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Durante os três meses que estive fora de casa fiz uma pequena enoooooorme imersão dentro de um território até então tranquilo pra mim. Essa falsa sensação de “tá tudo bem” foi rasgada em mil pedaços, fui virada do avesso, minha cabeça deu 92384985834 voltas pelo outro, fiquei completamente fora do eixo e, te juro, chorei um tanto de vezes por reconhecer que não sei compreender e honrar as minorias desse mundo. Aliás, esse rótulo que diminui a potência de tanta gente não me soa mais com leveza e coerência.

Mas, das coisas mais sérias que aprendi nos últimos tempos, foi que precisamos parar de falar pelo outro. Esse talvez seja o mais ledo engano da humanidade, um grito super equivocado que ensurdeceu a voz de tantos, a prepotência que eu não quero carregar nunca mais nessa vida. Então, que fique claro aqui: não venho falar dos negros, dos brancos, dos amarelos e azuis. Não quero discutir sobre gays, trans, não binários, nada nem ninguém. Não vou julgar pobre, rico, direita, esquerda, porra nenhuma. Eu vim aqui hoje falar sobre os meus muitos privilégios enquanto mulher branca, de classe média, bonitinha, estudada e blá blá blá. Esse é o meu maior desafio neste momento depois de ter o corpo inteiro sacolejado por essa vivência em São Paulo: eu preciso descobrir onde moram meus privilégios, como eu os reconheço, quando eles me cegam, porque eles me distanciam do outro, até quando eu vou usá-los como desculpa para sustentar o preconceito que ainda me habita e, com vergonha de existir, insiste em se esconder nas minhas entranhas.

Eu nasci em uma família tradicionalmente estruturada, meus bisavós faziam parte da high society de Minas Gerais. Minha avó é uma mulher de coração enorme e generoso que se casou com um jeca tatu do interior mineiro, um homem incrível que batalhou duramente para se tornar um grande médico e oferecer uma vida digna e bonita aos seus sete filhos e 15 netos. Minha mãe chutou a porta e quebrou um tanto dessa corrente “careta”, aos 21 anos já tinha saído de casa com três filhos nas costas e um marido nada convencional. Foi ela quem, bravamente, foi abrindo as portas de um mundo novo pra gente, nos levando para morar em uma fazenda nos cafundó, uma vida muito simples, sem luxos sociais, onde tivemos a oportunidade de crescer em contato com a natureza e com pessoas humildes, as mais bonitas que já conheci até hoje. Ali eu tive, pela primeira vez com frequência e pureza infantil, uma convivência harmoniosa com gente das mais diferentes raízes, cores, formas e gêneros.

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Minha mãe nunca nos falou muito sobre preconceitos, crescemos vendo nela uma postura genuína de igualdade, o que nos fazia agir igual. Mas sinto que cresci sentada nesta cadeira confortável do privilégio, respeitando o espaço do outro, mas nunca olhando para ele como deveria na minha condição de ser humano responsável pela construção/desconstrução da nossa história social. Era como se eu estivesse vendo sempre o mesmo filme, aquele que me foi mostrado na escola, onde só eu poderia conhecer/julgar/não questionar/aceitar e desligar a televisão pra dormir em paz, como todo dia. Porque eu nunca fui o personagem principal daquela parada, eu nunca tive que me preocupar tanto porque “não era comigo”, eu sempre me mantive distante da intensidade de tudo isso. Sinto que essa distância foi quase como que uma defesa criada por não saber como lidar, uma fuga pela lateral esquerda pra não pensar sobre a existência da culpa, esse sentimento paralisante e covarde. Hoje me incomoda muito, absurdamente, sentir que tudo isso era quase uma postura de indiferença que eu cavei em mim pra seguir ali, intacta, inatingível, alheia à questões tão essenciais à nossa existência, de TODXS nós.

