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“Aceita que dói menos”. Quantas vezes ouvi essa expressão como uma piadinha sem graça e ri de nervoso, engolindo um café amargo e frio sem a chance de cuspir aquele mau gosto. Aceitar as coisas, as pessoas, os fatos, os caminhos do universo, as diferenças e tantas outras coisas parece, culturalmente, ser mais difícil do que se imagina. Aceitar está, quase sempre, relacionado ao fato de mandar pra dentro calado, quase que uma imposição, quase um sapo gordo e seco garganta abaixo. E, claro, com consequências indigestas, incômodos persistentes que podem se instalar ali num canto do peito e ir rasgando todo e qualquer caminho que poderia se abrir orgânica e positivamente. Feridas abertas só se cicatrizam quando curadas, do contrário, são ainda machucados que podem sangrar a qualquer momento, queira você ou não.

Aceitar dói menos sim, hoje tenho certeza disso. Mas o caminho não é da boca para fora, senão é só piadinha ou disfarce nervoso. A parada começa, o menos pra mim, quando a gente consegue ter clareza, entendimento das coisas/pessoas/situações. E não é fácil, confesso, porque a gente não tá acostumado a sair do nosso eixo pra rodar no eixo do outro, porque pra ter clareza a gente precisa de imparcialidade e, pra chegar aí nesse lugar, tem que soltar a mãozinha quente do ego. E isso também a gente tem que aceitar sem relutar, saca? Quando a gente cai num refluxo de água numa cachoeira, por exemplo, o melhor a fazer pra não se afogar é ficar quieto sem movimentar o corpo para que se consiga manter o ar que temos nos pulmões ali dentro o máximo de tempo possível sem respirar. É tipo isso, aprender a aceitar é uma questão de sobrevivência nessa vida: quanto mais nos aproximamos dela, mais a leveza se instaura na rotina. Quanto mais relutamos, mais sofremos a incapacidade de viver melhor com nós mesmos e com o outro.

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A aceitação amplia um universo incrível dentro do universo incrível que já somos. Segue bem aquela lógica da arrumação das gavetas internas, a gente abre uma pra poder colocar a manga da blusa pra dentro outra vez e percebe que tem short no lugar de calcinha, meia junto com vestido, roupa suja com roupa limpa. Tira tudo, faxina, rearruma e segue. Não é possível cuidar de uma parte da gente sem contaminar as outras. Não dá pra trazer a aceitação genuinamente peito adentro sem remexer um bocado de vazios e excessos que nos habitam.

Tem outra coisa também que sinto caminhar ali ao lado do aceitar com o coração, principalmente aquilo que aparentemente é ruim ou difícil de entender. É a autorresponsabilidade, ave! Um exemplo das duas coisas em uma só: eu sempre idealizei na minha cabeça um retrato de família, aquela bem tradicional mineira propaganda de margarina. Alimentei essa expectativa que ficou grudada em mim até pouco tempo atrás, como uma crosta dessa manteiga que crescia rígida no meu subconsciente e não me deixava enxergar pontos óbvios: meus pais se separaram quando tinha 06 anos de idade, ali mesmo eu já não fazia parte desse “modelo” que me inspirava. Ou seja, isso quer dizer que nunca aceitei não pertencer àquilo que projetava. Cadê a clareza, minha gente? Depois, ao longo da construção da minha própria família, abri meu relacionamento conjugal e chutei a porta do culturalmente “normal”. Aprendi infinito com isso e não me arrependo nem um minuto das alegrias e tristezas desse processo. A palavra que melhor define essa loucura toda é liberdade. Fui livre para redesenhar tudo, inclusive esse formato de família que não nos cabia mais. Maaaaaaasssss, em algum momento desse caminhar, me perdi e comecei a acreditar que tudo estava ruindo. De novo: cadê a autorresponsabilidade, minha gente? Eu escolhi quebrar os padrões, eu escolhi ser livre, eu escolhi redesenhar tudo, eu fiz tudo que meu coração pedia e, ainda assim, acreditei que tudo estava errado e alguém tinha culpa na porra toda. Hein? Hã? Alôôôu?

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Aí nesse bolo todo a gente tá falando de expectativa, projeção, egoísmo, cegueira, apego. O que na verdade, glória à Deusa nas alturas, se transformou em clareza, entendimento, autorresponsabilidade, aceitação, desapego, leveza e aquela sensação ma-ra-vi-lho-sa de que tá tudo em paz e conspirando para algo ainda maior. Temos a incrível capacidade de fugir de nós mesmos, jogar tudo pro outro, sofrer e nos auto-boicotar com essa porcariada que a prevalência do ego desmedido/ferido causa. Caráleo, somos muito bons nisso, néaaammmmmm? Mas somos muito melhores em transmutar tudo, só não sabemos ainda como fazer isso sem sofrer, talvez esse seja o grande desafio daqueles (me incluo linda, loira e japonesa, nessa!) que buscam viver em paz com tudo que são e têm.

Aceitar integral e responsavelmente o que somos, temos e vivemos é um ato de coragem sim, assim como muitos outros. E ver beleza nisso é ainda mais forte, porque esse clareza vai virando um hábito nas relações. E dizem que, quando a gente repete o mesmo hábito muitas vezes, ele acaba virando um traço da nossa personalidade. A aceitação é libertadora, é aquele cadinho de segundos de respiração presa pra poder sentir a água te cuspindo pra fora do refluxo no qual você tá preso. Bora aceitar o que somos, o que temos, pra onde estamos indo, o que buscamos, o que deu certo, o que não deu tão certo assim, o que faz rir ou chorar, o que dói e o que afaga, o que traz medo ou coragem. Tem tanto caminho aberto nessa vida que dá até vergonha ficar na cegueira, não aceitar as possibilidades de mudança e responsabilizar o outro pelo que é nosso. Tira o chinelo, bota o pé na terra, abre esse olho/consciência/coração, segue seu caminho e cuida dele. É seu, você quem trilha e, se for esperto, vai ser todo dia o mais bonito da sua vida inteira. E essa verdade é bem fácil de aceitar!

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Um comentário em “A aceitação

  1. Oi Manu. Este teu texto me tocou tanto e tão profundamente, querida… No último ano minha palavra é resiliência. Meus objetivos: respirar e chegar ao dia seguinte. Tanta coisa interna pra resolver que nem consegui mais escrever. Muito bom te ler novamente! Beijo com carinho, Dani.

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