A família

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Uma das coisas que mais tenho pensado ultimamente é sobre regressar ao ninho. Depois de saírmos da Chapada, estamos passando um tempo em Minas, onde nascemos e fomos criados com asas, estas que nos levam e trazem de volta quando não sabemos o rumo certo a seguir. Um porto seguro sempre vai ser um porto seguro quando nele se enxerga o amor. Aqui, nesse caso, a família e os amigos são nosso colo e muitas mãos estendidas pra abraços, trocas e puxões de orelha necessários.

Quando eu e Hugo saímos daqui, há um bom tempo atrás, ainda éramos singular e a família ainda era um núcleo do qual fazíamos parte. Hoje somos plural, temos dois filhos e nossa própria família. É claro que ainda somos filhos, netos, irmãos, primos. Mas também somos pais e estamos aprendendo a colocar uma coisa dentro da outra, visto que esses laços familiares não se rompem quando você constrói seu próprio ninho.

Na real, esse aprendizado tem sido mais intenso do que imaginava, talvez por ter vivido tanto tempo fora de casa e agora voltar em outra “configuração”. A gente cresce com uma obrigação intrínseca de viver uma vida feliz em família, de sermos bem resolvidos nas diferenças dentro desse núcleo, de esconder as dificuldades da convivência porque é feio e errado não ser ou estar feliz com esse grupo de pessoas. Não é porque existem brigas, problemas, mágoas e tristeza que não existe amor. Muito pelo contrário, é porque o amor mora ali, do começo ao fim, que as coisas ruins se permitem acontecer: porque o remédio pra elas a gente sabe que tem e enfrenta os leões sem medo pra ser cada dia melhor pro outro.

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Tem sido uma aventura na corda bamba viver minha família perto da minha família, se é que você me entende. O tempo inteiro as relações se misturam, a filha que eu fui, a mãe que eu sou, a filha e a mãe que eu tenho, meus irmãos, Tomé irmão da Nina, meu pai, o pai dos meus filhos, meus avós, meus pais como avós. Um emaranhado de memórias que vão e voltam, questionamentos sobre o passado para tentar garantir a clareza do presente, comparações, expectativas a serem correspondidas ou ignoradas, descobertas de feridas abertas, outras curadas e silêncio.

Talvez essa volta pro ninho tenha acontecido em boa hora, pra poder descansar de um susto em solo e colo firmes, pra poder revisitar esse lugar família que a distância geográfica não me permitia enxergar como deveria. É estranho e muito necessário ter que sair de um espaço para poder reconhecer que reformas precisam ser feitas. E eu bem acho que a mágica da coisa mora por aí, porque família é pra sempre, se a gente quiser. E tudo aquilo que nos proporciona o bem e nos desperta a vontade espontânea de um retorno no mesmo tom, merece ser melhorado todo dia, mesmo que a trancos e barrancos.

Se hoje a minha busca é também por poder ser uma pessoa cada dia mais consciente, leve, forte e cheia de amor da cabeça aos pés para meus filhos, é necessário reconhecer que alguém também já fez e ainda faz isso por mim. Esse reconhecimento é extremamente natural porque se manifesta pela gratidão e amor pelos meus. No fundo, o que eu queria mesmo, era derramar nesse divã aqui a admiração, o afeto, o respeito e o amor incondicional que sinto pelos meus irmãos e, especialmente, pela minha mãe. Dizer a eles que nossa união vai ser pra sempre celebrada com o melhor que tenho em mim, mesmo que distante da rotina em família. E se hoje vivo essa liberdade de ser e estar onde quero com meus filhos e meu companheiro, é porque tenho dentro do peito a certeza de que minhas raízes foram bem plantadas, que boa parte de mim é feita dessas pessoas.

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Mamãe, Branca, Fio, Bê, Gabriel e papai: gratidão eterna pela liberdade de nos permitir. Pela liberdade de crescermos longe da obrigação de sermos uma família perfeita. Pelo entendimento e consciência das nossas vontades, dos nossos caminhos, das nossas responsabilidades. Pelas discussões que levam ao crescimento, pelas risadas que compartilhamos em tardes de café quando estamos juntos. Gratidão pelo sentimento de nos pertencermos, pela força desse sentimento. Gratidão por tudo o que ainda não descobrimos ou não vivemos, por tudo o que ainda seremos. Somos uma família feliz porque queremos e buscamos isso, porque nos respeitamos e temos dentro de nós o doce e mais puro amor. E que sigamos nesse caminho florido, entendendo que nada é tão fácil quanto parece, mas que somos uns dos outros e isso é mais que suficiente para sermos a família que queremos ser. Meu amor pra vocês, nessa e em todas as outras vidas que ainda nos encontraremos!

Foto do querido Athos Souza.

Foto do querido Athos Souza.