Notícias do front!

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Nunca ficamos um período tão longo sem aparecer por aqui, peço perdão pela falta de notícias. Mas tanta coisa andou acontecendo nestes meses que não encontrei espaço dentro de mim pra compartilhar o que nem eu sabia o que gostaria de ser compartilhado. Pois bem, não vou ficar aqui chorando pitangas por todo o leite derramado, prefiro dar um panorama de como vai a vida na bolha verde atualmente.

Há mais de um ano somos quase monotemáticos, nossa casa e nosso projeto mais importante neste agora, tem preenchido todas as lacunas da rotina. As obras ficaram paradas por um bom tempo, por uma série de motivos. E, nesse tempo de respiro, nos ocupamos com todas as outras coisas que ficaram em segundo plano por causa dela. A educação das crianças, a relação com a grana, os processos internos de cada um, pequenos ajustes na parceria entre eu e Hugo, os freelas, muita coisa. E foi bom, foi mais que necessário descansar um pouco e aprender a controlar a ansiedade e a expectativa de habitar (fisicamente) este novo lar que vem vindo.

Neste momento, com quase três pontinhos de bateria completos, voltamos ao batente para tentar concluir o que falta. Encerrada a fase das paredes de barro e o trabalho voluntário, estamos com duas pessoas trabalhando na construção do telhado da casinha do amô. Esse, que antes seria um teto verde, como pedia nosso sonho, agora é de piaçava. Trocar o sonho sustentável pelo que a realidade financeira pôde proporcionar foi um belo de um exercício de desapego e aceitação. Mas passamos bem por isso também, era o que tínhamos e poderíamos nesse agora e tá tudo certo. A gratidão também é, nesses momentos, uma bóia na qual nos agarramos para continuar flutuando na inconstância das ondas em alto mar. Somos gratos por tudo e por todas as pessoas que estão conosco neste projeto, sempre e muito.

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No final desta semana teremos o telhado pronto, o que nos enche de alívio também porque estamos prontos para receber a temporada de chuvas com as paredes de barro protegidas. Agora nos faltam o reboco interno e externo, o piso, as poucas coisas de hidráulica e elétrica e um pouco do banheiro seco que está pela metade. E, para terminar tudo isso, falta o que? Thchan tchan tchan tchan: grana! Então nossos dias tem sido uma mistura engraçada de sentir, a combinação doida entre acordar e olhar para a casa semi-pronta, saber que falta muito pouca grana, e dormir com a esperança de algum dos 385757438 e-mails que enviamos diariamente para conseguir trampo seja respondido. E, mais uma vez, olhamos para trás e nos enchemos de gratidão por tanta gente que nos ajudou a chegar ate aqui, essa talvez seja a memória mais bonita que a casinha do amô vai carregar pra sempre na força das suas paredes grossas de barro.

Enquanto isso, o universo que nunca cansa de cuidar da gente, trouxe pra perto uma amiga argentina que conhecemos quando morávamos no Ecocentro IPEC. Maru chegou aqui para fazer o que sabe de melhor nesta vida, oferecer amor em forma de jardins. E, num par de semanas, ela conseguiu fazer do nosso terreno uma lindeza de canteiros onde flores se misturam com frutas, com leguminosas, com árvores, com ervas, com feijão, com cactos, com trepadeiras, com abóboras e muito mais. Nos ensinou a cuidar melhor da terra, nos trouxe a certeza de que temos tudo o que precisamos para plantar e colher o que quisermos, sem precisar de mais nada além do que a matéria orgânica que a natureza nos oferece por aqui. E, por fim, conseguimos agora botar nossas mãos e coração nessa parte tão importante do projeto que sempre ficava para depois, porque antes tínhamos outros mil incêndios para apagar. Como na natureza que nos abraça, tudo tem seu tempo, seu ciclo, sua entrega que leva à harmonia.

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Então seguimos com a cabeça a mil, tentando enxugar ao máximo os custos que temos e tomando pra nós mesmos tudo o que podemos fazer sem precisar terceirizar mão de obra especializada. O reboco, por exemplo, sentimos que pode ser uma aventura e um aprendizado massa para nossa família, inclusive para as crianças. Mas, já o piso, por exemplo, é um trabalho mais específico e que requer cuidado e segurança, não dá pra gente meter o nariz por aí. Enfim, sentimos que estamos atravessando um novo labirinto, mais um dentre os vários pelos quais nos perdemos e nos encontramos durante estes meses de obra. E vamos com tudo, principalmente com a certeza de que encontraremos a trilha que nos deixará na porta de casa, finalmente. (Acho que quando este dia chegar, vou ficar um mês sem dormir, deitada na cama e olhando pro teto. Hahahahaha!). E seguimos também com o peito transbordando gratidão por cada pessoa que veio aqui colocar a mão na massa com a gente, por cada um que contribuiu com a vaquinha virtual, com cada mensagem de amor, incentivo e carinho que não paramos de receber até hoje. Nossa família se sente muito abraçada por cada um de vocês e isso é de uma beleza sem fim no nosso peito!

Ah! E tem outra coisa muito massa que estamos fazendo, logo vamos compartilhar por aqui. Estamos reestruturando o blog, tirando essa cara sem graça que ele tem e pensando em coisas legais para agregar aos posts. Provavelmente este será o último texto antes de mudarmos para a nova plataforma, mas eu passo aqui antes para avisar, óquei?

AGORA, OS CLASSIFICADOS:

  • Se você tem uma empresa, um projeto, um negócio, um amigo, uma vontade, qualquer coisa, que precise de produção de conteúdo/manutenção de redes sociais/fotos/vídeos/pesquisas sobre quaisquer temas legais/blogs ou sites que precisem de colunistas/e o que mais você quiser propor, grita a gente aqui no mmelofranco@gmail.com para conversar e trocar, assim damos um passinho para frente no término da casa. Qualquer trampo é bem vindo e já paga uma diária aqui e outra ali da galera especializada que sabe fazer o que não conseguimos para terminar a casa.

  • Se você quer se aventurar a aprender a fazer o reboco de uma bioconstrução (não é um reboco “normal”) com a gente, chega mais. Acreditamos que nós e mais uns três voluntários conseguiríamos terminar essa parte importante antes da temporada de chuvas também. Se animar, liganóis no mmelofranco@gmail.com também!

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O trabalho

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Venho aqui hoje para um post quase de “utilidade pública”, um post que surgiu com a ideia de revisitar outro “lugar” que ando sentindo saudade de ser/viver. A vida aqui tem exigido muito da Manu mãe, da Manu mulher, da Manu dona de casa, da Manu que tá na pira de romper fronteiras de si mesma e encontrar novos horizontes dentro do peito (processo interminááááááável!), da Manu ajudante do mestre de obras da Casinha do Amô e tantas outras mais.

E, nessa loucura que todo mundo vive de ser mil ao mesmo tempo, tenho sentido falta de ser a Manu que produz algo “pensante”, mesmo porque meu corpo franzino já não dá conta de mais tanto corre corre pra lá  pra cá. Esses dias retomei a leitura depois de tempos de separação com essa moça. Mesmo com criança pulando na cabeça, ando lendo e me sentindo muito bem com essa reconciliação. E, como toda boa leitura, o novo velho hábito me trouxe mil inquietações na cabeça, uma vontade doida de escrever sobre tudo, de ler mais, de fazer projetos, de produzir em coletivo, de pesquisar, de ter de volta, dentro da rotina amiga, o tempo de trabalhar com a cabeça e o coração na mesma linha de frente.

Então, corri pra essa gaveta de devaneios na intenção de dar esse recado a quem interessar: quero freelas, quero trabalhar mais com a criatividade, quero ajudar as pessoas a colocarem em prática as ideias massas que têm, quero dar o que tenho e o que gosto de fazer para colaborar com projetos do bem.

Tá, mas o que a senhora sabe fazer então? O que eu não sei e aprendo, mas o que eu gosto mesmo é de escrever, de produzir, de organizar, de fotografar, de criar, de elaborar junto, de divulgar iniciativas legais, de viajar, de conhecer gente nova, de aprender, de contribuir com meu melhor. Já fiz um cadinho de tudo nessa vida, desde produção de festivais/exposições/feiras/eventos, até produção de conteúdo (texto/foto/vídeo) para sites/blogs/redes sociais/revistas, revisão de textos, etc. O que vier e fizer o coração pulsar eu traço!

E tem uma coisa que acho importante nesse mundo “mercado”, algo que descobri desde que optamos por ter uma vida mais simples. O valor do trabalho, o preço, a grana, o dim dim. Antes, quando eu morava na cidade, o valor do meu trabalho era pautado pelo mercado, leis da selva de pedras. Hoje sinto essa relação um pouco diferente, acho que porque minha relação com grana mudou desde então. Se tenho uma vida mais simples, se meus gastos são menores, se vivo num contexto mais tranquilo e com contas pequenas, não tem porque buscar trabalhos que me paguem uma fortuna.  Eu preciso do que eu preciso. Acho mais honesto comigo e com as pessoas que precisam da ajuda que eu posso oferecer. Também sou amante das trocas, acredito muito na força desse fluxo que vem cheio de energias boas, o que eu tenho pra te dar e o que você tem pra me oferecer.

Então é isso, tô querendo me dedicar também a trampos legais e super aberta pra o que vier! Se alguma coisa do que falei aqui for interessante pra você e quiser conversar, ver meu currículo (isso existe ainda, né?), me escreva no mmelofranco@gmail.com e a gente conversa com amor!

Xêro e gratidão! 🙂

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A (última) chance

Gente lheeeeenda, esse é um post muito importante pra nós e pro projeto da Casinha do Amô, ai meu coração de melão!

Me explico: estamos, neste momento, fazendo o telhado verde da casinha, uma lindeza só. Depois dele vem o piso (barro queimado), o reboco natural e o banheiro seco, ainda um cadinho de trabalho pela frente. Isso também quer dizer mais voluntários, mais comida para alimentar bem os que vem dar braços e amor, mais dim dim, bufunfa, grana, dilmas, realidades. Então, colocando tudo no papel, chegamos à conclusão de que o que falta para completar a meta de 100% da nossa Vakinha é suficiente para terminar a casa da forma que começamos, trazendo gente pra viver de perto essa experiência e construindo juntos.

Daí, o seguinte: se cada um que estiver lendo esse tagarelar meu conseguir doar o que poder e sentir, é muita gente ajudando e engordando a vaca. De grão em grão a gente atinge a meta, consegue oferecer uma alimentação justa aos voluntários e a Casinha do Amô fica de pé graças a tanta gente lheeeeeenda que vem aqui botar a mão na massa conosco ou que banca, via doações, a possibilidade de recebermos mais de 170 pessoas nesse processo! É gente e amor demais!

Então a gente pede, por amor, que quem sentir de nos apoiar nesse desafio final, que entre no link abaixo e faça sua contribuição. Quando atingirmos os 100%, fechamos a Vakinha e soltamos a bicha no mato. Muito, muito grata pela ajuda de todo mundo até agora, essa casa tem mais de 300 corações solidários e que acreditam, junto com a gente, na possibilidade de reinventar, de bioconstruir, de cuidar da natureza, de ser a transformação que queremos nesse mundo, de buscar e ser o bem, sempre! Se você também acredita, vem com a gente!

