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Eu sempre fui avessa à rituais, confesso. Essas coisas muito regradas e cheias de coordenadas eram meio que como um tapa na orelha da minha subversão típica de seres aquarianos. Além do que, meu entendimento raso da coisa sempre me levava a condicionar rituais à cerimônias religiosas fossem elas de qual Deus fossem. Daí eu vim morar no mato e viver uma vida que me empurrou sem dó para aquela famosa viagem pra dentro de nós mesmos. Tome-lhe porrada de lá e de cá, cai, levanta, vira, mexe, ri, chora, mas nunca volta ao mesmo lugar, sempre um passo pra frente. E é tudo muito rápido e doido, os caminhos vão se abrindo e, quando dei por mim, lá estava minha preguiça de rituais sentada em uma roda com mulheres celebrando a lua nova.

Nesse momento outros tipos de rituais foram se apresentando e eu fui que nem pinto no lixo nadando de braçada em cada um deles. Era ritual de Ayauasca no Santo Daime, era trabalho no terreiro de Umbanda, era encontro de Saberes Femininos, era ritual de oferenda, era coisa que não acabava mais. Eu me sentia um vazio enorme, desses que cabem mil possibilidades, que nem criança é. E fui experimentando, me entregando, vivendo, entendendo, observando e me aproximando cada vez mais do entendimento que me chegaria um tempo depois, mesmo que eu não tivesse a mínima ideia de onde aquela furdunço todo iria me levar. E foi tudo lindo, aprendi um monte sobre deusas/deuses/entidades/rezos, conheci muita gente incrível, me conectei mais e mais comigo mesma.

Maaaaaaas, ainda assim me gritava no peito uma rebeldia doida que me coçava a bunda e me fazia levantar das rodas, eu queria era deitar na grama. O povo cantava e eu sentia que queria estar em silêncio absoluto pra ouvir a voz que vinha da força, torcia o nariz e pensava que não voltaria mais. Era hora de voltar pra dentro do espaço X e eu queria era ficar transmutando minhas piras no fogo mais um tempão. Eu queria um ritual agora e tinha que esperar a próxima data. Comecei a entender que eu era cri cri demais e pouco disciplinada para me encaixar em rituais “tradicionais”, por mais bonitos e ricos que eles fossem.

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Daí eu dei um tempo, respirei e deixei rolar sem muitas pretensões pra sentir se ficava mais comportada e conseguia seguir um ritual do começo ao fim. E, nesse meio tempo, fui sentindo que uma construção muito incrível estava acontecendo, fui ao encontro feliz dos meus próprios rituais diários e sagrados. Comecei a sentir que meus espaços de conexão com meu ser, com a terra, com as pessoas, com o universo inteiro que somos vinha das pequeninices que me alimentavam diariamente. Como que uma brisa leve que soprava meu rosto, veio vindo o entendimento do que eu buscava nos rituais e como eu poderia trazê-los para minha rotina sem nenhum tipo de “sacrifício”.

Hoje me vejo em plena construção de uma rotina que me nutre das coisas que gosto e que me reconectam com o que eu sou. Estou aprendendo a me ofertar respiros constantes na loucura dessa montanha russa que é ser mãe em tempo integral, dona de casa, profissional, mulher e mais um tanto de coisas que somos porque somos muitas. Aos poucos vou me livrando das couraças e dos pesos trazidos pelas mil funções e responsabilidades que a constância da vida adulta carrega, vou transformando as horas dos meus dias em descobertas incríveis sobre aquilo que me contempla e me completa.

Continuo namorando os rituais que me aparecem vez ou outra, me entrego para alguns, me divirto com outros. Mas já não preciso mais de um templo pra estabelecer conexões, meu templo é meu corpo, minha consciência, minha alma. Já não preciso esperar o tempo certo de algo acontecer, a hora que quiser eu posso me jogar no ritual que mais me acolhe. Não preciso de um “guru” para minhas guianças porque consigo (mesmo que nem sempre) ouvir as vozes do meu próprio espírito e esse sabe de mim mais do que qualquer pessoa. Não busco mais dinâmicas, ordens, coordenadas para os rituais porque eles podem acontecer muito livre e naturalmente. Hoje sou responsável por todas as curas que os rituais podem me oferecer, organicamente vou inserindo cada um deles na minha ritina de acordo com a necessidade que sinto de me cuidar.

