O recomeço (de novo!)

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Sumimos daqui porque estivemos em tantos lugares dentro e fora da gente desde o último post que não me sobrou fôlego pra compartilhar antes. Nesses momentos, na maioria das vezes, me fecho feito tatu bola e fico ali rodopiando e entendendo as coisas balançando dentro de mim. Mas agora já saímos do olho do furacão e estamos inteiros para poder contar sobre como a vida tem tirado a gente pra dançar.

Tárra tudo bom demais pra ser verdade no ecocentro onde estávamos vivendo, mas a casa caiu e, por incrível que pareça, tudo ficou melhor depois disso. Pra simplificar essa parte, vou resumir o motivo dessa partida em uma palavra que é muito importante no meu vocabulário, a hipocrisia. Sim, importante no sentido de que é uma das coisas que mais leva embora minha tolerância, eu tenho verdadeiro pavor de gente hipócrita, mais do que de barata que voa. Viver em um lugar maravilhoso no meio da natureza, com mil e uma possibilidades de transformar o mundo em algo mais bonito, cheio de gente do bem é felicidade digna de propaganda de margarina. E foi, até aparecer um Zé carregado da porcaria da ego trip (o que pra mim é meio demodê, cá entre nós), mania de poder, sede de muita grana a qualquer custo e mais um monte de conceitos e valores que vão na contra mão dos nossos, fazem curva na mentira e desembocam na hipocrisia. Então, meu bem, pernas pra que te quero, bora zarpar daqui!

Pois é, mas pra onde agora, produção?

Em um mês arrumamos as malas e tentamos pensar numa saída pra esse momento, mas sempre daquele jeito nosso, enchendo a bola da confiança e furando o pneu do medo do incerto. E, como em toda troca de cenário da família insistentemente cigana, uma parada em Minas, no colo da família, no conforto do ninho. E ali um mundo de coisas aconteceu, como se o universo estivesse trocando todas as placas de direção da estrada que estávamos seguindo, só pra ver até onde a gente iria guiados pelo próprio instinto. Perrengue, seja bem vindo OUTRA VEZ, te entrego meu corpinho até que meu entendimento te perceba como um passo pra frete, daí te transformo em gratidão e sigo linda, loira e japonesa!

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E é tudo muito mágico mesmo, saca? Quando você entrega o peito aberto e aceita que é pela desordem que a gente se organiza, as coisas seguem a fluidez que precisam pra ser coisas importantes no seu processo evolutivo. Daí começamos a rever todos os pontos que gritavam na gente uma mudança necessária depois de tempos rígidos na inércia da rotina, sem crescer. A educação das crianças, a relação com grana, os laços familiares, as faltas que excedem, o amor de dois e mais, tudo o que interferia diretamente na nossa paixão pela liberdade. Ameaçar a nossa liberdade é fazer a gente virar bicho brabo e cheio de agonia.

E a chegada da clareza sobre tudo, quando a cortina de neblina se esvaiu, veio aquele sopro fresco de vento que o universo provê como um carinho na alma, esse que te lembra que é pra frente que se anda, que é com amor e verdade que se celebra essa vida larga! Então, uma irmã dessas que a gente tem de muitas encarnações, aparece como a manifestação palpável desse fluir bonito e nos convida pra viver perto dela, num paraíso ali na Bahia, terra de todos os santos e um lugar pelo qual já carregamos um amor de outras vivências. Mais uma vez, o universo dança e a gente entra na roda, muda o cenário da vida, sacode a poeira dos sapatos e se prepara pra pisar na estrada de novo. Outro recomeço sem medo, outro recomeço sem a expectativa de que seja o último, somos livres e estamos prontos pra mais uma aventura bonita.

E aqui estamos, num lugar onde os olhos alcançam coqueiros carregados, o biquíni sempre no varal lembrando que a maré ta pra peixe, sendo abraçados pela brisa do mar, luas lindas, calmaria e gente. São seis famílias que vivem em perfeita harmonia numa antiga fazenda, como uma comunidade que não tem a pretensão de ser organizar como tal, por isso conseguem ser uma família tão integrada e linda! Tomé e Nina agora só andam de galera, são 12 crianças dependuradas em árvores, brincando na areia, brigando, descobrindo o respeito ao outro, se reconhecendo, experimentando e se jogando na delicia que é ser criança no meio da natureza.

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Algumas coisas ainda vão se ajeitando aqui na constância do mundo adulto, todo recomeço tem um tempo de fazer uma bainha aqui, uma costurinha ali, pregar um botão pra coisa ganhar firmeza. Mas pra isso tem a comparsa de velhos tempos, a natureza, essa que traz o tempo rei na medida do respeito que ele merece. E tem os guias, os ancestrais, os orixás, os santos, as entidades, a força, o grande mistério, toda essa “gente” que tá sempre na nossa cola e aos quais eu honro com um bocado de rezo e o melhor de mim, sempre.

Muita coisa nova vem chegando, muitas sementes fortes sendo plantadas, muitos projetos ganhando forma, estamos nos sentindo mais maduros e mais preparados para dar passos maiores. Sinto que é porque esse lugar nos trouxe a sensação de acolhimento, como um abraço forte depois de um choro doído, talvez o primeiro lugar onde pensamos em construir uma casa, ter um lugar pra onde voltar, uma família enorme de gente que vibra as mesmas conexões e o amor que buscamos ser cada dia mais. O universo é tão sábio que passa uma vida te enchendo de tapas e beijos, te dando e tirando, te oferecendo retas e curvas e te preparando para merecer o que sempre foi seu, o que ele guardou no canto mais bonito da sua imensidão. Sinto esse momento chegando não como um mar de rosas, mas percebo que quanto mais alinhados estamos por dentro, menos sentimos os terremotos que rolam do lado de fora. Aliás, dentro e fora ficam bem apertados quando enxergamos que um é pura e simplesmente o reflexo do outro. Tipo toma lá, dá cá, só que você com você mesmo!

Depois a gente conta mais sobre as coisas daqui, queria mesmo era terminar esse falatório todo manifestando minha gratidão pelas possibilidades que a belezura dessa vida tem nos dado. E também dizer pra Ruah, minha irmã de alma que agora é minha vizinha como a gente sempre sonhou, que meu amor e gratidão por você não tem tamanho nem fronteira, a gente é rio que corre pro mar. Hugo, a cada passo que damos juntos, te amo mais.

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