Aqui o link, é super fácil e rápido. E, se preferir, também pode doar direto na nossa conta, é só escrever pra mmelofranco@gmail.com que a gente passa os dados.

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo

Um xêro da Bahia e muito amô! 🙂

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O limite

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Andei sumida daqui (e de tantos outros “lugares”) porque estava presa no meu limite. Ali eu entrei, fiquei, me demorei e agora abri a porta para sair, sã e salva. Reconhecer que chegamos ao limite, seja ele qual for, é algo que dá medo porque sempre o associamos a um basta, que puxa uma mudança ousada, que traz o medo outra vez. Mas senti que era necessário, foi (e é) como escolher morrer para renascer na manhã seguinte, a gente precisa aprender a morrer mais.

Sinto que passei um bom tempo cultivando esse limite pra tanta coisa, como uma plantinha pra qual eu olhava, via crescer e, quando ela começava a ganhar força, eu podava. Mas as podas dão força às plantas, e ela crescia mais ainda, me deixando miúda e fraca, como essa planta era quando semente. Então foi preciso ela ganhar proporções enormes, foi preciso ela ser uma trepadeira com pressa de tomar todo meu corpo, foi preciso eu ter os braços cansados de podar pra perceber que minha única saída era me entregar a ela. Tem coisa que não adianta a gente arrancar do peito porque tem raízes fortes demais, elas saem da superfície mas continuam sendo vida que prolifera dentro da terra.

O limite pede entrega. Mas a gente reluta um tanto até entender e aceitar isso, a gente prefere não chegar nesse “final” e vai fazendo carinho nos sapos engolidos que vão se entulhando no brejo do peito. Até que então, num belo dia de chuva ou sol, a gente se rende porque chega no limite da luta contra a aceitação do limite. E, por fim, nos entregamos a tudo aquilo que está em colapso dentro da cabeça, do corpo e da alma. E, por fim, chegamos um cadinho mais próximos de nós mesmos, porque finalmente entendemos que aceitar o que não se dá conta de ser e fazer é também honrar. E honrar os pedaços da gente é como dar a eles a roupa mais bonita que se tem no armário, mesmo que eles sejam feios de doer, mas são nossos.

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Então eu joguei tudo no chão, tudinho. Joguei meu cansaço de obra, de maternidade, de relações, as dificuldades, as dúvidas, a falta de espaços, os apegos, as lutas internas, as externas, as insatisfações, os excessos de falta, as faltas de excesso, as cobranças, os medos, as inseguranças, as incompreensões, as reclamações, as fraquezas, as responsabilidades, as expectativas, as frustrações, as dores, as mágoas, as angústias, as forças, tudo. E meu corpo, sabido que é, não quis ficar pra trás e logo entrou em colapso também. Chegaram então, num piscar de olhos ainda meio perdidos, um nariz bloqueado, um peito cheio, uma cabeça pulsando dor, uma garganta arranhada, uma febre ardente. E, pela primeira vez em não sei quanto tempo, eu me permiti ficar ali, deitada, rendida por um dia todo. Os limites pedem presença, a gente tem que estar por inteiro ali, ancorando o agora dessa entrega urgente.

Podia criança chorar, podia a vaca voar, podia o céu desabar que nada me tirava daquele lugar, finalmente eu estava no meu limite. E tanta coisa passava pela minha cabeça, ao mesmo tempo que eu só sentia meu corpo doente. E, lá no fundo, eu era uma desconexão horrível, uma falta de lugar, uma ausência de rumo, uma apatia rígida, um nada e um tudo medindo forças num cabo de guerra. Se chegar ao limite fosse uma coisa linda, ninguém relutava tanto, eu já deveria saber disso.

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O limite é um grito que arde na garganta, um pedido de ajuda da gente pra gente mesmo. E negar um grito desses é perigoso demais. A sorte é que lá no fundo sempre vibra o bom e forte amor, esse que é a cura de tudo. Esse que vem de mãos dadas com a coragem, esse que bate no peito com a sutileza dos dias frios e ensolarados do inverno baiano. E nele tudo se transforma, não tem belezura maior do que ver tudo que era cinza virar cor de amor.

Então lá vou eu seguindo, um cadinho por dia, nesse trilhar de mudanças intensas. Nesse caminho doido e cheio de curvas que é se enxergar, se permitir, se honrar, se entregar, agradecer e confiar. Vou chegando, aos poucos, mais perto de cada mudança necessária para me afastar cada vez mais da próxima entrega ao limite. Porque eles nunca deixam de existir, sem eles não morremos e não renascemos melhores. Sinto que é como um arrumar de gavetas do peito, desde as fechadas e empoeiradas pelo tempo rei, começando a organização lá de trás, onde o ego normalmente esconde as feridas ainda abertas. Depois dessa parte concluída, a gente vem de mansinho observando o presente, observar é tão fundamental quando agir, eu sinto. E daí vai galgando as mudanças, vai abrindo as cortinas, vai recebendo a clareza, vai ouvindo o canto do coração, vai se enfeitando de coragem, vai reestabelecendo a conexão com o universo de dentro e de fora, com o outro, vai se afastando devagarinho daquele espaço confuso que costuma ser o limite.

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Acho que é isso, ao menos é o que eu consigo entender nesse agora. Na real, o limite é um presente embalado numa caixa velha de papelão. A primeira reação é querer jogar fora, porque aquilo parece não ter valor algum. Mas, apesar de todo perrengue que ele carrega em si, traz a beleza da transformação genuína, a gente só muda com verdade quando já não aguenta mais alguma coisa. E não aguentar é vida, meu povo! O limite pulsa essa vida, ele grita o tempo inteiro que precisamos estar em alerta, acordados, vivendo, aprendendo, sendo em mutação constante. Eu não quero viver no limite, mas sinto que preciso passar por isso de tempos em tempos. Como na natureza, onde alguns bichos trocam de carcaça ou de pele quando aquele velho já não lhes cabe mais. Hoje, nesse presente, eu me reconheço em um novo corpo fresco, honro o que deixei e, com a alma carregada de gratidão, fecho a porta desse “lugar” de ensinamentos por onde passei. Deixei o limite e vim aqui fora respirar o ar puro das transformações que escolhi colecionar.

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(E, mudando de assunto, nossa vaquinha para alimentar os voluntários da Casinha do Amô ainda tá rolando e precisando engordar! Se sentir de colaborar com o projeto, a gente agradece um monte: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo)

Vivência de férias na Casinha do Amô, vem!

É com muita alegria e amô no coração que a gente te convida para uma vivência linda nas férias de julho!
Vamos abrir as portas da Casinha para receber todo mundo que quer aproveitar este mês para conhecer pessoas novas, uma praia linda na Bahia, reciclar seus conhecimentos, colocar a mão na massa e os pés no barro, conhecer de perto o projeto da nossa casa sustentável, aprender um monte sobre Bioconstrução+Permacultura+Resíduos e voltar pra casa ainda mais cheio de ferramentas para construir um mundo mais bonito! Que tal?

Se sentiu o chamado aí e quiser saber mais sobre essa belezura, escreva pra gente no mmelofranco@gmail.com

Vem, meu povo, vai ser bonito que só! 🙂

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A Casinha do Amô – A nossa (sua) missão

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A gente escolheu viver uma vida mais simples longe do sistema, fora da caixinha, distante das grandes cidades porque, além de outras tantas razões, não queríamos mais ser condizente com certas posturas e valores vigentes nesses “lugares”. Mas essa escolha não representa uma fuga e, durante muito tempo, eu mesma acreditei que era. Sentia até um cadinho de culpa no fundo da consciência por pular fora do barco e seguir rumo a um esconderijo verde protegido das mazelas do mundo. Mas, com o tempo esse sentimento foi se diluindo, Hugo me ajudou muito a entender tudo isso de outra forma, mais leve e sensata. A gente não estava fugindo de nada, estávamos apenas indo ao encontro da nossa missão nessa Terra.

A cortina de neblina se esvaiu e conseguimos enxergar que a maneira mais bonita de querer mudar aquilo que está ruim, ao nosso ver, é pela vontade e determinação em transformar tudo, começando por nós mesmos. Nossa missão, e acreditamos que muita gente nessa vida bandida, é de se conectar com um mundo novo, enquanto o velho nos mostra que já não é mais o caminho que nos satisfaz. A gente pegou a onda da desconstrução, quebrando padrões rígidos e impostos, deixando pra trás arestas firmes, rompendo fronteiras do ego, descartando hábitos antigos que não nos cabem mais. E, junto dela, veio um mar inteiro de novas construções. Construir uma nova forma de se relacionar com a natureza/pessoas/grana, de viver o amor, de buscar soluções, de acreditar no universo, de entregar e deixar fluir, de sentir o tempo, de evoluir com nossos filhos, de aceitar e curar, de aprender todo dia com o peito escancarado, de ser e honrar a verdade de tudo que pulsa em nosso corpo/coração.

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Construir a Casinha do Amô, que antes era um sonho distante e adormecido, é a prova mais latente de que caminhos abertos existem para quem se propõe a buscar sempre o bem, o seu e o do outro. A gente recebe de volta do universo tudo aquilo que emana no peito, um caminho bonito e de duas vias, várias vias, sem fim. E por isso também, com a consciência da nossa missão na cabeça, decidimos construí-la de forma colaborativa. É como se, uma vez que você sabe a que veio, a vida fosse te dando mais e mais chances, mais e mais desafios, que te levassem sempre ao encontro da certeza de que tá tudo certo, o caminho é esse mesmo!

E nesse caminho tem muita coisa, muita gente, muita energia, muito perrengue, muita superação, muito tapa na orelha, muita risada e chororô. A beleza das coisas também mora na dificuldade, é só segurar firme nas mãos da confiança e do tempo rei que dá pra sentir ela brilhando aos olhos. Tá lindo bioconstruir esta casa seguindo colado no respeito à natureza, vendo ela crescer de forma a causar impacto zero nessa bolha verde que vivemos. Tá lindo abrir as portas da nossa vida para receber gente que nunca vimos numa trocar valiosa de experiências. Tá lindo sentir que a gente se supera a cada terremoto que rola na nossa intimidade enquanto família, que as crianças estão aprendendo e se divertindo com todo esse processo. Tá lindo perceber que este projeto não é mais nosso, ele pertence a todas as pessoas que estão fazendo ele acontecer, seja aqui subindo parede, seja doando dim dim para alimentar os voluntários, seja compartilhando uma foto nas redes sociais, seja acreditando que uma outra forma de criar é possível.

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Tudo isso é muito importante pra nossa família, porque faz a gente voltar lá no começo e sentir que nosso propósito ao pular daquele barco tá sendo atingido. A casa, a moradia vai ser nossa sim, mas todas as vivências que estão enraizadas nela durante todo o processo de construção estão sendo compartilhadas ao máximo, espalhadas por todo canto para quem quiser dali tirar o proveito que melhor lhe convier. Bioconstruir esta casa tem sido uma aventura de mil capítulos, cada um mais peculiar que o outro, com centenas de personagens e cheios de frutos lindos, esses que vão florescer em campos férteis de mudança. Ali, aqui, acolá, na cidade, no mato, dentro e fora de cada pessoa que também não se contenta com o que não se sustenta. Toda doença e toda cura está dentro da gente, pode saber.

