um cara que ultrapassa todas as barreiras do inatingível, um amor que transcende vidas físicas e espirituais, uma conexão absurdamente forte e longe de qualquer adjetivo que meu vocabulário entende. Sorte nossa termos duas crianças especiais que são nossos guias, que orientam nossas escolhas, que nos abraçam com sorrisos frágeis e são lembretes diários de que não há problema nesse mundo maior que a certeza de que juntos somos melhores e invencíveis.

Passado o susto, ainda aproveitando a lindeza das noites de rede, lua e estrelas da Chapada, tivemos longas conversas sobre o que vivemos, o que aprendemos nesse tempo, o que queríamos e o que não queríamos dali pra frente. Viramos então nossos olhos e nosso coração para os pequenos e sentimos que as necessidades deles estavam mudando, principalmente para Tomé. Aos longo de seus curtos três anos e meio, o bichinho cresce tão rápido que, se não mativermos os olhos abertos, a rotina nos rouba essa percepção do que ele precisa ou pede até com expressões de seu próprio corpo. É lindo demais saber ler um ser tão pequeno e tão importante ao mesmo tempo, é necessário também. E Tomé anda pedindo gente pra trocar, outras crianças pra aprender, outros espaços para explorar, mais experiências diferentes pra lidar, desafios pra enfrentar. Nós também sentimos o mesmo, acho que tanto tempo de isolamento trouxe a sabedoria do equilíbrio, agora precisamos de um meio termo. Alguns excessos são mesmo reflexos da falta, acho que agora conseguimos entender isso bem. Onde sobra silêncio ecoa mais alto o grito.

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Então agora nos vemos diante dessa vontade de conjugar um pouco de cada coisa, de viver em algum lugar onde possamos ter nossa horta e grama verde pra pisar sem sapato, mas também poder praticar essas pessoas que nos tornamos depois de um ano vivendo essa escolha bonita. Ainda não sabemos onde nem quando, estamos respirando com calma e cuidado esse novo destino. Reler esse caderno de devaneios hoje me fez ver tudo diferente, nada melhor nem pior, apenas com a sutileza e grandeza da diferença. Nada foi em vão, nada foi definitivamente ruim, nada foi certo ou errado. Foi como queríamos que fosse, como demos conta de ser, como o amor nos guiou, como escolhemos viver essa experiência.

Daqui pra frente é outra história, e tenho pra mim que mais bonita ainda. Somos uma família unida e, antes disso, somos pessoas fortes com alma inquieta e cheia de luz. Temos um pé na terra e outro no vento, nossa vida ganha sentido na dança do destino, na turbulência das reviravoltas, na força das escolhas, na verdade do amor que vibra cada vez mais certeiro em nossos dias. Seguimos rumo à outra casa, seja ela qual for. Depois disso tudo fica mais forte ainda a certeza de que moramos um dentro do outro, de que podemos ir e vir quantas vezes quisermos, de que espaços físicos são palcos para interpretarmos nossa evolução espiritual e que nossa casa é esse ninho onde a gente se encontra, se perde e se ama tanto.

Sigamos, sempre! Agora um pouco maiores, sem nos esquecer de que somos ainda um brotinho longe de desabrochar flor. Mas é bonito por demais sentir que as raízes são fortes, fincadas num chão de coragem, essa que é nosso passaporte para os mil recomeços que ainda temos vida afora. Aho!

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