Aí, o universo, com sua majestosa mania de me dar tapas na orelha, me joga em um território onde tudo isso é extremamente latente, onde eu passo a ser “minoria”, onde eu preciso pensar trezentas vezes antes de falar, onde eu tenho que ouvir com mais atenção que nunca, onde meu preconceito rasga seu disfarce e pula na minha cara, onde eu não entendo mais os artigos de uma nova gramática social moderna, onde eu preciso desconstruir as velhas relações de poder, onde eu tenho que entender os corpos como resistência, onde lutar é urgente e viver em paz é quase uma utopia, onde eu percebo que pra sobreviver à tudo isso eu só tenho como saída me entregar ao exercício pleno/diário de ser o outro. Uma sensação muito doida de não liberdade, um constante e cansativo estado de alerta, uma pressão estonteante, talvez uma minúscula pitada do que milhões de pessoas sentem em doses cavalares e diárias. Eu não sei contar quantas vezes eu chorei nesses últimos três meses, quanto de mim se foi e quanto ainda não conseguiu renascer depois de tanto. Mas sei, com a maior certeza do mundo, que preciso começar do começo: assumindo/reconhecendo meus privilégios, entendendo onde estou para poder olhar pro outro com clareza, pra ser mais empatia e menos julgamento, pra ser mais o todo e menos eu na bolha.

Ninguém nunca me olhou torto ao entrar em supermercados, ninguém nunca desconfiou de mim na rua, ninguém nunca me humilhou pela minha cor, ninguém nunca questionou minha opção bissexual, ninguém nunca fez piadinha escrota comigo, ninguém nunca me julgou pelas minhas raízes, ninguém nunca me oprimiu em público, ninguém nunca tomou minhas vozes, ninguém nunca me excluiu de estatísticas, ninguém nunca me roubou possibilidades, ninguém nunca ameaçou minha existência, ninguém nunca tirou minha importância social, ninguém nunca me bateu na rua, ninguém nunca riu do meu cabelo, ninguém nunca quis me matar. Ninguém nunca tanta coisa que nem sei escrever ou pensar porque nunca vivi na pele, porque eu sou esse padrão social vazio que inventaram há tanto tempo atrás e julgaram como maioria soberana privilegiada em detrimento à tantos outros iguais. Como fomos capazes de tanto? Eu me pergunto com uma tristeza do tamanho desse absurdo.

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Mas também foi bonito por demais perceber de perto quanta gente está mudando os rumos desta constante histórica já falida, aceitando o passado e construindo a luta por um futuro mais honesto/igualitário. Conheci movimentos incríveis de apoio, colaboração, muitas mãos estendidas aos outros. Troquei com pessoas maravilhosas que me fizeram entender a força de suas cores, seus corpos, suas ideologias, suas resistências. Gente que se apropria da arte, dos estudos acadêmicos, das ideologias transgressoras, das teorias conspiratórias, da própria profissão, da família, das memórias, do simples fato de existir para poder transformar o que não lhes cabe mais. Pra retomar o que lhes foi roubado e não mais daquele lugar da dor, da vítima, do menor. É uma força tão gigante, tão resiliente, tão poderosa que me assustou também. Porque na minha bolha eu não vivo isso, não tenho acesso à essa realidade, sou alienada à certos movimentos de revolução. Foi o susto mais bonito que já vivi e que entrou em conflito direto com o outro susto de me ver tão inútil nessa luta que é minha também, que é de todos os povos dessa terra.

