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Fui criada em uma fazenda no interior de Minas, pelada e comendo terra vermelha. Não tive Barbie, roupas purpurinadas, televisão com esteriótipos banais, minha mãe andava de chinelo e nuca fez as unhas. Meus peitinhos cresceram na cidade e a adolescência trouxe toda a porcariada dos padrões estéticos a serem seguidos. Usei brinco dourado, passei gelatina no cabelo pra controlar os cachos que me faziam menos bonita do que as mina de cabelo liso, passei lápis no olho, queria emagrecer e tirar do meu corpo a saúde que tinha pra ser magrela e bonita.

A vida adulta me cercou em Londres, em Belo Horizonte, em São Paulo. Na babilônia em chamas me queimavam os questionamentos sobre beleza, estética, saúde, conforto, padrões, etc. Isso sem contar com aquela pira das relações de conquista, as paqueras, os namoros, essa coisa toda onde a gente, nessa época, acredita que é super importante porque somos uma imagem antes de tudo e qualquer papo. Usei pulserinha hippie, joguei fora as poucas maquiagens que tinha, deixei meu cabelo ser sarará, entendi que minha bunda poderia ser seca e ainda assim seria atraente para outras pessoas. Mas, ainda que no auge da rebeldia contra os padrões impostos pelo mundo cão, caía na cilada de ser para o outro, nunca para me satisfazer, sempre para ser aceita e admirada pelos olhos alheios.

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Daí veio a maternidade, essa que muda toda nossa estrutura corporal e nossa alma. Gerar uma criança no ventre é, dentro desse contexto, entender que a estética é inversamente proporcional ao conforto. E mais, que a beleza mora em inúmeros outro espaços que não no seu rosto ou nas curvas do seu corpo. Esse entendimento é trazido com a mão leve e generosa da consciência, a natureza é tão perfeita que te faz assistir muito organicamente a construção de um corpo e, meses depois, a desconstrução do mesmo. E nunca se volta para aquele lugar de antes, tudo mudou ainda para melhor porque você pariu também a aceitação do seu ser, das suas formas. Porque o mundo parou de girar em torno do seu umbigo para se ligar naquele umbigo estranho que vai cair em alguns dias, aquela beleza toda que te conectou com seu filho durante longos e intensos nove meses.

Parece que a maternidade traz consigo a expansão da beleza para tudo o que há. Aquela beleza sincera, pura e despretensiosa, aquela que só enxerga quem tem a sensibilidade de olhos atentos. E, nas curvas dos rios turbulentos que é ser mãe, vão ficando as preocupações com a estética que mora lá fora, porque agora o que vibra é a beleza, duas coisas bem diferentes, ao meu ver. O barco então segue mais leve, liberto dos pesos que não nos cabem mais. Acordar descabelada e com olheiras são sinais de uma noite de amamentação mal dormida, o que é a mesma coisa que transbordar amor a noite inteira. E isso faz uma mulher ser linda sim! Os peitos caem depois que o leite se esvai, mas a beleza deles agora mora na memória corporal de um tempo incrível, quando meu corpo foi extremamente saudável e amoroso para prover alimento aos meus filhos e estabelecer conexões inexplicáveis entre nós. Não tem nada que os faça voltar à firmeza dos seus vinte e poucos anos, mas eu não quero saber, porque aos vinte e poucos anos eu tinha um peito bonito mas não tinha nem ideia do que eles representavam no meu corpo.

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Outro dia estava deitada na rede aqui de casa, sentindo o final de tarde chegar e divagando sobre a morte da bezerra. Em algum momento meus olhos pararam nos meus pés sujos de terra. E comecei a perceber a estrutura do meu corpo, minha pele queimada de sol e um pouco flácida pelo tempo, meu cabelo lavado com sabão de côco e solto no vento constante que vem do mar, muitas cicatrizes de cortes pequenos nas pernas causados pela lida com as plantas. E me senti uma mulher natural, da terra, do mar, da natureza que me rege e que eu sou. Há tempos não me via tão bonita, não temos espelho em casa e só me vejo refletida pelo quadradinho minúsculo de um estojinho de blush que alguém deixou aqui em casa. Minha imagem nunca foi tão real e sem expectativas/projeções, eu sou esse corpo que me abriga com a força e a verdade do que ele é em seu desenvolvimento natural e orgânico.