Mês passado estive por 10 dias na “cidade grande”, tempo suficiente para perceber que na imensidão da babilônia também tem muita coisa rolando. Eu não caibo mais ali, mas honro todo mundo que tá lá na consciência, todo mundo que tá no front batalhando por mudanças dentro do caos urbano, que não se cala e questiona, que tá sendo fiel à sua missão de transformar, seja onde e como for. Ainda tem muita coisa a ser feita, inclusive dentro da gente, dentro de mim mesma. Mas tem sido massa ver e sentir o movimento, as inquietações, as expansões, os gritos, as conexões. A medida que a gente desconstrói e se movimenta, damos um passo a mais e nos afastamos do sentimento de transformação como utopia. E, assim, chegamos mais perto do que entendemos como um mundo melhor e mais pleno. Um cadinho por dia, um dia de cada vez, cada dia mais, toda vez que acreditar.

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A nossa missão (e, quem sabe, a sua também) é estar alerta, acordado, consciente, crente, vibrando em toda célula do corpo as mudanças que queremos ver/ser nessa vida larga. De dentro pra fora, do coração pro universo, da nossa verdade pra verdade do outro, o que no final das contas é tudo uma belezura só. Por nós mesmos, por você, por Tomé e Nina, os pequenos guerreiros que mudam tudo a todo minuto, com a sabedoria e a leveza que um dia ainda vamos aprender.

(As fotos desse post são pequenos registros das cinco voltas ao sol do Tomé. Uma celebração que existiu durante toda a semana anterior ao seu aniversário, com seus amigos criando os enfeites e brincadeiras da festinha. Sem super herói, reciclando o lixo, reinventando juntos a grandeza desse celebrar com muito amor!)

Se o coração tá vibrando aí pra estar junto nesse barco mas ainda não pode estar aqui conosco, corra lá na nossa vaquinha virtual e dê um moral pra alimentar a turma de voluntários que veio trocar, espalhar, reinventar, desconstruir, bioconstruir, pisar barro e subir parede com tanto amô! É só clicar aqui e encher nosso coração de gratidão 🙂 !

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A casinha do amô – O (s) perrengue (s)

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Como em todo caminho que nos propomos a percorrer nessa vida, uma hora a gente faz uma curva e dá de cara com o bicho. Sim, aquele mesmo que, se a gente correr ele pega, se a gente ficar ele come, se a gente gritar ele grita mais, se a gente ignorar ele cresce e se e se e se e se … sem fim. Fizemos e estamos fazendo mil curvas a 200km por hora, socorro! Mas temos cintos apertados, uma sacola de paciência no banco de trás e muito amor no motor dessa engrenagem toda.

Construir uma casa de barro com tudo o que sonhamos pra ela não é fácil e ninguém nos disse que seria, um desafio que tem uma beleza genuína escondida entre os tapas e beijos que o universo nos dá. Muita coisa se transforma ou já vem como um perrengue pronto, um nó de marinheiro ou uma agulha no palheiro que a gente tem que aprender a lidar. E tudo ao mesmo tempo, hoje, agora, pra ontem. Tem momentos em que a natureza brinca com a gente e manda chuva demais, dificultando o trabalho nas paredes de barro. Depois manda um sol pra cada habitante desse lugar e derrete a galera que tá no front. Deu um pau na bomba e acabou a água do camping, ao mesmo tempo que chegou uma turma de voluntários novos, nesse mesmo instante as criOnças estão em crise de carência afetiva e só querem colo, justo quando acabou o gás da cozinha e tem que buscar outro na cidade para continuar o almoço que não pode parar. Somos duas pessoas, eu e Hugo, para sermos cinco soluções imediatas, meu sonho da multiplicação de braços nunca foi tão grande!

E tem as pessoas, essas (nós) são as “missões” mais difíceis de todas! Éramos, antes de tudo isso começar, uma família de quatro pessoas numa casinha simples, com uma rotina tranquila, imersos em nós mesmos e na comunidade onde vivemos, donos dos nossos tempos e espaços. De repente, temos em nossa casa cerca de 15 a 20 pessoas ao mesmo tempo, cada uma carregando uma energia/história/expectativa/curiosidade/necessidade diferentes, ocupando todas as quinas dos espaços físicos e emocionais de cada um. Uma das consequências dessa escolha de construir de forma colaborativa e uma das viagens mais intensas para dentro da nossa essência. O outro é nosso espelho, reflexo de milhões de coisas que habitam o brejo do peito, muitas delas desconhecidas até trombarmos de frente, na personalidade e atitude do outro.

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Nessas trocas novas, relações que vão se estabelecendo com a repetição dos rituais diários, cada membro da família aprende, assimila, aceita, entende e reage a sua maneira. A única coisa em comum é o tempo em que tudo isso acontece, o agora mesmo! Quando a gente consegue desbravar um cadinho do que acabamos de descobrir, aqueles pequenos espelhos vão embora e chegam outros, dando início a um novo ciclo de descobertas e adaptações. Não há tempo suficiente para terminar um processo e começar outro, como se o universo estivesse dizendo: vocês escolheram, mesmo sem saber, viver conflitos internos e externos no tempo do outro. Sendo assim, se virem, molecada!

Eu, que quero dar conta de tudo e pular de cabeça em qualquer poça de lama ou abismo, tomo um tapa na orelha atrás do outro. Me perco, me acho, sou intensa, choro igual criança, fico firme, me escondo na mata, esqueço de comer, como demais, faço caminhadas na praia, perco a paciência, fico calada, volto pra dentro, tenho vontade de gritar, grito, faço rezos em silêncio, respiro fundo 1 2 3, peço desculpas quando há culpa, vou me distrair com as crianças, rio de mim mesma, aceito e honro todo esse maremoto que me balança forte toda vez que uma pessoa de fora me traz coisas de dentro que eu preciso enxergar. E me canso dessa sequência constante. Sinto que tenho morrido cada vez mais, a gente precisa aprender a morrer com leveza, porque renascer a cada manhã é imensamente gratificante.

Hugo é um guerreiro e os guerreiros também choram, mesmo que em silêncio. Somos âncoras um do outro e das crianças, precisamos nos fortalecer a cada tropeção que damos. Não há tempo para fraquejar, mas há muito permitir-se caso esse sentimento venha a tona. Somos dois, somos quatro, temos oito mãos para segurar quem quer que nessa roda precise. Aprendo a cada instante com ele, principalmente sobre como ser prática, como saber dosar o que tem peso na razão e o que cabe no coração, como se livrar do apego sem ficar longe do amor. Hugo é o mestre de obras dessa porra toda, tem pressões e responsabilidades pesadas, tem força e fragilidade que se equilibram, tem dias cinzas e de sol, tem mil palavras e o silêncio no olhar, tem amor e determinação de sobra mesmo depois que o fogo queimou tudo.

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As crianças aprendem um tanto com a diferença, muita gente traz muita bagagem cultura, muita diversidade estética, muito sotaque, muito conhecimento, muito amor e todas as suas formas de manifestação. E também são esponjas que “sofrem “ com o excesso de energia que circula na casa, que está em trânsito no corpo dos pais. Tem altos e baixos, mas sempre nos deixam com a sensação de que estão tirando tudo de letra, muito mais que a gente.

E, rodando feito um monte de perus tontos nesse bololô emocional, estamos aqui fora, lidando com as questões práticas que nos exigem astúcia e jogo de cintura, como num jogo mesmo. Daí vem a grana, esse pedaço de papel que a gente não leva pra céu. Mas que se faz presente aqui, necessário na engrenagem e um grande desafio pra gente, porque é ele que alimenta toda essa gente lheeeenda que vem voluntariar na obra. Rebolamos de todos os lados para que ele não seja dominante nessa relação, que ele chegue até a gente de forma consciente, que saibamos aproveitá-lo da melhor forma possível, que venha para prover o necessário sem extravagâncias. Daí a casa tá cheia de gente, ao mesmo tempo não tem um legume/verdura que preste na vila mais próxima, o que tem tá uma fortuna, e aí a grana da vaquinha virtual tá acabando, precisamos fazer campanha e arrecadar mais, mas aí choveu muito e a internet na roça parou, no mesmo momento resolvemos trazer o pessoal da comunidade vizinha pra aprender e pagar a eles uma ajuda de custo para que possam estar aqui aprendendo uma nova possibilidade de trabalho sem perder o tempo que vira dinheiro pra suas famílias. E o bicho pega, a gente olha pra frente e vê mais meses de obra, de gente, de alimentação. E, nesse hora, também olhamos pra trás com muito orgulho, e vemos o tanto de gente que já colaborou, que alimentou mais de 120 pessoas até agora com dim dim e amor.

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Transmutamos a angústia do perrengue em esperança e determinação, lá vamos nos outra vez, buscar fazer tudo como escolhemos desde o começo. Com o peito cheio de gratidão pelo apoio de tanta gente massa, respiramos fundo e seguimos fortes! Nenhum mar de rosas foi esperado, a gente gosta mesmo é de se descobrir a todo momento, meio camicases surfando em cima dos vagões do trem que está nos levando ao lugar mais bonito de todos, nossa morada de amor. Ali, na beira da represa, com vista para muitas árvores e calmaria, em alicerce forte de pedra, com paredes grossas de barro, está acontecendo nosso lar. Esse que vai ser nosso “lugar pra voltar”, uma bioconstrução linda que abrigará nossa casa, essa que somos nós quatro, onde quer que estejamos, se estivermos juntos, estaremos sempre em casa! 🙂

Pra quem sentir de colaborar com a vaquinha virtual, segue o link. Toda a grana arrecadada está sendo usada para alimentar os voluntários que estão vindo e também os meninos da comunidade local que estão com a gente aprendendo uma nova possibilidade de construir, uma vez que são pedreiros tradicionais e aprendizes. Agradecemos de coração toda e qualquer ajuda, é muito importante pra gente poder receber tanta gente do bem para trocar e espalhar por esse mundo afora as mudanças que queremos ver e ser nele! Inspire-se e entre nesse barquinho rumo a uma era de coletividade e amor, beibe!

Gratidão, sempre!

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo

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A casinha do amô – O barro

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Construir uma casa de barro é construir tantas outras coisas que nunca vão caber dentro dela, descoberta que vem se mostrando cada dia mais bonita nessa rotina de dias desiguais. Pisar o barro é um movimento tão intenso que até a alma da gente dança, uma experiência incrível que me enche os olhos e o coração.

Outro dia consegui entender o que estar de pés descalços em contato com a terra significa em toda a sua amplitude e senti de compartilhar isso aqui. Foi um dia ímpar na minha vida, uma experiência tão intensa que demorei dias pra absorver e acredito que uma vida inteira pra esquecer. Acordei com um incômodo no peito, um daqueles sentimentos que a gente não sabe de onde vem e nem pra onde vai, só sente seu peso crescendo e escondendo a vontade de procurar suas raízes. Então senti meu coração pedindo pra amassar o barro, corri pra obra com a galera e começamos o ritual de todo dia. Mas aquele dia foi diferente, eu estava ali para me esvaziar de alguma coisa e acreditei que a terra, generosa que só, seria um pote cheio de amor pra me acolher e me limpar de tudo. Por horas eu pisei forte o barro, suei, em silêncio não pensei, segui apenas o movimento do meu corpo, a minha respiração, meu cansaço, minha força, minha fragilidade. No final de tudo veio uma chuva forte e nela me limpei do barro, do suor, do cansaço, de tudo mais que tinha sobrado em mim.