Tenho plantado loucamente, a terra é um alimento sagrado pra alma que a gente deveria vivenciar mais. Cuidar das plantas, sejam quais forem, é uma medicina incrível e pode virar um vício delicioso de se cultivar. Também entrei na onda da argila e toda vez que passo mais de 10 minutos com barro sujando minhas mãos, sinto que minha alma está mais limpa. Escrever é outra cura sagrada, quando termino um texto, qualquer que seja, me bate uma sensação incrível de que me conheci um pouco mais depois daquela linhas preenchidas. A lida com as crianças também tem se mostrado um ritual intenso e infinito. Tenho tido a sorte de ter a casa cheia delas diariamente e exercitar a presença nas relações, assim como amar sem arestas e projeções rasteiras. A costura tem, aos poucos, me trazido a concentração, o permitir-se estar sozinha, quase como em um retiro no alto da montanha dentro de casa. E mais um monte de outros pequenos rituais simples e despretensiosos, mas nem por isso menos importantes do que aqueles que chegam com uma intenção firmada e programada. Quando se vê, o dia acabou e você olha para o que foi, enxergando um tanto de miudezas que te encheram de coragem para lidar com os ruídos que sempre insistem em aparecer. E tudo fica mais leve, porque você se permitiu um tempo para seu rezo e isso é ouro em tempos de rotinas frenéticas e sufocantes.

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A vida é sagrada, a vida é agora, nós somos infinitos. Os rituais sagrados e diários são barquinhos de papel que me levam ao encontro dos meus ancestrais, das minhas crenças, das deusas que me habitam, das sombras que precisam de luz, das curas que sanam tudo o que levo para a linha interminável da eternidade que somos. Com eles sinto que não estou sozinha, porque reestabeleço todo santo dia a conexão com o feminino e o masculino que sou, com eles me aproximo diariamente do amor que pulsa no meu corpo e ganha o mundo quando me abro pra ele. No final das contas, os rituais são alguma coisa que alguma deusa inventou pra dizer: “fia, vai lá e vive sua existência nessa Terra com muita garra e leveza, a natureza tá aí pra te ofertar esse presente. E não carece de morar no mato não, a natureza é você e você é a natureza, só precisam se encontrar!”.

 

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10 comentários em “Os rituais

  1. Que delícia te ver bem, Manu, há tempos esperava receber no meu e-mail o informativo de post novo aqui. Adorei o que você falou sobre os rituais serem um incentivo de alguma deusa pra gente viver essa vida com simplicidade e alegria. Um abraço em vc e nos filhotes!

  2. Que bom ler vc de novo! Escreva mais e depois transforma num livro. Oq vc conta pode preencher milhares de mulheres. Conte com meu incentivo, Aloha!

  3. Eu sempre espero ansiosamente pela próxima postagem, e sempre que leio é reafirmado o porquê.
    Obrigada por preencher com tanta sabedoria, leveza e beleza um espaço aqui dentro que anseia por também encontrar a sua natureza.
    Emocionei-me mais uma vez!
    E mais uma vez me lembrei de não me deixar perder em meio ao caos e a multidão, de não me deixar vencer pelo contrário.
    Obrigada pelas palavras ♥

  4. SOU EU. TODO SER É ÚNICO.TE AMO. CABEÇA E AMBIGUIDADE. SÃO PESSOAS DENTRO DE NÓS.
    NÓS VIVEMOS A PROCURA! ACHAMOS AS VEZES E ÓTIMO AS VEZES A PERDEMOS. TENHO LIDO E ACOMPANHADO VOCÊ E SEU SITE. EU ACHO ,EU, QUE O QUE PROCURAS É A IDADE.SÓ. MAS ESTA COISA INTERNA TÃO DOIDA SÓ VEM COM ELA MESMO. SIGNIFICADO VELHICE. VOCÊ AINDA É JOVEM . APESAR DA SUA VIDA ADULTA.. HOJE EU POSSO HOJE EU POSSO TE GOZAR. KKKKKKKK.
    AMADA MINHA DÊ TEMPO AO NOSSO MELHOR AMIGO O TEMPO.BEIJOS A TODA ESTA FAMÍLIA DO RIPINÍCA.AMO MUITO VOCÊS.PAI.

  5. Essas palavras virão a calhar com meu momento intensamente,ando sem vontade pra rituais, todos em algum momento me acaletaram,mas qdo me fortaleci e me aceitei entendi que não me agrada seguir outros roteiros q não seja o meu próprio, é legal participar, às vezes,mais é tão mais legal perceber q o poder maior é só meu e vem de mim mesma,q ficou desnecessário certos rituais ao mesmo tempo,fica imprescindível aceitar q eu sou a luz das estrelas, centro de cura de mim mesma… agradeço pelo texto,por saber q não sou única,q esse sentimento do poder maior ,mais verdadeiro morar dentro do individual , muito além do coletivo, não tem nada de mais, é bom TB ! É bonito.então e por isso: somos Deusas!

Solte o verbo!

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