Então fiquei pensando em como vai ser bonito esse envelhecer, assistir à idade chegar sem os apegos e medos de um corpo mutante. A natureza é tão perfeita que consegue nos ofertar tempo suficiente para que possamos entender seus/nossos ciclos e nos preparar para recebê-los com leveza e honra. Quanto mais cedo entendemos a carcaça que nos veste, quanto mais cuidados dela com amor, quanto mais nos desapegamos do que queríamos ser para o outro, mais estamos livres e confortáveis para viver o passar dos anos. Me sinto honrada e imensamente grata pelo corpo que tenho, pela beleza de todas as memórias que ele guarda em cada ruga que aparece ano após ano. Eu sou como as árvores, que crescem fortes, que perdem folhas, que florescem, que torcem galhos, que regeneram cortes nos troncos, que fincam raízes, que envelhecem sob o sol e a lua, que apodrecem e caem com o força do vento ou da chuva que as arranca do chão. E encerram seus ciclos deixando sementes, contribuindo para a continuidade de uma existência eterna e infinita, décadas e décadas adiante.

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Ser bonito é ser livre do que não é bonito de se sentir. Somos seres orgânicos, cíclicos e precisamos respeitar nossa natureza para conseguirmos viver bem com ela. Não há harmonia nas relações que permeiam expectativas ou culpas, sejamos lindos simplesmente por sermos nós mesmos. Sejamos, minha gente!

 

 

 

 

 

16 comentários em “A estética

  1. Texto fantástico!! Uma pena que poucas pessoas conseguem se enxergar assim. Obrigado por compartilhas esse texto conosco… Grande abraço!

  2. Seus textos sempre me emocionam, adoro quando eles chegam… me fazem olhar para dentro, para um mundo que eu sonho um dia viver. beijos querida. qualquer dia te visito pessoalmente.

  3. Adoro seus textos, sempre me fazem voltar com os pés no chão. Obrigada! Da amiga de uma amiga de uma amiga sua que acompanha a jornada desde que vocês foram pro mato…

  4. Compartilho de sua emoção! Tão bom saber que não estamos sós! Num mundo tão cheio de padrões e enquadramentos… libertar-se a este ponto é leveza de alma!

  5. Esse texto publicado no dia do meu aniversário veio como um presente. Obrigada por compartilhar suas experiências. Eu que também escolhi viver no mato, sempre venho aqui quando sinto meus pés saírem do chão para cair nas armadilhas do ego.

  6. Continua a nos dar força! Como mulher, seus textos me enchem de autenticidade e amor por eu mesma. Sinto-me do jeito que Deus me fez, e me sinto grata por isso. Ler suas palavras reforçam a força que há em toda mulher. Como vc mesma diz, SEJAMOS! OBRIGADA!!

  7. Amo seus textos. São profundos, dizem tudo o que sentimos mas não conseguimos nos expressar. São, são…lindos! Sem mais.

  8. Manu, fazia tempo q não entrava aqui… li numa tacada as suas 4 últimas postagens, sem seguir qq ordem, aleatoriamente como às vezes a vida é. É tô aqui, lágrimas escorrendo, emocionada, tocada, feliz por saber q vcs estão bem, impressionada e um pouquinho invejosa da sua coragem de mergulhar. E q mergulho!! Muita admiração, muita emoção e muito amor por tudo q vc partilha. Que venha a retribuição, com fartura, tal e qual o mato, as águas e o céu ao seu redor. Obrigada, mana, muito obrigada. 💛🌸

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