E voltei pra casa ainda sem conseguir pensar muito, um pouco assustada com esse vazio na cabeça, no peito, no corpo. Uma conexão muito forte com esse nada que estava dentro de mim, nunca tinha me sentido tão sem matéria, fechava os olhos e enxergava somente minhas bordas, com apenas um vácuo dentro delas. Deitei na beira da represa e por ali horas fiquei me integrando ao pouco que tinha ficado em mim, interagindo com esse silêncio, me ocupando de sentir essa experiência incrível, agradecendo a terra por tamanha limpeza, honrando toda a natureza de dentro e de fora da gente. O barro me esvaziou, e nesse dia eu consegui entender que ele é muito maior do que as paredes que dele vão surgir e da casa que ele vai construir.

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O barro é cura. Ninguém que entra ali consegue sair exatamente igual, não mesmo. O contato direto e intenso dos pés, da pele, da energia que circula em nosso corpo com a terra é muito forte e, se você sabe aproveitar esse momento, consegue deixar ali uma centena de coisas que não quer mais. E eu fico aqui pensando na lindeza que e tudo isso, ter uma casa que me cura, que cuida de mim antes mesmo de ser um abrigo pra minha família, que cuida de outras pessoas que estão ali cuidando de nos ajudar. A nossa casa está sendo construída com essa consciência da natureza como parte de nós, da mãe terra como um colo forte e incansável para as aflições que vivemos.

O barro é alegria. Nele tem pandeiro, tem caxixi, tem batucada, tem abê, tem as vozes de quem quer compartilhar um canto seja ele qual for. E dali vem surgindo uma festa bonita, onde as pessoas se olham, riem, cantam junto, dançam no barro, outro dia teve até gente jogando capoeira. O barro é uma festa ancestral e nesse pisa pisa a gente honra os antigos que faziam isso com tanta perfeição, a gente agradece com cantigas de roda e muito samba pelo conhecimento herdado. E nos divertimos, e somos felizes nesse agora no qual estamos entregues.

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O barro é entrega. Quem sabe aproveitar esse momento consegue deixar ali o melhor e o pior de si, se renovando a cada minuto. O corpo solto e o movimento contínuo das pernas dão ritmo a esse momento de se esvaziar. E como se a gente se desligasse de todo o resto do mundo, o que normalmente é bem raro. Pisar barro exige, mais do que qualquer coisa, estar ancorado na presença daquele momento de doação plena para o que se esta fazendo. Entregar-se para a escolha de estar ali e ser feliz com ela, a entrega e sempre um rio lindo que corre pro mar.

O barro é união. As pessoas vêm por um chamado, seja ele qual for, e se encontram. Se reconhecem. Se identificam. Se juntam. Muitos pés juntos pisam mais barro, muitas vozes juntas cantam mais alegre, muitos corpos juntos emanam mais energia e amor. A historia de que a união faz a forca nunca foi tão verdadeira antes. E faz muito mais, faz um sentimento bom brotar na gente quando olhamos mais de trinta pessoas juntas pisando o barro para construir a casa de quatro. Faz a gente ter a certeza de que a consciência da transformação tá se espalhando e o barquinho rumo a uma nova era de amor e verdade tá cada dia mais cheio. Seguimos remando com muita vontade, cada dia mais.

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O barro é gratidão. É nele que a gente faz a força da conexão com a natureza mais pura, a nossa de dentro e essa que a gente vê do lado de fora, que na verdade é uma coisa só. Pisar o barro e quase um rezo, um ritual de agradecer pela beleza da vida, pela natureza que tudo prove, pela abundância do que colhemos, pelos ensinamentos infindáveis, pela imensidão de ser.

O barro é mais um monte de coisas que a gente poderia demorar horas pra listar, que a gente ainda vai descobrir, dia por dia, pisada por pisada. E, quando a casa estiver pronta, talvez a gente consiga compreender a grandeza disso tudo que estamos vivendo, que estamos espalhando, que estamos aprendendo. Agradeço, com todo meu amor e verdade ao Hugo, que vem guiando essa vivência de forma tão bonita e visceral. Agradeço por ele ter escolhido o barro como essência da nossa casa, onde a gente ainda vai ser mais feliz ainda, onde nossa família vai crescer com a fora da terra. Sou grata a cada pessoa que veio aqui compartilhar esse sonho, colocar nele um cadinho do que quer e pode doar. Agradeço infinitamente a mãe terra, ao barro que tem transformado nossos dias em curas lindas e únicas, estamos cada final de dia mais vazios pra nos preencher a cada nova manhã!

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Ah! E se você tá afim de remar nesse barco cheio de amor, pula pra cá, é só escrever no mmelofranco@gmail.com

E também ainda estamos na labuta pra poder alimentar os voluntários que estão aqui e os que vêm vindo. Se sentir de ajudar, colabore com nossa vaquinha virtual, a gente agradece muuuuuuuuito e ficamos felizes em saber que você também está no barquinho da transformação, mesmo que de longe!

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A Casinha do Amô – Diário do Emílio

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Hoje o Emílio, um irmão lindo que a vida nos deu de presente e que é nosso vizinho, é quem vai dar notícias daqui. Gratidão por tudo, hermano, é bonito por demais compartilhar essa vida contigo e com a sua família que a gente tanto ama!

Ah! Estamos na segunda fase da casinha, amassando muito barro com amô e alegria. Se você ainda não veio pra cá, agora é a hora! Uma festa linda tá rolando por aqui, veeeeem! Escreva pra gente no mmelofranco@gmail.com e pula pra cá!

E, se não pode estar aqui na presença mas quer contribuir de alguma forma com o projeto, corra na nossa vaquinha virtual e nos ajude a alimentar os voluntários que estão passando por aqui e botando a mão na massa! Só clicar no link abaixo, toda e qualquer ajuda é muito bem vinda!

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“Talvez a frase mais usada nesses últimos tempos seja “Um outro mundo é possível”. Esse outro mundo vive no nosso inconsciente, e mesmo no nosso consciente, como um lugar lindo, belo e verdadeiro. Um mundo dos sonhos, com água boa para beber, comida boa para comer e amigos verdadeiros para compartilhar a vida. Falando assim é inevitável pensar: que simplicidade!

Mas essa simplicidade se esvaiu de nossas mãos e transformamos nosso sonho num grande pesadelo. Mas todo pesadelo acaba no momento que acordamos, não é mesmo?

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Pois em algum momento a vida nos colocou diante de um grande sonho. Visionários que somos, nos jogamos de peito aberto. O sonho era viver em comunidade, compartilhar a vida, os sentimentos, e também – porque não? – os projetos e os bens materiais, pois juntos, em rede, transformamos aquilo que parece tão difícil em algo bem mais simples. Mas mesmo dentro de um sonho nos deparamos com imensos desafios. Nesse caso, são padrões de comportamento que arruínam grandes projetos, ideias incríveis que se perdem no jogo do ego, do poder, do egoísmo que impera em todos nós, humanos do século XXI.

Nesse caminhar, pintou o Hugo, a Manu, o Tomé e a Nina. Identidade de alma é algo que não precisa de tempo para acontecer. Acontece assim, em um olhar, em um abraço. Chegaram na fazenda trazendo com eles exatamente isso que a gente busca e vem construindo entre altos e baixos: uma vida simples, permeada de verdade e integridade consigo mesmo, pois se existe algum lugar onde o egoísmo não é bem vindo, é aqui, nesse lugar onde muito mais vale ouvir o seu coração do que mil palavras alheias.

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Já havíamos tentado muitas formas de criar essa harmonia comunitária que transcende apenas a celebração, que é importantíssima. Mas trabalhar junto, gerar renda junto, criar as crianças juntas, todos por todos, isso é muito novo para nós, “homens brancos”. Mais erramos do que acertamos, e muitas vezes pensamos em desistir. Persistimos.

Entre outros projetos que estamos criando com o Coletivo Três da Mata, veio a construção da Casinha do Amô. Um projeto ousadíssimo. Aqui da torre do meu julgamento, olhando com os olhos presos as vivências do passado, me questionei muitas vezes onde isso iria chegar. E aqui da torre do meu coração comunitário, sedento por novidades lindas de um futuro maravilhoso, vibrei com cada passo que transformou esse projeto em realidade.

Nossa casa fica exatamente no meio do caminho entre a casa onde Hugo e Manu moram hoje com as crianças, e que está servindo de base para toda essa gente linda que tem nos visitado e ajudado, e a casa em construção. Atentamente observamos o movimento desse povo que chega, da o melhor de si e vai embora, deixando a gente cheio de amor e saudade, toda semana. O que poderia ser um incomodo, transformou-se numa extensão de nós mesmos. Sempre tem alguém passando e perguntando se precisamos de ajuda, passando para nos dar um abraço, para dar um chamego nas crianças. Viramos uma grande família, essa é a verdade.

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A casinha está saindo do alicerce e indo pras paredes. Ainda tem muito trabalho pela frente. Mas já sei que ela é um sucesso, porque além de estar sendo realizada, que é o principal, ela está nos ajudando a quebrar paradigmas, tanto financeiros como psicológicos. Estamos nos fortalecendo como um grupo que quer fazer acontecer de um modo diferente, e estamos ajudando as pessoas que passam aqui a se conhecerem, a mergulharem num universo tão distante da realidade vivida nos grandes centros urbanos, altamente competitivos.

Só tenho a agradecer ao Universo por ter nos colocado aqui, e agora. Agradeço também ao Hugo e a Manu por acreditarem que um outro mundo é possível aqui, e agora. Como disse Goethe: “O que quer que sonhe poder fazer, faça-o. Coragem contém poder, genialidade e magia. Comece agora”.

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A casinha do amô – Venha amassar barro com a gente!

Atenção meu povo!

Estamos na etapa mais gostosa da bioconstrução da Casinha do Amô, a hora de pisar o barro, se conectar com a mãe terra, se divertir e subir as paredes da casa. Que tal? Temos equipes de trabalho abertas até final de abril e seria lheeeeendo ter você aqui conosco! A vivência é demais, são dias divertidos e cheios de experiências super ricas pra todo mundo! Escreva pra gente no mmelofranco@gmail.com e veeeeeeem! 🙂

Ah! Tem mais um monte de foto pra você se inspirar e querer vir correndo aqui ó:
https://www.facebook.com/casinhadoamo/

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A (não) liberdade

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Ser livre não é fácil, muito menos quando a gente descobre que isso não quer dizer morar no mato e andar descalço o dia inteiro. Desconstruir a liberdade é um processo intenso, forte e necessário, ainda mais pra uma aquariana de asas muito grandes. Descobrir que ninguém é livre sozinho é preciso, aceitar isso é duas vezes mais preciso. Não, não tô em crise. E sim, tô vendo e vivendo mais de perto uma das coisas mais importantes da minha vida e sobre a qual tinha uma visão extremamente romântica.

