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Hoje abrimos aqui mais uma parte do nosso diário de bordo, um espaço para as pessoas que estiveram com a gente contarem um pouco de como viveram essa experiência dentro do projeto da casinha. É super importante pra gente (além de bonito por demais!) sentir como tudo isso bate no outro. A primeira parte desse capítulo colaborativo de registros é da Lud, uma irmã linda que chegou, partiu, deixou saudade e já vem voltando pro nosso pertinho outra vez! 🙂 Gratidão, hermana, é lindo aprender tanta coisa e trocar tanto amô contigo! Lá vai!

Uma carta para uma nota

“Quem assim como eu sente o chamado pra fazer um lar no mato, volta de uma temporada com a família da Manu, Hugo, Tomé e Nina instigado.

O vôo livre por Serra Grande, no sul da Bahia, onde eles fizeram seu pouso junto com outras cinco famílias me permitiu ver de pertinho a beleza dessa realidade que eles estão criando. Lá o convite diário é de desconstrução dos padrões que se manifestam diariamente em várias esferas de nossa vida. Seja no despertar ao sol, no cuidado com a alimentação, na dedicação à livre manifestação das crianças, na intimidade, nas relações dentro da comunidade ou na forma de pensar e construir uma casa, eles estão experimentando e fazendo diferente, com liberdade.

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O tempo e o espaço são aliados. As pausas possíveis e os lugares de contemplação favorecem a escuta da voz da alma, das perguntas sinceras que chegam pelo coração. Então dá pra perceber o que é importante cultivar, quando o pensamento decanta, o julgamento se afasta, a palavra descansa e a dispersão dá lugar ao despertar.

As vivências compartilhadas neste período em que estive por lá, iniciando com eles uma linda parceria e vivenciando o início do projeto de Bioconstrução da Casinha do Amô (link pro blog), me trouxeram muitas reflexões importantes. Dentre tantas, a alimentação é o fio escolhido pra tecer esse relato, porque esse nutrir, que começa na percepção das necessidades do corpo e na busca por saciá-lo em conexão com natureza, tangencia várias dimensões da nossa vida que podem ser simplificadas, quando a escolha é sair da cidade.

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Nas três semanas de janeiro em que estive com a família de Manu, o alimento foi partilhado com as dezenas de voluntários que chegaram por lá atendendo o chamado da família para a bioconstrução da Casinha do Amô. Estavam envolvidos nesta linda empreitada pessoas de vários lugares do Brasil. Todas de alguma forma buscando ou reforçando um estilo de vida que aponta para novos tempos em que o respeito ao saber ancestral se alia aos conhecimentos atuais.

Todas as refeições eram necessariamente vegetarianas e preferencialmente veganas – sempre é assim por lá. A criatividade das cozinheiras impressiona. Os mesmos ingredientes naturais foram combinados ao longo de semanas, mas nenhum prato foi repetido. Interessante perceber como o hábito e a facilidade falsamente ofertada pelo supermercado podem ser substituídos por experimentações que são uma verdadeira alquimia. Nossa tapioca era feita diretamente da mandioca, o coco era colhido do pé, os brotos cultivados diariamente e o pão feito a muitas mãos.

O alimento vinha em sua maioria da feira em Serra Grande, que acontece aos domingos, e para conseguir garantir os legumes e principalmente as verduras tinha que madrugar e chegar por lá antes das seis da matina. Mesmo assim, nem sempre se encontra tudo o que deseja, somente o que os agricultores conseguiram na colheita da semana e o preço por isso costuma ser mais salgadinho. Se contentar com o que a terra tem pra dar é um meio de se conectar com os ciclos e se nutrir dos alimentos que cada estação da natureza nos reserva.

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Quando necessário, alguns alimentos são comprados em Ilhéus e essa experiência que nos é tão familiar na cidade grande, de encontrar disponível nas prateleiras dos supermercados toda a sorte de alimentos mesmo que embalados e conservados para o transporte além mar, é um instigante contraponto à vida mais simples e integrada à natureza.

Incumbida de abastecer a casa com quilos de abobrinha, cenoura, cebola, abóboras e batatas fui ao supermercado Itão, em Ilhéus, e me surpreendi com pequenas sensações que me conectaram ainda mais a esse estilo de vida. Dois pontos muito simples me chamaram a atenção: o fato de comprar alimento para cerca de 20 pessoas e apenas três itens serem industrializados e embalados (pilhas, uva passa e biscoito de gergelim) e o incômodo que senti ao levar para a comunidade o lixo dessas embalagens e dos sacos plásticos onde estavam os legumes. Este era um lixo que, ao contrário de tudo que fazíamos lá, não podia ir para a composteira para nutrir a terra e voltar a ser alimento.

