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Finalmente venho trazer notícias da Casinha do Amô, depois de tanto tempo em silêncio, em obras, em aventuras, em descobertas, em (des)construção. Há temos encerramos o processo de receber voluntários, sentimos que era hora de estarmos imersos na nossa morada e em tudo o que ela representa pra gente. Daí acabamos nos desconectando dos mil mundos virtuais também. Vou contar, na prática, como ela está atualmente e depois pulo pro sentimento de como estamos vivendo nela e ela dentro da gente.

Bom, ainda falta muita coisa pra fazer, apesar de já estarmos dentro. O segundo quarto ainda está em processo de reboco, falta a varanda, área de serviço e pequenas outras coisas pra atingir o projeto original que criamos. Mas aprendemos, meio que na marra, que a paciência deve ser nosso guia para não cairmos na frustração. Mais do que isso, que uma casa viva estará pra sempre em construção, assim como nós mesmos. Tirando nosso tempo de viagens fora daqui, o dinheiro é determinante no andamento de tudo. Sim, a porra da falta de grana ainda é um desafio na romântica vida do mato. Mas seguimos rindo de tudo e com aquele peito aberto bem grande que não se fecha ao menor e já conhecido “problema”.

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Sinto que nunca antes cheguei aqui para falar sobre a casa (e peço mil perdões por isso à todas as pessoas que estiveram conosco nesse processo e ficaram sem notícias por tanto tempo) porque o menos previsível de tudo aconteceu e me pegou de calças curtas. Ao mudar para a casinha, esse sonhado porto de estabilidade, a vida virou de cabeça pra baixo e tudo se desestabilizou. Foram muitos momentos de tensão, de desafio, de conflito, de relações fortes mostrando a que vieram nesse mundo. Parece que o universo estava só esperando eu me sentir acolhida aqui pra colocar meu mundo em cima do telhado e me jogar no chão. E, como quando a gente pega um correnteza forte na curva de um rio e vai tomando caldo atrás de caldo até atingir a margem, fui sobrevivendo a cada capote, a cada sufoco, a cada porrada e tome-lhe fôlego pra não afogar. E a casa, nesse rio abaixo, foi sendo só uma casa. E, lá no fundo, eu chorava a decepção de viver tanta confusão aqui nesse espaço, um projeto construído com tanto amor por tanta gente do bem. Meu ego dizia que não era pra ser assim, meu coração sentia que não queria que fosse assim, minha consciência mostrava que precisava ser assim, mesmo que eu não soubesse o motivo (ainda).

E o tempo, que é rei de tudo, foi acalmando as tempestades e trazendo a brisa fresca do mar que me abraçava em todo momento de aceitação pela realidade que eu mesma estava criando. Se eu escolhi construir minha própria casa, eu preciso escolher ser responsável pelos meus próprios sentimentos e seguir em paz com essas escolhas. Hoje, olhando pra tudo o que foi esse tempo, consigo respirar aliviada por sacar que tudo foi do jeitinho que tinha que ser. Que, nessa loucura toda que eu não esperava, eu estava ganhando tanta coisa que nem nunca imaginei. Estabeleci uma conexão surreal com as plantas, que foram minhas terapeutas em todos os inúmeros momentos de tristeza e cegueira. Me entreguei ainda mais à educação das crianças e busquei sanar, principalmente no processo de alfabetização do Tomé, toda a minha ansiedade em relação ao término desse inferno astral tão longo. Estreitei laços fortes com meus amigos/vizinhos que me trouxeram a certeza de que nosso maior porto é a gente mesmo e o outro, nada de parede e telhado.

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No fundo eu tava sempre me perguntando, sem aceitar: por que eu preciso viver tudo isso nesse momento tão esperado de ter a minha própria casa? Por que, minha deusa? Porque no meio de tanta loucura e confusão, no meio de tanta desconstrução, no meio de tanto sofrer e se acabar de chorar, no meio de tanto susto, no meio de tanta negação dessa realidade inesperada, eu dei de cara com o que realmente precisava: o amor incondicional por mim mesma e pela mulher que eu sou, dentro e fora dessa família. Dentro e fora dessa casa. E sobre o que mais a Casinha do Amô poderia me ensinar se não sobre o amor? Ah, tão óbvio! Essa casa foi meu casulo de seda enquanto deixava de ser lagarta, minha membrana placentária enquanto renascia naturalmente. Nada nem ninguém nesse mundo poderia ser pra mim tudo isso se não essa casa, essas paredes de barro firme, essa energia forte da terra fresca. Aqui, nesse útero da natureza, voltei a me reconectar com meu próprio amor, com minha independência emocional, com minha força bruta de flor, com a clareza e aceitação de tudo que é e que há.

