O limite

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Andei sumida daqui (e de tantos outros “lugares”) porque estava presa no meu limite. Ali eu entrei, fiquei, me demorei e agora abri a porta para sair, sã e salva. Reconhecer que chegamos ao limite, seja ele qual for, é algo que dá medo porque sempre o associamos a um basta, que puxa uma mudança ousada, que traz o medo outra vez. Mas senti que era necessário, foi (e é) como escolher morrer para renascer na manhã seguinte, a gente precisa aprender a morrer mais.

Sinto que passei um bom tempo cultivando esse limite pra tanta coisa, como uma plantinha pra qual eu olhava, via crescer e, quando ela começava a ganhar força, eu podava. Mas as podas dão força às plantas, e ela crescia mais ainda, me deixando miúda e fraca, como essa planta era quando semente. Então foi preciso ela ganhar proporções enormes, foi preciso ela ser uma trepadeira com pressa de tomar todo meu corpo, foi preciso eu ter os braços cansados de podar pra perceber que minha única saída era me entregar a ela. Tem coisa que não adianta a gente arrancar do peito porque tem raízes fortes demais, elas saem da superfície mas continuam sendo vida que prolifera dentro da terra.

O limite pede entrega. Mas a gente reluta um tanto até entender e aceitar isso, a gente prefere não chegar nesse “final” e vai fazendo carinho nos sapos engolidos que vão se entulhando no brejo do peito. Até que então, num belo dia de chuva ou sol, a gente se rende porque chega no limite da luta contra a aceitação do limite. E, por fim, nos entregamos a tudo aquilo que está em colapso dentro da cabeça, do corpo e da alma. E, por fim, chegamos um cadinho mais próximos de nós mesmos, porque finalmente entendemos que aceitar o que não se dá conta de ser e fazer é também honrar. E honrar os pedaços da gente é como dar a eles a roupa mais bonita que se tem no armário, mesmo que eles sejam feios de doer, mas são nossos.

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Então eu joguei tudo no chão, tudinho. Joguei meu cansaço de obra, de maternidade, de relações, as dificuldades, as dúvidas, a falta de espaços, os apegos, as lutas internas, as externas, as insatisfações, os excessos de falta, as faltas de excesso, as cobranças, os medos, as inseguranças, as incompreensões, as reclamações, as fraquezas, as responsabilidades, as expectativas, as frustrações, as dores, as mágoas, as angústias, as forças, tudo. E meu corpo, sabido que é, não quis ficar pra trás e logo entrou em colapso também. Chegaram então, num piscar de olhos ainda meio perdidos, um nariz bloqueado, um peito cheio, uma cabeça pulsando dor, uma garganta arranhada, uma febre ardente. E, pela primeira vez em não sei quanto tempo, eu me permiti ficar ali, deitada, rendida por um dia todo. Os limites pedem presença, a gente tem que estar por inteiro ali, ancorando o agora dessa entrega urgente.

Podia criança chorar, podia a vaca voar, podia o céu desabar que nada me tirava daquele lugar, finalmente eu estava no meu limite. E tanta coisa passava pela minha cabeça, ao mesmo tempo que eu só sentia meu corpo doente. E, lá no fundo, eu era uma desconexão horrível, uma falta de lugar, uma ausência de rumo, uma apatia rígida, um nada e um tudo medindo forças num cabo de guerra. Se chegar ao limite fosse uma coisa linda, ninguém relutava tanto, eu já deveria saber disso.

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O limite é um grito que arde na garganta, um pedido de ajuda da gente pra gente mesmo. E negar um grito desses é perigoso demais. A sorte é que lá no fundo sempre vibra o bom e forte amor, esse que é a cura de tudo. Esse que vem de mãos dadas com a coragem, esse que bate no peito com a sutileza dos dias frios e ensolarados do inverno baiano. E nele tudo se transforma, não tem belezura maior do que ver tudo que era cinza virar cor de amor.

Então lá vou eu seguindo, um cadinho por dia, nesse trilhar de mudanças intensas. Nesse caminho doido e cheio de curvas que é se enxergar, se permitir, se honrar, se entregar, agradecer e confiar. Vou chegando, aos poucos, mais perto de cada mudança necessária para me afastar cada vez mais da próxima entrega ao limite. Porque eles nunca deixam de existir, sem eles não morremos e não renascemos melhores. Sinto que é como um arrumar de gavetas do peito, desde as fechadas e empoeiradas pelo tempo rei, começando a organização lá de trás, onde o ego normalmente esconde as feridas ainda abertas. Depois dessa parte concluída, a gente vem de mansinho observando o presente, observar é tão fundamental quando agir, eu sinto. E daí vai galgando as mudanças, vai abrindo as cortinas, vai recebendo a clareza, vai ouvindo o canto do coração, vai se enfeitando de coragem, vai reestabelecendo a conexão com o universo de dentro e de fora, com o outro, vai se afastando devagarinho daquele espaço confuso que costuma ser o limite.

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Acho que é isso, ao menos é o que eu consigo entender nesse agora. Na real, o limite é um presente embalado numa caixa velha de papelão. A primeira reação é querer jogar fora, porque aquilo parece não ter valor algum. Mas, apesar de todo perrengue que ele carrega em si, traz a beleza da transformação genuína, a gente só muda com verdade quando já não aguenta mais alguma coisa. E não aguentar é vida, meu povo! O limite pulsa essa vida, ele grita o tempo inteiro que precisamos estar em alerta, acordados, vivendo, aprendendo, sendo em mutação constante. Eu não quero viver no limite, mas sinto que preciso passar por isso de tempos em tempos. Como na natureza, onde alguns bichos trocam de carcaça ou de pele quando aquele velho já não lhes cabe mais. Hoje, nesse presente, eu me reconheço em um novo corpo fresco, honro o que deixei e, com a alma carregada de gratidão, fecho a porta desse “lugar” de ensinamentos por onde passei. Deixei o limite e vim aqui fora respirar o ar puro das transformações que escolhi colecionar.

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(E, mudando de assunto, nossa vaquinha para alimentar os voluntários da Casinha do Amô ainda tá rolando e precisando engordar! Se sentir de colaborar com o projeto, a gente agradece um monte: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo)