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Estes dias tenho vivido, questionado, amado, refletido, reclamado, honrado  a maternidade de forma muito intensa. Isso porque tenho sentido a grandeza que é ser mãe junto com outras mães, e tudo que é grande demais tem espaço de sobra para extremos. Vivo com outras 16 famílias e todas elas, todas, têm uma mulher como pilar de sustentação. São quase 30 crianças, das quais somos mães mesmo sem as ter parido. E agora, nesse momento tão intenso, estamos aprendendo a ser mãe umas das outras.

Isso porque as crianças estão crescendo e trazendo à tona a verdade que carregam em suas essências: elas não estão aqui para serem educadas, nosso desafio diário não é alimentar, dar banho e ensinar a ler/escrever. É muito mais complexo que isso, elas querem se desenvolver e manifestar toda a imensidão de possibilidades que mora dentro daqueles corpos ainda relativamente pequenos. E, toda vez que uma criança muda de fase e dá um pulo pra frente, é um universo novo que se abre sem a gente ter ideia do que cabe ali dentro.

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Na maioria das vezes isso acontece tão rápido que não nos sobra fôlego pra respirar as mil tentativas de acompanhá-los, mesmo que isso queira dizer apenas observar e apoiar. Quando um filho cresce, ele não te pega pela mão com doçura e diz: “vamos, mamãe, agora eu já estou em outro momento, deixa eu te explicar como vai ser”. Eles simplesmente nos empurram com as duas mãos pra um mar sem fim de sombras e luzes, esse que é a nossa essência, os nossos padrões e condicionamentos, as nossas crenças, o nosso eu interior. Não existe uma fase de desenvolvimento de uma criança que não revire do avesso algum canto do peito dos pais. Os caras vieram nesse mundo para nos ensinar a ser melhor e qualquer pingo de maternidade/paternidade consciente sabe disso.

Tomé e Nina são meus maiores espelhos, estão ali o tempo todo refletindo um tanto de bom e ruim que mora em mim. Sou imensamente honrada por ter tido meu ventre escolhido para abrigar o corpo físico que essas almas precisavam para chegar até esse mundo, até o meu mundo também. Com seis e quatro anos eles me reviram do avesso diariamente como se eu fosse uma camiseta qualquer. É foda, porque preciso correr atrás de quem eu fui, de quem eu sou, de quem eu quero ser, pra poder ser íntegra e manifestar a verdade que eles precisam para ter referência e porto seguro pra navegar. Toda vez que eles dão um passo pra frente, meu mundo sai do lugar.

E, nesse mar nada de rosas, a gente cai no refluxo, perde os remos, fura a canoa, toma uns caldos, mas nunca se afoga porque tem o amor como salva vidas, isso sempre! Esse momento aqui na fazenda tem me trazido muito isso, as crianças estão se desenvolvendo com a liberdade que estamos proporcionando e estamos sim apanhando pra dar conta desse emaranhado de coisas dentro de nós mesmas. Tá tudo explodindo dentro de mim, como pequenas e fortes bombas diárias que se espedaçam em mil questionamentos. E naquela outra mãe também, e na outra, e na outra, e na outra.

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Acontece que os caras são tão foda que eles mesmos criam o “problema” e logo apresentam a solução. Estamos juntas, precisamos e queremos estar juntas. A calma que falta em uma sobra na outra, a ansiedade que domina uma se aquieta na outra, a leveza que mora em uma adormece na outra, o choro de uma cabe no colo de todas. É tudo uma loucura, porque é como se cada criança estivesse vivendo uma fase que reverberasse em uma sombra da mãe. E, nessa onda de dividir a vida, a gente acaba acessando “lugares” das pessoas que não conseguiríamos se não tivesse ali um filho refletindo pra todo canto o que tá gritando nessa relação. Cara, é de suar a camisa e a roupa toda, mas é de uma beleza surreal quando a gente entende, aceita e se doa pra esse compartilhar de choros e dificuldades.

Hoje eu vi uma mãe chorando um choro doído, engasgado, preso no peito talvez há algum tempo. Era um choro de aceitação, como se o coração estivesse dizendo: “olha, você tentou bravamente, mas tá sim na hora de você sacar que não tá dando conta, que precisa enfrentar isso dentro de você para que seu filho não tenha mais que brigar pra te mostrar isso que você tá se negando a enxergar”.  Foi um dos choros mais bonitos que eu já vi na vida, por mais estranho que isso possa soar. Porque eu vi aquela mãe se entregando, jogando a toalha no chão e aceitando que é de carne e osso, que é difícil pra caralho ter consciência, que a gente não dá conta da porra toda mesmo e nem tem que dar. Eu honrei muito essa mãe naquele momento, eu quis que todas as mães se permitissem esse choro, eu reconheci nela a força da entrega que a maternidade exige da gente, eu a admirei ainda mais, eu quis ter a coragem de chorar como ela, ao lado dela.

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A maternidade é um ato de bravura e coragem, ainda mais quando a gente a tira da caixinha dos cuidados básicos e deixa invadir a vida inteira. A partir daí a gente não sabe mais quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha. O que é nosso, o que é dos filhos, o que da gente vai pra eles, o que deles vem pra gente, onde mora a clareza das entregas, até onde vai a permissão das fragilidades, o que é culpa o que é responsabilidade, o que eu transformo em mim para sanar neles, quais feridas eles cutucam em mim para curar neles, para tudo que eu quero descer, é coisa que não acaba mais. Isso porque eles só têm seis e quatro anos de existência nessa minha vida, jesuis.

E, por sorte maior que ganhar na loteria, a gente aprende nessa bagunça toda a acolher e, principalmente, a se deixar acolher. Dependurar na cadeira a fantasia rasgada de mulher maravilha e se permitir à troca com outras mães, voltar a se reconhecer nas diferenças, a se completar na outra, a compartilhar o que rasga no peito, a explodir as dores mais incômodas, a abraçar com o coração e acalmar as aflições que nunca vão deixar de aparecer pelo caminho. Porque toda vez que um filho nasce, nasce uma mãe. Todo passo pra frente ou pra trás que um filho dá é um furacão que entra em erupção na consciência de uma mãe alerta. Toda sombra ou ferida que um filho te aponta é um salto enorme pra mais e mais perto do amor e da verdade que você é. E, no final das contas, é isso que importa, o amor. Esse que a natureza, em toda a sua perfeição, nunca arranca do peito. Seja como for, ele vai na frente de tudo, te guiando como a luz de uma fogueira que nunca se apaga, nem com a mais temida das tempestades.

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11 comentários em “A maternidade

  1. Que texto lindo Manu! Não tenho filhos, mas sempre penso que ser mãe é se jogar em um abismo de coisas desconhecidas. Cada criança é um universo novo.

    Um grande abraço.

  2. Mais uma vez, como em tantas outras, tuas experiências e reflexões tem eco em mim. Semelhanças como buscar um lugar longe do cinza pra viver, ter dois filhos com idades pareadas, viver muito perto de outras mães… Que bom que compartilhar tudo isso te faz bem e faz bem pra quem recebe. Abraço

  3. Eu ainda entro aqui na expectativa de que vc conte sobre a casa. Foram tantos posts antes e depois da obra que acho que a turma que acompanhou e torceu por vocês – como eu – ficou no vácuo. Super curti o processo todo e acredito que muita gente comigo. Vá lá! Conte para a gente!

  4. A Manu que presente esse teu texto ter me aparecido assim, sem busca, no meio de uma tarde chuvisa de quinta, me fazendo parar , lembrar e ser tão grata pela benção e oportunidade que é todo dia ser mãe … a minha já tem 21 e me ensina tanto, sempre me ensinou e me ajudou a me enxergar … acho que desde o utero puro líquido é essa a viagem, o filho navega em nós, e nos ensina a ser mar, é preciso ir e vir pra aprender a chegar… grata por tão lindas palavras força e luz pra vocês!!! SER MULHER É BONITO PRA OVÁRIO❤️🙏👏👏👏👏👏

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