Agora, em um momento da minha vida que eu quero explodir de tanta felicidade e alegria por sentir plenamente a sincronicidade doida que é o universo, por acreditar nela, por me deixar ser levada pelo fluxo mágico do dar e receber, eu olho ao redor e vejo as plantas vibrando de tanto verde e beleza. E penso que aquela terapia valeu, que as plantas são seres que a gente nem imagina, que nossa conexão com elas pode ser tão rica a ponto de sanar dores inquestionáveis. Observo Tomé lendo e escrevendo lindamente, desbravando outros universos intelectuais, e penso em como somos ansiosos por sermos aquilo que não estamos prontos para ser ou viver. Tomo café com meus amigos/vizinhos e meu corpo chega a vibrar de gratidão por viver em coletivo e sentir a força do todo em mim.

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Tudo no seu tempo e seu lugar, tudo em perfeito sentido e ordem, tudo como eu não esperava, tudo ainda mil vezes melhor e mais cheio de verdade. Tudo puro amor. Nossa casa é algo muito especial, foi construída por pessoas muito especiais, em um lugar especial, de uma maneira especial, uma história muito especial. Como eu pude crer que viver nela seria algo normal? Toda a memória do que foi, do que é e ainda vai ser está arraigada nessas paredes robustas de barro. Esse barro que isola o calor e o frio, a mesma força que deixa entrar o amor e barra as energias não bem vindas! Ah, quanta gratidão eu sinto no meu coração, meo deos! Quão sagrada pode ser uma casa, quanto mais ela é além de uma estrutura física. Uma casa é afeto, é um lar, é um ninho de mutações pessoais, é uma caixa de pandora, é um infinito de relações incríveis e fortes.

Então é isso, um quarto inacabado, um jardim com diferentes tons de verde, um dinheiro faltando, muitas crianças livres, um banheiro sem pia, uma tarde de café com os amigos e por do sol, uma varanda que não chegou, uma vista incrível pra mata, um tanque que não tem, um lugar pra voltar que sempre estará. Enfim, me sinto parte dessa casa e todos os dias olho pra ela com um monte de paixão. Finalmente cheguei onde queria, eu e ela somos parte uma da outra, crescemos juntas, desde a nossa fundação, e seguimos em  constante transformação. Nossa casa é cheia de gente, de crianças saindo pelo ladrão, de amigos, de gente nova que passa, de parça antigo que volta, de cheganças, de partidas, de muita alegria e leveza, uma casa de amor demais.

Não poderia terminar mais este devaneio sem agradecer imensa e eternamente à todas as pessoas envolvidas nesse mágico e intenso processo de vida da Casinha do Amô. Vocês estão aqui conosco e ajudaram a construir não só a nossa casa, mas uma parte muito bonita e importante do que eu hoje sou. Todo amor que houver nessa vida para vocês!

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8 comentários em “A (atual) Casinha do Amô

  1. Olá Manu, sua linda! Acompanhei a trajetória da construção da casinha do amô desde seu início, há uns anos, aqui quietinha. Comecei a acompanhar quando fiquei emocionada com sua escrita, com sua sensibilidade e por admirar a trajetória um tanto divergente que sua família estava buscando. Vejo quanta pureza, delicadeza e reflexão saiu dessa construção, dessa vida simples e da ausência nas redes sociais. Saiba que acompanhando este processo, também cresci, aprendi e refleti sobre meu papel no mundo.
    Gostaria muito de ter ajudado como voluntária, mas as circunstâncias não permitiram.
    Sei que ainda há muito para aprenderem por aí, com todas as dificuldades, todas as perdas e ganhos. Eu aprenderei daqui, com o que vocês compartilharem e com essa plenitude, esse amor que também busco do contato com a natureza e com os animais (incluindo humanos).
    Gratidão pela troca.
    Todo amor para vocês!

  2. Que demais ler e ver que estão bem.
    Seguimos na torcida aqui direto de Helsinki.
    Vocês nos inpiraram e nos inspirão.
    Bjos

  3. Manu, que bom receber notícia de vocês.
    Tá tudo lindo. Felicidade me define de ver isso acontecendo. Os percalços são batentes de crescimento. Força aí.

  4. Descobri seu blog a pouco tempo e é uma inspiração, para todos que buscam o sentido do que fazemos e dessa nossa vida. ficar fora do mundo virtual faz toda a diferença, mas que bom que voltou, nem que seja um pouquinho pra sentirmos o que sente, e quem sabe assim um passo a mais para se descobrir desse lado da tela. Obrigada pela inspiração.

Solte o verbo!

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