Completei 36 voltas muito bem vividas ao redor do sol e com essa celebração me veio o tal do inferno astral mais bonito de todos, hoje posso dizer que me veio um céu de purpurina astral clarear meu ser. Tomei banho de uma chuva de questionamentos internos sobre o que é ser livre por inteiro, um caminho longo e cheio de curvas. Sem guarda-chuva por escolha, encharcada, muitas vezes sem conseguir enxergar direito o horizonte, segui recebendo as mil interrogações que me inquietavam: a liberdade de fazer o que se quer, na hora que se quer, como e com quem se quer quando se tem dois filhos com tempos e demandas diferentes. A liberdade de ir e vir quando se mora geograficamente longe de tudo e o dinheiro é passagem para o trânsito que leva ao resto do mundo. A liberdade de fazer as próprias escolhas quando se vive em comunidade e se preza pelo bem estar de todos juntos. A liberdade de ser mulher e tudo o que isso envolve quando seu sagrado feminino pula acordado depois de tempos adormecido. A liberdade de amar a você mesmo, ao outro e como isso dança ou esbarra nos limites, tempos, espaços e respeito ao amor das pessoas. A liberdade de se permitir fazer escolhas “ousadas” com consequências carregadas de risco eminente quando a constância da vida adulta e toda a sua construção cultural são muros rígidos. A liberdade de expressar tais escolhas e viver tais consequências sem a porcaria da culpa. A liberdade de se permitir, de respeitar sua essência, de ser a coerência em linha reta entre o que se é, o que se faz e o que se quer ser.

Tanta liberdade, centenas de dúvidas, todas as respostas dentro da gente. A liberdade é um sentimento tão bonito que se disfarça de utopia para fazer com que as pessoas nunca desistam de caminhar em sua direção. Os caminhos são, muitas vezes, mais importantes do que as chegadas, ao menos pra mim. Perceber que você não é livre em tudo o que se quer é duro, saca? Mas, ao mesmo tempo, esse reconhecimento é um grito alto do peito que vibra no corpo inteiro e saculeja os ombros da gente. Esse movimento então nos empurra rumo a uma ação de mudança que requer coragem, e coragem é o coração da gente sendo guerreiro e doando sua maior verdade.

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Nenhuma liberdade seria inteiramente completa e genuína se não houvessem arestas e limites perceptíveis, a conquista da liberdade é um processo longo e consciente. Um exemplo, entre tantos mil que poderia dar aqui: eu sempre fiz questão de ser livre, qualquer coisa que ameace minha liberdade eu tiro da reta sem muito pensar. Esse sentimento, que veio quase se transformando em um comportamento, hoje é percebido como minha criança interna fazendo pirraça por aquilo que quer a qualquer custo. Quando me comporto assim, estou me negando a encarar os desafios que tal caminho está me propondo, estou negligenciando a quebra de algum paradigma que precisa ser jogado no chão. Estou, com essa escolha, oferecendo a mim mesma a falsa sensação de ser livre pura e simplesmente porque estou pulando a janela, quando deveria atender a porta e encarar o que tem do outro lado dela. Com isso, só me resta entender e aceitar que estou sendo refém da minha própria mania desesperada de ser livre a qualquer custo. E assim vou ignorando algumas coisas e fugindo de tantas outras importantes. Vou enchendo minha mala de não verdades e perdendo forças nas asas que realmente me fazem voar.

Depois desse entendimento muitas fichas caíram e, junto com elas, a aceitação de não ser 100% livre, como a menina que mora dentro de mim bate o pé no chão e enche o peito pra falar que é. Tratei de dar um pedala nessa menina e mudar as coisas, ao menos ando tentando. Aceito que ser e viver toda essa liberdade só é possível quando se percebe o quão complexo é esse caminho e onde a gente quer chegar com ele. A liberdade tem diferentes significados para diferentes pessoas, o que é necessário entender é que ela não faz sentido algum quando é condicionada. Custei, meu bem, mas entendi isso. Minha vontade de caminhar rumo a liberdade do meu ser é tão grande e forte que ando travando lutas ferrenhas com meu ego para poder seguir leve esse caminho longo e lindo.

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E sinto que são exercícios diários, sabe? Pequeninices rotineiras que são passos grandes rumo ao descondicionar, ao quebrar, ao inovar, ao arriscar, ao libertar de forma mais profunda e pura que a gente puder. Antes de tudo e qualquer coisa, se libertar daquilo que somos e não gostamos, do que vivemos e não queremos, do que tememos e não nos propomos, do que estamos acostumados e não mudamos. Sinto que tô me libertando de tudo o que já fui e não gostei, não gosto mais. Soltando minhas amarras mais escondidas, pouco a pouco, com muito cuidado e amor por todas elas. É importante honrar qualquer coisinha que more dentro da gente, até o que não queremos mais.

Sou livre sim em muita coisa que quis ser, as escolhas que fiz até agora me permitiram isso. Mas entendi que ser livre não é um título ou um mérito, é um caminho, uma viagem longa. A liberdade não é um adjetivo que deixa a gente mais bonito ou um sobrenome que nos faz melhor que o outro. A liberdade é um dos desafios mais bonitos que o universo nos propõe, justamente pra gente ser mais bonito quando aceitá-lo como parte da vida. Porque, acredito eu, quando a gente é livre, a gente é inteiro, a gente tá mais perto da nossa essência, a gente tá mais aberto pro outro, a gente tá ali sendo só verdade e amor. Agora, nesse momento, antes que tudo mude outra vez, quero ser livre assim: aceitando a incompletude do meu ser, honrando tudo o que mora em mim, quebrando os condicionamentos que construí, enfrentando os desafios que essa busca me propõe, caminhando ao lado do outro por trilhas cheias de flores e pedrinhas rumo a liberdade do meu próprio ser.

A liberdade é que nem a criança que mora dentro da gente, quanto mais amor e cuidado nós damos, mais ela cresce sendo a pureza da sua essência que enfeita tudo o que há ao seu redor. Free yourself!

Ps: essa foi uma pausa/desabafo necessária no meio do diário de bordo da casinha do amô, mas semana que vem a gente conta como vão as coisas por aqui, óquei?

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A casinha do amô – Diário da Lud

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Hoje abrimos aqui mais uma parte do nosso diário de bordo, um espaço para as pessoas que estiveram com a gente contarem um pouco de como viveram essa experiência dentro do projeto da casinha. É super importante pra gente (além de bonito por demais!) sentir como tudo isso bate no outro. A primeira parte desse capítulo colaborativo de registros é da Lud, uma irmã linda que chegou, partiu, deixou saudade e já vem voltando pro nosso pertinho outra vez! 🙂 Gratidão, hermana, é lindo aprender tanta coisa e trocar tanto amô contigo! Lá vai!

Uma carta para uma nota

“Quem assim como eu sente o chamado pra fazer um lar no mato, volta de uma temporada com a família da Manu, Hugo, Tomé e Nina instigado.

O vôo livre por Serra Grande, no sul da Bahia, onde eles fizeram seu pouso junto com outras cinco famílias me permitiu ver de pertinho a beleza dessa realidade que eles estão criando. Lá o convite diário é de desconstrução dos padrões que se manifestam diariamente em várias esferas de nossa vida. Seja no despertar ao sol, no cuidado com a alimentação, na dedicação à livre manifestação das crianças, na intimidade, nas relações dentro da comunidade ou na forma de pensar e construir uma casa, eles estão experimentando e fazendo diferente, com liberdade.

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O tempo e o espaço são aliados. As pausas possíveis e os lugares de contemplação favorecem a escuta da voz da alma, das perguntas sinceras que chegam pelo coração. Então dá pra perceber o que é importante cultivar, quando o pensamento decanta, o julgamento se afasta, a palavra descansa e a dispersão dá lugar ao despertar.

As vivências compartilhadas neste período em que estive por lá, iniciando com eles uma linda parceria e vivenciando o início do projeto de Bioconstrução da Casinha do Amô (link pro blog), me trouxeram muitas reflexões importantes. Dentre tantas, a alimentação é o fio escolhido pra tecer esse relato, porque esse nutrir, que começa na percepção das necessidades do corpo e na busca por saciá-lo em conexão com natureza, tangencia várias dimensões da nossa vida que podem ser simplificadas, quando a escolha é sair da cidade.

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Nas três semanas de janeiro em que estive com a família de Manu, o alimento foi partilhado com as dezenas de voluntários que chegaram por lá atendendo o chamado da família para a bioconstrução da Casinha do Amô. Estavam envolvidos nesta linda empreitada pessoas de vários lugares do Brasil. Todas de alguma forma buscando ou reforçando um estilo de vida que aponta para novos tempos em que o respeito ao saber ancestral se alia aos conhecimentos atuais.

Todas as refeições eram necessariamente vegetarianas e preferencialmente veganas – sempre é assim por lá. A criatividade das cozinheiras impressiona. Os mesmos ingredientes naturais foram combinados ao longo de semanas, mas nenhum prato foi repetido. Interessante perceber como o hábito e a facilidade falsamente ofertada pelo supermercado podem ser substituídos por experimentações que são uma verdadeira alquimia. Nossa tapioca era feita diretamente da mandioca, o coco era colhido do pé, os brotos cultivados diariamente e o pão feito a muitas mãos.

O alimento vinha em sua maioria da feira em Serra Grande, que acontece aos domingos, e para conseguir garantir os legumes e principalmente as verduras tinha que madrugar e chegar por lá antes das seis da matina. Mesmo assim, nem sempre se encontra tudo o que deseja, somente o que os agricultores conseguiram na colheita da semana e o preço por isso costuma ser mais salgadinho. Se contentar com o que a terra tem pra dar é um meio de se conectar com os ciclos e se nutrir dos alimentos que cada estação da natureza nos reserva.

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Quando necessário, alguns alimentos são comprados em Ilhéus e essa experiência que nos é tão familiar na cidade grande, de encontrar disponível nas prateleiras dos supermercados toda a sorte de alimentos mesmo que embalados e conservados para o transporte além mar, é um instigante contraponto à vida mais simples e integrada à natureza.

Incumbida de abastecer a casa com quilos de abobrinha, cenoura, cebola, abóboras e batatas fui ao supermercado Itão, em Ilhéus, e me surpreendi com pequenas sensações que me conectaram ainda mais a esse estilo de vida. Dois pontos muito simples me chamaram a atenção: o fato de comprar alimento para cerca de 20 pessoas e apenas três itens serem industrializados e embalados (pilhas, uva passa e biscoito de gergelim) e o incômodo que senti ao levar para a comunidade o lixo dessas embalagens e dos sacos plásticos onde estavam os legumes. Este era um lixo que, ao contrário de tudo que fazíamos lá, não podia ir para a composteira para nutrir a terra e voltar a ser alimento.

Parece uma coisa boba e é mesmo. Mas só quando vi (e vivi) a proporção de lixo orgânico produzido e reaproveitado sendo muito maior que a de lixo reciclável é que senti o prazer que há em gerar resíduos que conseguem ser absorvidos e transformados pela terra, sem sobrecarregar o solo, as águas, o ar. O que não volta pra terra, vai pra dentro de garrafas pet que preenchidas com as embalagens se transformam em tijolo urbano e ganham utilidade servindo como cerca de horta, suporte para estruturas, dentre outras possibilidades.

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Todo o lixo seco da cozinha vai para garrafas pet que se transformam em tijolos urbanos.

