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Como em todo caminho que nos propomos a percorrer nessa vida, uma hora a gente faz uma curva e dá de cara com o bicho. Sim, aquele mesmo que, se a gente correr ele pega, se a gente ficar ele come, se a gente gritar ele grita mais, se a gente ignorar ele cresce e se e se e se e se … sem fim. Fizemos e estamos fazendo mil curvas a 200km por hora, socorro! Mas temos cintos apertados, uma sacola de paciência no banco de trás e muito amor no motor dessa engrenagem toda.

Construir uma casa de barro com tudo o que sonhamos pra ela não é fácil e ninguém nos disse que seria, um desafio que tem uma beleza genuína escondida entre os tapas e beijos que o universo nos dá. Muita coisa se transforma ou já vem como um perrengue pronto, um nó de marinheiro ou uma agulha no palheiro que a gente tem que aprender a lidar. E tudo ao mesmo tempo, hoje, agora, pra ontem. Tem momentos em que a natureza brinca com a gente e manda chuva demais, dificultando o trabalho nas paredes de barro. Depois manda um sol pra cada habitante desse lugar e derrete a galera que tá no front. Deu um pau na bomba e acabou a água do camping, ao mesmo tempo que chegou uma turma de voluntários novos, nesse mesmo instante as criOnças estão em crise de carência afetiva e só querem colo, justo quando acabou o gás da cozinha e tem que buscar outro na cidade para continuar o almoço que não pode parar. Somos duas pessoas, eu e Hugo, para sermos cinco soluções imediatas, meu sonho da multiplicação de braços nunca foi tão grande!

E tem as pessoas, essas (nós) são as “missões” mais difíceis de todas! Éramos, antes de tudo isso começar, uma família de quatro pessoas numa casinha simples, com uma rotina tranquila, imersos em nós mesmos e na comunidade onde vivemos, donos dos nossos tempos e espaços. De repente, temos em nossa casa cerca de 15 a 20 pessoas ao mesmo tempo, cada uma carregando uma energia/história/expectativa/curiosidade/necessidade diferentes, ocupando todas as quinas dos espaços físicos e emocionais de cada um. Uma das consequências dessa escolha de construir de forma colaborativa e uma das viagens mais intensas para dentro da nossa essência. O outro é nosso espelho, reflexo de milhões de coisas que habitam o brejo do peito, muitas delas desconhecidas até trombarmos de frente, na personalidade e atitude do outro.

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Nessas trocas novas, relações que vão se estabelecendo com a repetição dos rituais diários, cada membro da família aprende, assimila, aceita, entende e reage a sua maneira. A única coisa em comum é o tempo em que tudo isso acontece, o agora mesmo! Quando a gente consegue desbravar um cadinho do que acabamos de descobrir, aqueles pequenos espelhos vão embora e chegam outros, dando início a um novo ciclo de descobertas e adaptações. Não há tempo suficiente para terminar um processo e começar outro, como se o universo estivesse dizendo: vocês escolheram, mesmo sem saber, viver conflitos internos e externos no tempo do outro. Sendo assim, se virem, molecada!

Eu, que quero dar conta de tudo e pular de cabeça em qualquer poça de lama ou abismo, tomo um tapa na orelha atrás do outro. Me perco, me acho, sou intensa, choro igual criança, fico firme, me escondo na mata, esqueço de comer, como demais, faço caminhadas na praia, perco a paciência, fico calada, volto pra dentro, tenho vontade de gritar, grito, faço rezos em silêncio, respiro fundo 1 2 3, peço desculpas quando há culpa, vou me distrair com as crianças, rio de mim mesma, aceito e honro todo esse maremoto que me balança forte toda vez que uma pessoa de fora me traz coisas de dentro que eu preciso enxergar. E me canso dessa sequência constante. Sinto que tenho morrido cada vez mais, a gente precisa aprender a morrer com leveza, porque renascer a cada manhã é imensamente gratificante.

Hugo é um guerreiro e os guerreiros também choram, mesmo que em silêncio. Somos âncoras um do outro e das crianças, precisamos nos fortalecer a cada tropeção que damos. Não há tempo para fraquejar, mas há muito permitir-se caso esse sentimento venha a tona. Somos dois, somos quatro, temos oito mãos para segurar quem quer que nessa roda precise. Aprendo a cada instante com ele, principalmente sobre como ser prática, como saber dosar o que tem peso na razão e o que cabe no coração, como se livrar do apego sem ficar longe do amor. Hugo é o mestre de obras dessa porra toda, tem pressões e responsabilidades pesadas, tem força e fragilidade que se equilibram, tem dias cinzas e de sol, tem mil palavras e o silêncio no olhar, tem amor e determinação de sobra mesmo depois que o fogo queimou tudo.