Agora eu tô aqui, completamente desbaratinada em tanta coisa, agradecendo sem fim por ter um mundo de gente muito além de mim neste front. Falta um bocado pra concluir esse primeiro passo de reconhecimento profundo dos meus privilégios e, confesso, nem sei qual seria o segundo. Mas uma porta se abriu, por onde tanta coisa saiu, tanta coisa entrou e algumas ainda titubeando sem rumo nesse entra e sai. Então sigo firme no exercício de me colocar no lugar do outro, de ser essa coerência que busco entre minhas razões e minhas atitudes aqui dentro/lá fora. Por mim, pelos meus filhos, por todas as pessoas que conheci nesses três últimos meses, por toda gente que vive diariamente a resistência de seus corpos oprimidos. Meu coração é pura gratidão pelos mil aprendizados, pela chegada de inúmeras clarezas, por todo choro necessário e límpido, por todo sacolejo estremecedor, por tanta luta e coragem. Sim, nessa história toda perdemos nós que nunca precisamos de coragem pra viver, por isso não sabemos quão gigantes as pessoas se tornam quando a carregam no peito por uma vida inteira, sem descanso.

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4 comentários em “Os privilégios

  1. Buda, São Francisco de Assis… nunca precisaram de coragem para viver… eram abastados.
    mas quando perceberam seus semelhantes precisaram de muita…
    assim como tantos que, Oxalá, perceberão o outro…
    e nossa unidade…
    grande beijo a você, Manu…
    nossa inspiradora e pequena Buda.

  2. Estive em São Paulo há pouco e também me vi diante do outro: Conheci duas pessoas que convivem com a riqueza desde a infância. São mulheres que frequentaram as rodas dos ricos, fizeram viagens maravilhosas pelo mundo, passaram por longos períodos sem precisar se preocupar em pagar as contas, porque tinham alguém para fazer isso: o marido. Hoje, uma delas é viúva, com dívidas, e a outra separada, solitária. Ambas vociferam ódio e incoerências sem fim. Percebi, simplesmente, o que é o medo de perder os privilégios e onde esse medo pode nos levar. Percebi esses privilégios em mim. Percebi que também me acomodo nos meus privilégios, ainda que não sejam grande coisa. Por outro lado, não consegui, ainda, me identificar totalmente com os menos privilegiados, porque passei meus primeiros 18 anos de vida entre eles – meus pais eram semianalfabetos, viviam só no “jogo de cintura” e tivemos muitas privações, assim como toda a minha família. Esses anos me fizeram rejeitar os menos privilegiados. Não queria ligação com eles, nem muita convivência. Hoje tenho feito um caminho de volta, mas estranhando e tropeçando em cada passo e me sentindo no limbo. Há qualidades que independem dos privilégios, outras que se desenvolvem melhor em boas condições de temperatura e pressão e outras, ainda, que são difíceis de aparecer numa situação de extremo conforto, que estimula a preguiça. Eu vim de um lugar bem pobre e tive gana de sair dali. Precisei desenvolver meu egoísmo para isso. Como agora desenvolver a solidariedade? Vou esperar a miséria bater na porta? E se essa miséria me tornar mais egoista? Um abraço. Valeu pela oportunidade de reflexão.

  3. Emocionante de ler Manu! Fico impressionado como temos dificuldade para enxergar nossos privilégios e como encontramos ótimas justificativas para manter nossos preconceitos bem escondidinhos lá no fundo de nossas almas. Se me permite um relato, estes últimos tempos têm sido bastante arrebatadores e cheios de “tapas na cara” pra mim e minha família também. Por uma obra do acaso conheci o trabalho de um poeta e através dele “descobrimos” um sarau que acontece semanalmente periferia da zona sul de SP. Passei a frequentar e foi amor a primeira vista, um mar imenso de manifestações de arte, literatura e musica feita por pessoas incríveis e de uma forma tão intensa que eu nunca tinha visto antes. São lições de vida a cada minuto. De pessoas que não estão nas estatísticas oficiais mas que estão buscando o seu caminho, apesar de todas as dificuldades que nossa sociedade branca, elitista, heterossexual, cristã (e hipócrita) imprime sobre eles.São pessoas com uma força e uma resiliência de se admirar.

    Quanto a nós, temos tentado ficar atentos às nossas próprias armadilhas e buscando aprender a praticar empatia genuína.
    Beijos e nossa família para a sua!

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