Prazer semelhante senti ao perceber que um simples sabão de coco dá conta da limpeza da pia da cozinha e das roupas, ou uma antiga receita com bicabornato e limão é suficiente para deixar os pisos limpos e higienizados. A “sujeira” ali é basicamente de terra e suor, não tem aquela poeira cinza da poluição da cidade ou gordura excessiva que exija um detergente ou desinfetante cheio de químicos, por exemplo. Como as casas por lá sempre tem uma bananeira na saída do encanamento da cozinha seguindo um princípio de permacultura, esse sabão também é absorvido pela terra, depois de ser filtrado pelas raízes da planta e assim mais uma prática cotidiana se dá de forma mais equilibrada com o ambiente do entorno.

E que ambiente! Serra Grande é no litoral da Bahia, tem uma mata atlântica belíssima e exuberante, com muitos muitos pássaros e água doce também. Mata que me presenteou no primeiro de dia do ano com uma mangueira gigante carregadíssima que uma vez descoberta passou a ser nossa fonte de fruta durante todas as semanas em que estive por lá (além dos cocos e dos poucos cajus que tivemos a sorte de encontrar). As mangas maduras caiam de metros de altura e eram recebidas por uma cama de folhas secas que absorvia o impacto e nos permitia fazer uma colheita de frutas perfeitas e perfumadas. Tamanha gratidão à Mãe Terra pode ser expressa diretamente à árvore provedora da fruta preferida do verão. Pequenos rituais diários que o contato com a terra favorece, numa troca que só cresce e alimenta o corpo e a alma.

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Páginas e mais páginas poderiam ser escritas pra compartilhar a vivência por lá, mas a Manu já faz isso com um talento que dá pra parar por aqui, com o sentimento de alegria por ser uma eterna aprendiz. É como me senti junto a estas companhias em Aritaguá, comunidade em que as matriarcas se destacam junto a seus companheiros e filhos, as crianças são livres e cuidadas por todos e as imposições da moral, do padrão da cidade são desafios encarados com amor, como teste de resistência e chance de crescimento. Como um lembrete de viver valores que são essenciais para a vida coletiva, como escuta, humildade, abertura, mais perguntas que respostas, coragem, alegria e festa. Seja no mato ou na cidade”.

Ludmila Ribeiro/Fevereiro de 2016

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A casinha do amô – As fotos

Hoje não tem blá blá blá de palavras, deixamos aqui um cadinho das fotos que estamos fazendo pra contar essa história lheeeeenda que estamos vivendo nesse agora incrível! Como o projeto é colaborativo desde a ideia até a mão na massa, nada mais justo do que as pessoas que passam por aqui deixem seus olhares e sentimentos na construção imagética desse projeto. Então, criamos uma página no Facebook para contar, cada dia um tiquinho, de toda essa vivência nossa. Corre lá, deixa um “like”, espalhe a palavra e vem com a gente! 🙂

https://www.facebook.com/casinhadoamo/ 

Ah! E se você ainda não conhece ou colaborou com a nossa vaquinha virtual para ajudar a alimentar toda esta galera, clique no link abaixo. Se sentir que quer e pode, ajude a engordar a bichana e faça parte desse projeto com a gente!

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo

Só pra dar um gostinho, lá vai o diário da Laura+Cecília+Dallas, gente de amô que foi e ficou na saudade que guardamos dentro do peito! Gratidão, gente lheeeeenda! Tamo que não nos aguentamo de tanta felicidade! 🙂

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A casinha do amô – A troca

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Tenho pensado muito sobre as trocas, uma das coisas mais fortes que temos vivido aqui nesse processo lheeeeeeendo! Trocar é alguma coisa que não tem moeda que pague, é verbo que se conjuga na liberdade do doar de peito aberto, é movimento circular na dança do universo. Talvez tenha passado muito tempo dessa vida trocando de forma equivocada, acreditando que o “toma lá da cá” tem que existir baseado no ponto de equilíbrio onde um ganha/doa o mesmo tanto que o outro. Hoje recebo um entendimento diferente, sinto que toda troca é um ato espontâneo de amor, que é como um filete de energia que sai do coração e atinge o coração do outro de forma muito natural. Percebo que as melhores trocas acontecem com esse descompromisso do acaso,  com essa leveza do desejo genuíno de ser e ver pessoas felizes, com essa grandeza da entrega.

Temos trocado muito por aqui, mesmo sem ainda entender o quão grande está sendo tudo e quando conseguiremos assimilar por inteiro todo esse movimento bonito. Temos aprendido um tanto e isso reforça nosso sentimento de que dar e receber a verdade do que se sente, se aprende, se constrói junto é uma coisa de doido e dura pra toda vida. Trocamos muito antes do movimento de construção da casinha começar. Trocamos ideias, saberes, desejos, opiniões, sonhos, realizações, energias, carinho, conflitos, desafios, amor. Trocamos hoje, aqui nesse agora, desde a hora que acordamos até o sol se pôr. Trocamos com a natureza que nos acolhe e com as pessoas que nos cercam também.

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A troca com as pessoas traz outra coisa linda que é a diferença. Aqui tem gente de todo canto, de todo jeito, de toda crença, de toda cultura, de todo sotaque. E é aí que a gente sente por completo o valor da troca, quando as pessoas trazem o novo que revira o seu velho, quando transformam o velho adormecido em novo acordado. A diferença escancara as portas do peito quando você se permite e se entrega sem pré conceitos ou julgamentos ansiosos. E te faz alguém mais completo, mais cheio de entendimento e aceitação, alguém mais rico do que ontem, do que a dois minutos atrás. Sinto que a cada dia que termina parimos um novo pedaço do nosso ser maior, alguma coisa que nos faz mais inquietos, mais abertos a essa transformação que não cansa de acontecer. E nascemos no dia seguinte mais plenos, mais cheios do outro que, na verdade, é nosso reflexo.

Nossa casa já existe, ela é toda a energia que está circulando por aqui, ela é esse agora, essas pessoas que estão conosco, esses braços, pernas e corações que nos enfeitam todo dia, essa troca sem fim que rola a cada minuto de convivência. As paredes, o telhado, as portas, a moradia pronta, vai ser o final de um caminho inesquecível, tem hora que ainda não consigo verbalizar esse movimento todo. Mas sentimos que, mesmo que aconteça um terremoto gigante e a casa caia no chão dois dias depois de construída, ela já vai ter acontecido da forma mais incrível possível. Essa casa é o agora, esse dia, esse instante.

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Trocar é essa energia ancorada no presente. O que eu sinto de te oferecer agora, mesmo que você não tenha nada pra me ofertar nesse momento. A troca é com o universo, acima de qualquer coisa ou pessoa. A gente espalha a purpurina no ar e ela vai enfeitando céu e terra, brilhando no peito de quem tem abertura pra receber. Um dia sopramos essa energia no ar e no outro recebemos, sem data, sem pressa, sem medidas, sem pesos, sem compromissos, sem moedas. Temos aprendido mais e mais sobre isso aqui, com o coração abarrotado de alegria, você nem imaginam quanto!

Então, pra terminar mais um devaneio nosso, sopro nesse vento fresco que vem forte por aqui minha gratidão por tanta troca verdadeira e amorosa. Gratidão a toda essa gente linda que nos ensina tanto, gratidão ao universo que nos tira pra dançar trocando nossos pares com frequência para que possamos aprender novos passos, sem nunca nos perder no ritmo da música. Que a troca seja sempre uma fonte inesgotável de amor, mais do que a espera ansiosa por um retorno imediato! Que seja sempre uma entrega, uma doação, um permitir-se ancorado na verdade do coração.

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Ah! E se você sentir de participar dessa troca linda que tá rolando por aqui, é muito bem vindo! Ainda estamos aceitando voluntários a partir do dia 20 de fevereiro, escreva no mmelofranco@gmail.com. Outra forma de contribuir e fazer parte dessa transformação boa é nos dar um help na alimentação da galera que está conosco, são mais de 120 pessoas que precisam ser bem cuidadas, saco vazio não para em pé, néaaammmmm? Então corre na nossa vaquinha virtual e contribua com o que puder pra engordar a bichana, se sentir que pode! Gratidão e até 🙂

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/alimente-um-voluntario-da-casinha-do-amo

A casinha do amô – O começo

Sol, terra, pedra, mãos e um tanto de peitos abertos!

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Lud, irmã/parceira de projetos, catadora oficial de mangas e guardiã de um sorriso largo incansável.

Tô aqui sentada na grama de frente para a represa abrindo esse diário de bordo que fala de uma das viagens mais lindas que nossa família já viveu até agora: estamos navegando em um barco cheio de gente e amô rumo à realização do nosso maior sonho verde, a casinha sustentável. O sol bate ainda manso na pele, é manhãzinha de vento suave e céu azul. Ouço daqui o som das pedras sendo carregadas na obra, do outro lado do lago onde mais de dez pessoas trabalham na fundação da bioconstrução. As crianças correm pela fazenda colhendo sementes para fazer colares com Kéu e Gabi, queridezas voluntárias que se revezam nos cuidados com os pequenos da comunidade para garantir um dia divertido. Daqui vejo a cozinha de casa cheia de mãos amorosas preparando o almoço delícia de quem sai da obra precisando repor a energia linda que deixou por lá. Essa máquina é coordenada por Bárbara, irmã de alma que dança suave entre abóboras, horários, saladas e ensinamentos valiosos.

Almoço a vista!

Almoço a vista!

Todo o lixo seco da cozinha vai para garrafas pet que se transformam em tijolos urbanos.

Todo o lixo seco da cozinha vai para garrafas pet que se transformam em tijolos urbanos.

Queria conseguir expressar aqui a imensidão de todo esse movimento que começou há uma semana e vai durar por bons meses, mas os arrepios que me tomam de assalto ao escrever e pensar nisso tudo me travam a garganta e impedem as palavras de fluir em toda a sua intensidade. Mas preciso tentar registrar essa rotina montanha russa que se mostra uma caixa de surpresas, trocas, aprendizados, exercícios e gratidão sem fim. É tudo tão bonito que sentimos que compartilhar seria a flecha mais certeira de inspiração para todo ser que deseja um movimento rumo à realização de um sonho bom.

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Segunda etapa da fundação da casinha.

Pedra+terra+força de amô!

Pedra+terra+força de amô!

Hoje estamos com 20 voluntários que vieram de todo Brasil se dividindo entre a construção da casa, os cuidados com as criOnças e a cozinha. Uma teia de gente animada, gente de peito aberto, gente de coração bom, gente de verdades como as nossas, gente que vem ensinar pela diferença, gente que vai deixar saudade. Toda semana as turmas são trocadas, a previsão do agora (que muda todo dia!) é de receber cerca de 120 pessoas durante três meses.

Hugo tem se mostrado um mestre de obras incrível, alguém que colocou no lugar da experiência em bioconstruir o coração cheio de amor e determinação. Morro de orgulho e admiração ao sentir como ele se desafia, se propõe, mergulha por inteiro, dá o suor e o sangue pela materialização dessa casa, desse porto, desse lugar pra voltar. São manhãs e tardes de sol forte regendo braços, pernas e corações que trabalham lindamente pela casa que já existe. Sim, a partir do momento que toda essa gente chegou nosso cantinho já aconteceu, a casa é essa experiência que se manifesta no agora, estamos de corpo e alma em cada segundo desse presente.

Hugo e Nina em conversas longas sobre a casinha nova!