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As crianças aprendem um tanto com a diferença, muita gente traz muita bagagem cultura, muita diversidade estética, muito sotaque, muito conhecimento, muito amor e todas as suas formas de manifestação. E também são esponjas que “sofrem “ com o excesso de energia que circula na casa, que está em trânsito no corpo dos pais. Tem altos e baixos, mas sempre nos deixam com a sensação de que estão tirando tudo de letra, muito mais que a gente.

E, rodando feito um monte de perus tontos nesse bololô emocional, estamos aqui fora, lidando com as questões práticas que nos exigem astúcia e jogo de cintura, como num jogo mesmo. Daí vem a grana, esse pedaço de papel que a gente não leva pra céu. Mas que se faz presente aqui, necessário na engrenagem e um grande desafio pra gente, porque é ele que alimenta toda essa gente lheeeenda que vem voluntariar na obra. Rebolamos de todos os lados para que ele não seja dominante nessa relação, que ele chegue até a gente de forma consciente, que saibamos aproveitá-lo da melhor forma possível, que venha para prover o necessário sem extravagâncias. Daí a casa tá cheia de gente, ao mesmo tempo não tem um legume/verdura que preste na vila mais próxima, o que tem tá uma fortuna, e aí a grana da vaquinha virtual tá acabando, precisamos fazer campanha e arrecadar mais, mas aí choveu muito e a internet na roça parou, no mesmo momento resolvemos trazer o pessoal da comunidade vizinha pra aprender e pagar a eles uma ajuda de custo para que possam estar aqui aprendendo uma nova possibilidade de trabalho sem perder o tempo que vira dinheiro pra suas famílias. E o bicho pega, a gente olha pra frente e vê mais meses de obra, de gente, de alimentação. E, nesse hora, também olhamos pra trás com muito orgulho, e vemos o tanto de gente que já colaborou, que alimentou mais de 120 pessoas até agora com dim dim e amor.

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Transmutamos a angústia do perrengue em esperança e determinação, lá vamos nos outra vez, buscar fazer tudo como escolhemos desde o começo. Com o peito cheio de gratidão pelo apoio de tanta gente massa, respiramos fundo e seguimos fortes! Nenhum mar de rosas foi esperado, a gente gosta mesmo é de se descobrir a todo momento, meio camicases surfando em cima dos vagões do trem que está nos levando ao lugar mais bonito de todos, nossa morada de amor. Ali, na beira da represa, com vista para muitas árvores e calmaria, em alicerce forte de pedra, com paredes grossas de barro, está acontecendo nosso lar. Esse que vai ser nosso “lugar pra voltar”, uma bioconstrução linda que abrigará nossa casa, essa que somos nós quatro, onde quer que estejamos, se estivermos juntos, estaremos sempre em casa! 🙂

Pra quem sentir de colaborar com a vaquinha virtual, segue o link. Toda a grana arrecadada está sendo usada para alimentar os voluntários que estão vindo e também os meninos da comunidade local que estão com a gente aprendendo uma nova possibilidade de construir, uma vez que são pedreiros tradicionais e aprendizes. Agradecemos de coração toda e qualquer ajuda, é muito importante pra gente poder receber tanta gente do bem para trocar e espalhar por esse mundo afora as mudanças que queremos ver e ser nele! Inspire-se e entre nesse barquinho rumo a uma era de coletividade e amor, beibe!

Gratidão, sempre!

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo

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10 comentários em “A casinha do amô – O (s) perrengue (s)

  1. Parabéns, deve ser puxado, um perrengue danado, mais com certeza a existência está nutrindo cada coração dos seres que estão com vocês! Muita Luz ❤

  2. Parabéns!! Seus lindos!! Inspiração pra muita gente!! Paz e Amor que tudo dá certo no final. Deus jamais colocaria um sonho dentro do nosso coração que fosse impossível de realizar. Mas Ele usa nossas mãos como ferramentas…Aprendemos junto…ensinamos…de dentro pra fora…

  3. Hugo e Manu, tomamos nossas decisões. Com elas vêm os nós que nos abraçam e, às vezes, nós apertam e dão a impressão de nós prender. São as oportunidades que temos de nos transformar, de transcender os limites que achamos que temos. Coragem. Sempre. E, como, alento, a lembrança de que a impermanência é nossa companheira fiel: a afinidade do momento que é percebida por nós como desfavorável, é logo substituida por um raio de luz que nos trás alegria.

  4. Manu, acompanho faz tempo sua jornada de amô e suor. Daqui de longe sempre mandando boas vibracoes! Estou trabalhando num projeto lindo, lindo que acho a sua cara e queria saber se podemos bater um papinho! Me passa seu email? (Ou me passa um email??)
    Beijos de amô

Solte o verbo!

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