A casinha do amô – O barro

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Construir uma casa de barro é construir tantas outras coisas que nunca vão caber dentro dela, descoberta que vem se mostrando cada dia mais bonita nessa rotina de dias desiguais. Pisar o barro é um movimento tão intenso que até a alma da gente dança, uma experiência incrível que me enche os olhos e o coração.

Outro dia consegui entender o que estar de pés descalços em contato com a terra significa em toda a sua amplitude e senti de compartilhar isso aqui. Foi um dia ímpar na minha vida, uma experiência tão intensa que demorei dias pra absorver e acredito que uma vida inteira pra esquecer. Acordei com um incômodo no peito, um daqueles sentimentos que a gente não sabe de onde vem e nem pra onde vai, só sente seu peso crescendo e escondendo a vontade de procurar suas raízes. Então senti meu coração pedindo pra amassar o barro, corri pra obra com a galera e começamos o ritual de todo dia. Mas aquele dia foi diferente, eu estava ali para me esvaziar de alguma coisa e acreditei que a terra, generosa que só, seria um pote cheio de amor pra me acolher e me limpar de tudo. Por horas eu pisei forte o barro, suei, em silêncio não pensei, segui apenas o movimento do meu corpo, a minha respiração, meu cansaço, minha força, minha fragilidade. No final de tudo veio uma chuva forte e nela me limpei do barro, do suor, do cansaço, de tudo mais que tinha sobrado em mim.

E voltei pra casa ainda sem conseguir pensar muito, um pouco assustada com esse vazio na cabeça, no peito, no corpo. Uma conexão muito forte com esse nada que estava dentro de mim, nunca tinha me sentido tão sem matéria, fechava os olhos e enxergava somente minhas bordas, com apenas um vácuo dentro delas. Deitei na beira da represa e por ali horas fiquei me integrando ao pouco que tinha ficado em mim, interagindo com esse silêncio, me ocupando de sentir essa experiência incrível, agradecendo a terra por tamanha limpeza, honrando toda a natureza de dentro e de fora da gente. O barro me esvaziou, e nesse dia eu consegui entender que ele é muito maior do que as paredes que dele vão surgir e da casa que ele vai construir.

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O barro é cura. Ninguém que entra ali consegue sair exatamente igual, não mesmo. O contato direto e intenso dos pés, da pele, da energia que circula em nosso corpo com a terra é muito forte e, se você sabe aproveitar esse momento, consegue deixar ali uma centena de coisas que não quer mais. E eu fico aqui pensando na lindeza que e tudo isso, ter uma casa que me cura, que cuida de mim antes mesmo de ser um abrigo pra minha família, que cuida de outras pessoas que estão ali cuidando de nos ajudar. A nossa casa está sendo construída com essa consciência da natureza como parte de nós, da mãe terra como um colo forte e incansável para as aflições que vivemos.

O barro é alegria. Nele tem pandeiro, tem caxixi, tem batucada, tem abê, tem as vozes de quem quer compartilhar um canto seja ele qual for. E dali vem surgindo uma festa bonita, onde as pessoas se olham, riem, cantam junto, dançam no barro, outro dia teve até gente jogando capoeira. O barro é uma festa ancestral e nesse pisa pisa a gente honra os antigos que faziam isso com tanta perfeição, a gente agradece com cantigas de roda e muito samba pelo conhecimento herdado. E nos divertimos, e somos felizes nesse agora no qual estamos entregues.

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O barro é entrega. Quem sabe aproveitar esse momento consegue deixar ali o melhor e o pior de si, se renovando a cada minuto. O corpo solto e o movimento contínuo das pernas dão ritmo a esse momento de se esvaziar. E como se a gente se desligasse de todo o resto do mundo, o que normalmente é bem raro. Pisar barro exige, mais do que qualquer coisa, estar ancorado na presença daquele momento de doação plena para o que se esta fazendo. Entregar-se para a escolha de estar ali e ser feliz com ela, a entrega e sempre um rio lindo que corre pro mar.

O barro é união. As pessoas vêm por um chamado, seja ele qual for, e se encontram. Se reconhecem. Se identificam. Se juntam. Muitos pés juntos pisam mais barro, muitas vozes juntas cantam mais alegre, muitos corpos juntos emanam mais energia e amor. A historia de que a união faz a forca nunca foi tão verdadeira antes. E faz muito mais, faz um sentimento bom brotar na gente quando olhamos mais de trinta pessoas juntas pisando o barro para construir a casa de quatro. Faz a gente ter a certeza de que a consciência da transformação tá se espalhando e o barquinho rumo a uma nova era de amor e verdade tá cada dia mais cheio. Seguimos remando com muita vontade, cada dia mais.

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O barro é gratidão. É nele que a gente faz a força da conexão com a natureza mais pura, a nossa de dentro e essa que a gente vê do lado de fora, que na verdade é uma coisa só. Pisar o barro e quase um rezo, um ritual de agradecer pela beleza da vida, pela natureza que tudo prove, pela abundância do que colhemos, pelos ensinamentos infindáveis, pela imensidão de ser.

O barro é mais um monte de coisas que a gente poderia demorar horas pra listar, que a gente ainda vai descobrir, dia por dia, pisada por pisada. E, quando a casa estiver pronta, talvez a gente consiga compreender a grandeza disso tudo que estamos vivendo, que estamos espalhando, que estamos aprendendo. Agradeço, com todo meu amor e verdade ao Hugo, que vem guiando essa vivência de forma tão bonita e visceral. Agradeço por ele ter escolhido o barro como essência da nossa casa, onde a gente ainda vai ser mais feliz ainda, onde nossa família vai crescer com a fora da terra. Sou grata a cada pessoa que veio aqui compartilhar esse sonho, colocar nele um cadinho do que quer e pode doar. Agradeço infinitamente a mãe terra, ao barro que tem transformado nossos dias em curas lindas e únicas, estamos cada final de dia mais vazios pra nos preencher a cada nova manhã!

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Ah! E se você tá afim de remar nesse barco cheio de amor, pula pra cá, é só escrever no mmelofranco@gmail.com

E também ainda estamos na labuta pra poder alimentar os voluntários que estão aqui e os que vêm vindo. Se sentir de ajudar, colabore com nossa vaquinha virtual, a gente agradece muuuuuuuuito e ficamos felizes em saber que você também está no barquinho da transformação, mesmo que de longe!

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