Hugo e Nina em conversas longas sobre a casinha nova!

Nina e Tomé estão se adaptando lindamente a toda essa mudança brusca em seus dias. A casa cheia, as energias que chegam e que vão, os espaços que se transformam, o tempo que muda. Nós, os pais, ainda estamos nos encontrando nos cuidados com eles dentro dessa bolha de mil coisas ao mesmo tempo. Buscamos observar as mudanças de comportamento, as aflições a serem amenizadas, as alegrias a serem potencializadas, as descobertas a serem estimuladas, tanta coisa. Vez ou outra rola um banho de ervas, um rezo pros anjos e arcanjos que protegem, uma macumbinha pra limpar as pequenas esponjas de energia que são os erês! Mas sentimos que estão se divertindo com tantos amigos novos, absorvendo os conhecimentos que cada um traz na mala pra compartilhar e, o mais importante, estão vivendo a diferença entre as pessoas e tendo a chance de entender na prática a lindeza que é o respeito pelo outro.

Alan, o mestre dos passarinhos, compartilhando sua sabedoria com as criOnças.

Alan, o mestre dos passarinhos, compartilhando sua sabedoria com as criOnças.

Eu ando transbordando gratidão pelos cantos e vivendo intensamente as oportunidades de me transformar que esse movimento todo tá nos proporcionando. Muitas manias, regras, cobranças, expectativas e pequeninices que moram no brejo do peito estão virando purpurina e voando com o vento. Pra variar, a natureza tem me mostrado um tanto sobre ciclos, sobre respeito, sobre confiança, sobre a combinação força+leveza. Outro dia joguei um tarô e ele me falou sobre a importância de manter a alegria infantil durante os caminhos que escolhemos percorrer. Nesse momento super favorável para enlouquecer qualquer pessoa que tenha que lidar com tanta gente, comida, imprevistos, crianças, responsabilidades, obra, material de construção, organização e mais 8327895783945 coisas, essa carta trouxe um alento importante. E nele eu e Hugo nos firmamos, na certeza de que somos a alegria desse sonho e é ela quem vai nos guiar durante todo o processo aconteça o que acontecer. E ponto!

Pra não esquecer e enlouquecer!

Pra não esquecer e enlouquecer!

Pra não esquecer de faltar leveza!

Pra lembrar que não pode faltar leveza!

E tem muito mais coisas pra falar, pra mostrar, pra viver. Aos poucos, a medida que os entendimentos forem pipocando, que as paredes forem subindo, que as pessoas forem chegando pra fazer esse agora acontecer lindamente, vamos aparecendo por aqui. Deixo esparramadas por essas palavras toda a nossa gratidão pelas pessoas que estiveram, estão e estarão conosco, nada disso seria tão bonito e intenso sem vocês pra compartilhar e multiplicar amô! A gente tá que não se aguenta de felicidade, encantados com a beleza de um movimento que se manifesta naturalmente num fluxo leve e verdadeiro. É de uma grandeza sem fim perceber que este mundo que a gente quer ver acontecer está mais perto do que pensamos!

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Marcelinho enfeitando nossas manhãs com música boa antes do trampo!

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Kéu, Camila e Tomé no preparo do suco das mangas que a natureza trouxe pra compartilhar!

A vaquinha!

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As coisas aqui andam a mil por hora, o coração na boca, o estômago pequeno pra tanta borboleta, um calor da porra, cabeça pipocando ideias verdes, trocentos desenhos espalhados por papéis casa afora e o peito transbordando felicidade, nossa casinha do amô tá chegando! As obras já começam esse mês e tô que não me aguento de emoção, meu povo!

Não podemos deixar de registrar aqui a nossa gratidão sem tamanho pelos inúmeros e-mails, mensagens, palavras de incentivo, carinho, buena sorte, amorsh que recebemos de tanta gente desse Brasil inteiro! E os voluntários, ah, os voluntários! Eu quase chego a chorar quando um e-mail novo pula no nosso correio virtual com alguém se dispondo de corpo e alma a nos ajudar. É muita gente, é muito peito aberto, é muita irmãdade, é amor demais, árremaria! Sinto que ganhamos, além de muitas mãos para realizar um sonho verde, muitos amigos que vibram essa mesma energia da transformação, que sentem esse chamado mesmo estando vivendo seu agora na cidade, que querem viver essa troca bonita, que tem muito a nos ensinar, que vem vindo pra deixar tudo ainda mais cheio de significado e alegria. A gente tem gratidão aqui que dá pra rodar mundo cinco vezes sem parar!

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 E tem outro tanto de lindezas que vem escrevendo pra gente e manifestando a vontade de participar desse momento mesmo sem poder estar aqui no nosso pertinho compartilhando barro e amô. Sendo assim, quebramos a cuca aqui pra achar uma forma de ter mais gente ainda envolvida, mesmo que de longe. Daí surgiu a ideia de uma vaquinha virtual para bancar a alimentação dos voluntários que estão chegando na bahia de todos os santos, massa, né?

A coisa funciona mais ou menos assim ó:

  • são cerca de 8 a 10 pessoas por semana de trabalho e amô;
  • estimamos três meses de bioconstrução, ou seja, 8 equipes nesse período;
  • são cinco horas de trabalho pela manhã e tardes livres;
  • a alimentação dessas pessoas inclui café da manhã/almoço e jantar (sem carne, com muita simplicidade, sustância e gostosura!)

Então, se você sentir que quer e pode participar desse movimento, que gostaria de nos ajudar a engordar essa bichana com um capi(m)lé, será muito bem vindo e um mooooooonte de gente agradece (inclusive eu que vou vibrar de alegria a cada moedinha arrecadada)! O link é esse abaixo, é fácil de entrar e fazer a transação (boleto ou cartão).

Alimente um voluntário da biocasinha do amô 

Daqui a pouco a gente aparece com mais novidades, mais borboletas no estômago, fotos das obras, desse povo lindo que vem vindo, das comidinhas delícia que vamos fazer com essa vaquinha, de tudo! Um xêro nosso e até daqui a pouco (se a ansiedade não me comer por inteira até o próximo post!)!

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Precisamos de uma mãozinha!

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Parece que o mar tá pra peixe e acabamos pescando quase uma baleia inteira, meo deos!

Venho aqui hoje, meio curta e grossa, pra contar a novidade mais linda dos últimos tempos: vamos construir uma casinha pra chamar de nossa, cê crê?  (tem hora que eu ainda não!)

O mesmo universo que soprou, conspirou, remexeu e nos trouxe para cá, conseguiu ser mais lindo ainda e nos deu de presente a irmãdade de outras famílias que já são nossas também. E, nesse balaio de gente incrível, apareceu um casal que tem nos ensinado um bocado de coisas importantes sobre desapego, sobre acreditar nas pessoas, sobre a delícia que a vida pode ser quando não levada a sério, sobre o amor e a força da união, acima de tudo. E deles recebemos a honra de compartilhar um terreno na beira da represa, construir uma casa simples e sustentável abarrotada de amorsh, bem como a gente gosta e é! Tamo que não nos aguentamo de tanta alegria! Ter um lugar pra voltar é bonito por demais, árremaria!

O lance é que não poderíamos construir esse sonho de forma “tradicional”, não seria muito a nossa cara. Então nosso cafofo vai ser o mais sustentável e respeitoso com a natureza possível, de outra forma mãe terra desconfiaria do nosso apreço e gratidão por ela! Queremos paredes de super adobe, onde a matéria prima é basicamente o barro que temos por aqui, um telhado verde pra enfeitar e refrescar o calor da porra que faz na Bahia, bananeiras para tratar a água que usamos, madeira local e reflorestada, reaproveitamento de vidros e materiais de acabamento, tintura natural, banheiro seco e sem gastar 23898395858945 litros de água no transporte de um mero cocozinho, captação de água da chuva e mais um monte de ideias verdes que vão nos guiando nesse momento, olha que amô!

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E também não seria do nosso feitio construir essa coisa linda com um pedreiro “normal”e seus dez ajudantes por um preço absurdo. Não, a gente quer construir junto, com nossas crianças amaçando barro, com um tanto de gente alegre trocando conhecimento, a gente quer fazer desse tempo de concretizar um sonho uma grande festa.

E por isso esse post, pra convidar quem quiser vir botar a mão na massa com a gente, que tal? Todo mundo é bem vindo:

  • os arquitetos que queiram dar pitacos nos rabiscos que a gente vem fazendo quase que diariamente;
  • os caras ou as minas que são entendidos de bioconstrução, que tem uma certa experiência nisso e que gostariam de ser nosso “mestre de obras”;
  • alguém que entenda bem de telhados vivos/telhados verdes pra dar uma força nessa parte tão importante e lheeeeeeeenda da casinha;
  • e a cereja do bolo: gente com vontade de fazer parte disso tudo e ajudar a colocar a mão na massa! Voluntários pra fazer a coisa crescer, pra doar força de trabalho (sim, trabalho pesado!) e aprender um monte junto com a gente, pra deixar um cadinho do seu amor nas paredes da nossa casa, pra fazer parte desse momento lindo, pra conhecer pessoas interessantes, pra tomar banho de mar na Bahia, pra viver a bioconstrução de perto, pra nadar na represa final de tarde com Tomé e Nina, pra encher nosso coração de mais gratidão pela força que vai concretizar nessa terra algo que ainda andava só pelas nuvens.

Se você aí que tá lendo animar, escreva pra gente no mmelofranco@gmail.com ou deixe seu contato em um comentário aqui nesse post que te procuramos! Daí explicamos melhor os detalhes de tudo, datas, o que oferecemos, etc. O mais importante é que essa manifestação seja feita de peito aberto e com muito amor, sabe? Esse é um dos momentos mais lindos da nossa vida, então nada mais justo que a gente tenha por perto essa energia do compartilhar, da união faz a força, da alegria, da gratidão, da irmãdade, do amor genuíno mesmo.

E, se você não sentiu de entrar nesse barco, então ajuda nóis compartilhando esse post nas suas redes sociais pra mais e mais gente chegar até aqui e poder se manifestar! Vem gente, vai ser tão lindo que fico de olho marejado só de pensar, ai!

Então é isso! Um xêro especial para Iside, Lorenzo, Vicky e o pequeno Leone, uma das famílias mais fodas que conhecemos nesses últimos tempos e que são nossa fada madrinha realizando o desejo mais bonito da familinha aqui. Nosso amor e gratidão por vocês só cresce, irmãdade!

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O recomeço (de novo!)

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Sumimos daqui porque estivemos em tantos lugares dentro e fora da gente desde o último post que não me sobrou fôlego pra compartilhar antes. Nesses momentos, na maioria das vezes, me fecho feito tatu bola e fico ali rodopiando e entendendo as coisas balançando dentro de mim. Mas agora já saímos do olho do furacão e estamos inteiros para poder contar sobre como a vida tem tirado a gente pra dançar.