Parece uma coisa boba e é mesmo. Mas só quando vi (e vivi) a proporção de lixo orgânico produzido e reaproveitado sendo muito maior que a de lixo reciclável é que senti o prazer que há em gerar resíduos que conseguem ser absorvidos e transformados pela terra, sem sobrecarregar o solo, as águas, o ar. O que não volta pra terra, vai pra dentro de garrafas pet que preenchidas com as embalagens se transformam em tijolo urbano e ganham utilidade servindo como cerca de horta, suporte para estruturas, dentre outras possibilidades.

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Todo o lixo seco da cozinha vai para garrafas pet que se transformam em tijolos urbanos.

Prazer semelhante senti ao perceber que um simples sabão de coco dá conta da limpeza da pia da cozinha e das roupas, ou uma antiga receita com bicabornato e limão é suficiente para deixar os pisos limpos e higienizados. A “sujeira” ali é basicamente de terra e suor, não tem aquela poeira cinza da poluição da cidade ou gordura excessiva que exija um detergente ou desinfetante cheio de químicos, por exemplo. Como as casas por lá sempre tem uma bananeira na saída do encanamento da cozinha seguindo um princípio de permacultura, esse sabão também é absorvido pela terra, depois de ser filtrado pelas raízes da planta e assim mais uma prática cotidiana se dá de forma mais equilibrada com o ambiente do entorno.

E que ambiente! Serra Grande é no litoral da Bahia, tem uma mata atlântica belíssima e exuberante, com muitos muitos pássaros e água doce também. Mata que me presenteou no primeiro de dia do ano com uma mangueira gigante carregadíssima que uma vez descoberta passou a ser nossa fonte de fruta durante todas as semanas em que estive por lá (além dos cocos e dos poucos cajus que tivemos a sorte de encontrar). As mangas maduras caiam de metros de altura e eram recebidas por uma cama de folhas secas que absorvia o impacto e nos permitia fazer uma colheita de frutas perfeitas e perfumadas. Tamanha gratidão à Mãe Terra pode ser expressa diretamente à árvore provedora da fruta preferida do verão. Pequenos rituais diários que o contato com a terra favorece, numa troca que só cresce e alimenta o corpo e a alma.

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Páginas e mais páginas poderiam ser escritas pra compartilhar a vivência por lá, mas a Manu já faz isso com um talento que dá pra parar por aqui, com o sentimento de alegria por ser uma eterna aprendiz. É como me senti junto a estas companhias em Aritaguá, comunidade em que as matriarcas se destacam junto a seus companheiros e filhos, as crianças são livres e cuidadas por todos e as imposições da moral, do padrão da cidade são desafios encarados com amor, como teste de resistência e chance de crescimento. Como um lembrete de viver valores que são essenciais para a vida coletiva, como escuta, humildade, abertura, mais perguntas que respostas, coragem, alegria e festa. Seja no mato ou na cidade”.

Ludmila Ribeiro/Fevereiro de 2016

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11 comentários em “A casinha do amô – Diário da Lud

  1. Quem lindo, Manu ! Poder ler a experiência das pessoas que se sentem modificadas nessa empreitada de vocês. Me deu mais vontade de estar aí ! Beijos em todos

    Felipe Sales Melo Franco 11 972480735

    >

  2. Fico aqui imaginando e sonhando em dia poder viver assim, bem natural e simples, sem consumismo, poluição e etc, como faz pra morar ai ??

  3. Que delícia de relato!
    Que lugar encantador!
    Me parece um conto… uma realidade distante!
    Que bom que vivenciou tudo isto e que mais comunidades se unem num propósito mais humano e consciente!

  4. Recebi, hoje, através do belo texto da Lud, resposta a uma pergunta que fiz há algum tempo sobre a natureza da alimentação que praticam. Sei agora que é vegetariana/vegana. Que bom. Vi, acima, uma foto de um vaso de cebolinha (a partir disso, presumo que também usem cebola e alho). Se isso for verdade, sugiro que procurem mais informações sobre a energia desses alimentos.

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