Tárra tudo bom demais pra ser verdade no ecocentro onde estávamos vivendo, mas a casa caiu e, por incrível que pareça, tudo ficou melhor depois disso. Pra simplificar essa parte, vou resumir o motivo dessa partida em uma palavra que é muito importante no meu vocabulário, a hipocrisia. Sim, importante no sentido de que é uma das coisas que mais leva embora minha tolerância, eu tenho verdadeiro pavor de gente hipócrita, mais do que de barata que voa. Viver em um lugar maravilhoso no meio da natureza, com mil e uma possibilidades de transformar o mundo em algo mais bonito, cheio de gente do bem é felicidade digna de propaganda de margarina. E foi, até aparecer um Zé carregado da porcaria da ego trip (o que pra mim é meio demodê, cá entre nós), mania de poder, sede de muita grana a qualquer custo e mais um monte de conceitos e valores que vão na contra mão dos nossos, fazem curva na mentira e desembocam na hipocrisia. Então, meu bem, pernas pra que te quero, bora zarpar daqui!

Pois é, mas pra onde agora, produção?

Em um mês arrumamos as malas e tentamos pensar numa saída pra esse momento, mas sempre daquele jeito nosso, enchendo a bola da confiança e furando o pneu do medo do incerto. E, como em toda troca de cenário da família insistentemente cigana, uma parada em Minas, no colo da família, no conforto do ninho. E ali um mundo de coisas aconteceu, como se o universo estivesse trocando todas as placas de direção da estrada que estávamos seguindo, só pra ver até onde a gente iria guiados pelo próprio instinto. Perrengue, seja bem vindo OUTRA VEZ, te entrego meu corpinho até que meu entendimento te perceba como um passo pra frete, daí te transformo em gratidão e sigo linda, loira e japonesa!

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E é tudo muito mágico mesmo, saca? Quando você entrega o peito aberto e aceita que é pela desordem que a gente se organiza, as coisas seguem a fluidez que precisam pra ser coisas importantes no seu processo evolutivo. Daí começamos a rever todos os pontos que gritavam na gente uma mudança necessária depois de tempos rígidos na inércia da rotina, sem crescer. A educação das crianças, a relação com grana, os laços familiares, as faltas que excedem, o amor de dois e mais, tudo o que interferia diretamente na nossa paixão pela liberdade. Ameaçar a nossa liberdade é fazer a gente virar bicho brabo e cheio de agonia.

E a chegada da clareza sobre tudo, quando a cortina de neblina se esvaiu, veio aquele sopro fresco de vento que o universo provê como um carinho na alma, esse que te lembra que é pra frente que se anda, que é com amor e verdade que se celebra essa vida larga! Então, uma irmã dessas que a gente tem de muitas encarnações, aparece como a manifestação palpável desse fluir bonito e nos convida pra viver perto dela, num paraíso ali na Bahia, terra de todos os santos e um lugar pelo qual já carregamos um amor de outras vivências. Mais uma vez, o universo dança e a gente entra na roda, muda o cenário da vida, sacode a poeira dos sapatos e se prepara pra pisar na estrada de novo. Outro recomeço sem medo, outro recomeço sem a expectativa de que seja o último, somos livres e estamos prontos pra mais uma aventura bonita.

E aqui estamos, num lugar onde os olhos alcançam coqueiros carregados, o biquíni sempre no varal lembrando que a maré ta pra peixe, sendo abraçados pela brisa do mar, luas lindas, calmaria e gente. São seis famílias que vivem em perfeita harmonia numa antiga fazenda, como uma comunidade que não tem a pretensão de ser organizar como tal, por isso conseguem ser uma família tão integrada e linda! Tomé e Nina agora só andam de galera, são 12 crianças dependuradas em árvores, brincando na areia, brigando, descobrindo o respeito ao outro, se reconhecendo, experimentando e se jogando na delicia que é ser criança no meio da natureza.

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Algumas coisas ainda vão se ajeitando aqui na constância do mundo adulto, todo recomeço tem um tempo de fazer uma bainha aqui, uma costurinha ali, pregar um botão pra coisa ganhar firmeza. Mas pra isso tem a comparsa de velhos tempos, a natureza, essa que traz o tempo rei na medida do respeito que ele merece. E tem os guias, os ancestrais, os orixás, os santos, as entidades, a força, o grande mistério, toda essa “gente” que tá sempre na nossa cola e aos quais eu honro com um bocado de rezo e o melhor de mim, sempre.

Muita coisa nova vem chegando, muitas sementes fortes sendo plantadas, muitos projetos ganhando forma, estamos nos sentindo mais maduros e mais preparados para dar passos maiores. Sinto que é porque esse lugar nos trouxe a sensação de acolhimento, como um abraço forte depois de um choro doído, talvez o primeiro lugar onde pensamos em construir uma casa, ter um lugar pra onde voltar, uma família enorme de gente que vibra as mesmas conexões e o amor que buscamos ser cada dia mais. O universo é tão sábio que passa uma vida te enchendo de tapas e beijos, te dando e tirando, te oferecendo retas e curvas e te preparando para merecer o que sempre foi seu, o que ele guardou no canto mais bonito da sua imensidão. Sinto esse momento chegando não como um mar de rosas, mas percebo que quanto mais alinhados estamos por dentro, menos sentimos os terremotos que rolam do lado de fora. Aliás, dentro e fora ficam bem apertados quando enxergamos que um é pura e simplesmente o reflexo do outro. Tipo toma lá, dá cá, só que você com você mesmo!

Depois a gente conta mais sobre as coisas daqui, queria mesmo era terminar esse falatório todo manifestando minha gratidão pelas possibilidades que a belezura dessa vida tem nos dado. E também dizer pra Ruah, minha irmã de alma que agora é minha vizinha como a gente sempre sonhou, que meu amor e gratidão por você não tem tamanho nem fronteira, a gente é rio que corre pro mar. Hugo, a cada passo que damos juntos, te amo mais.

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Os (re) encontros

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Esse tal de universo, que é maior do que eu sei, inclusive em sua generosidade comigo, tem me trazido momentos de muita clareza e entendimento nos últimos meses. Sinto como se, a partir de um determinado ponto na linha do meu tempo, um grande portal mágico tivesse se aberto em meu peito e me levado para um lugar de conexões e beleza que meu vocabulário mequetrefe não dá conta de codificar. Por um momento entrei na pira de explicar tudo, de questionar, de buscar entender que chave tinha mudado tudo na minha percepção, que diabos tinha ligado a tomada da minha conexão com o universo inteiro. Bati a cabeça na parede e caí pra dentro do peito, onde as coisas estavam bem claras e resolvidas.

Tudo muito simples e, quanto mais simples, mais encanto. A cortina de névoa que cobria tudo evaporou e a clareza me atropelou deixando a vida mais cheia de verdade e gratidão ainda. Nós somos o universo, eu sou o universo que vibra amor puro e verdadeiro, eu e você somos um o reflexo do outro, nós somos uma unidade dentro da força maior, a natureza que vejo aqui fora é espelho da minha aqui dentro e vice-versa, a consciência da transformação é universal e coletiva, viajar pra dentro é uma constância que me tira do lugar comum e me empurra pro movimento, quanto mais eu descubro sobre mim mais eu entendo e me dôo pro outro, a vida é agora e merece ser compartilhada, esse despertar coletivo de uma unidade transformadora me dá vontade de chorar de emoção, a força desse despertar pode carregar um mundo nas costas e ainda sorrir nas subidas em 90 graus, eu me nego bravamente a ignorar os mais sutis sinais e conexões que o universo decida me trazer, sejam eles bons ou ruins, queira ou não minha capacidade de aceitação sobre as coisas.

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E sinto que chegar nesse “lugar” não seria possível, no meu caso, sem as trilhas caminhadas durante a vida perto, dentro da natureza. Esse sentimento traz consigo um amigo inseparável, a certeza de que euzinha aqui apenas abri uma porta, que só coloquei um pé dentro dessa bolha gigante de entendimento, que daqui pra frente a vida vai ser ainda mais montanha russa subindo em mil dimensões, descendo em mil conexões, subindo em mil percepções, descendo em mil questões, subindo em mil realidades paralelas, descendo em mil descobertas. Tô pronta e feliz por ter comprado esse bilhete, segura de que toda subida e descida desse caminho sem volta carrega a força do amor que sou e emano.

Além da natureza que me deitou no seu colo verde e sutilmente me induziu/guiou nesse movimento todo, aconteceram algumas pessoas, almas de beleza sem fim, encontros que o universo me proporcionou como quem sussurra ao pé do ouvido: “sim, a direção é esta e você não está sozinha, tem essa, essa outra e mais essa força pra somar no caminho que tu escolheste trilhar”. E depois desse surto de clareza, percebi que tudo isso já existia há tempos, talvez uma vida inteira. Mas só agora estava pronta pra reconhecer tanta grandeza, pra entender que o primeiro desses (re) encontros era comigo mesma, com este universo inteiro que eu sou/tenho/vivo, com a mulher que me habita, que honra seu sagrado feminino a cada turbulência de lua cheia no céu. Daí veio a minha conexão desde sempre inexplicável com Hugo, a potência deste amor que a gente nunca soube medir, que é um amor sem rótulo, sem gênero, comprometido unicamente com a verdade e a liberdade de ser seu agora. Esse foi o segundo (re) encontro, porque acredito ter começado em outro plano, outra vida, outro universo, sei lá!

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E mais tantas pessoas com a quais cruzei caminhos sem querer, por dias, por minutos, apenas pela internet, por uma troca de meias palavras, pelo instante de um olhar certeiro e um sorriso solto, pessoas que invadiram feito avalanche meu peito aberto e de lá nunca mais saíram. Essa gente linda que veste roupa de “novidade” na minha história nessa terra e tem andado de mãos dadas comigo, mais do que outras tantas com as quais convivi por anos. E elas me trazem ensinamentos grandiosos, abraços longos e confortantes mesmo quando meu corpo está aqui e o delas lá. São beijos, carinhos, colo, incentivo, trocas, lições, conhecimento, zelo, companheirismo e amor. Um amor que entende e respeita distâncias, que transcende espaços físicos, que se manifesta como energia azul e brilha no ar do universo inteiro. Ah, essa energia!

Sou grata, sou pura gratidão por essa consciência que se manifesta e mim. Pelo entendimento de que ainda não sei nem um terço de nada, mas que me entrego de corpo e alma pra leveza dessa escolha de me jogar pra dentro do meu ser, de sair de lá todo dia melhor, todo dia mais sedenta dessa consciência transformadora universal, tudo junto misturado agora! Sou grata aos encontros e reencontros, às pessoas que me sacodem os ombros e me encorajam em palavras e atitudes verdadeiras, à Pacha Mama que me dá sinais constantes de que somos um só corpo bailando a dança do universo. Gratidão sem fim ao Hugo, o cara que me transforma cada vez que me olha, que me abraça e faz meu corpo vibrar, que enche meu cabelo de flor a cada caminhada de fim de tarde. Sem ele essa aventura não faria sentido, é por ele e pelas crianças que cada segundo dela vale a pena.

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Termino esse devaneio interminável com a sensação de ter me embolado nas palavras e não ter conseguido manifestar metade do que esse momento representa pra mim. Mas insisto nele por acreditar que não estamos sozinhos, que um bocado de gente que me lê aqui sabe muito bem do que tô falando porque sente igual. E é bem isso mesmo, um sentimento que tende a se esparramar sem freio, sem curva, sem medo. Lá vem a era do amor, finalmente!

Ah! E mil desculpas pelo sumiço, o vento soprou forte por aqui, pegamos carona nele e estamos voando rumo à uma nova aventura. Já compartilhamos logo!

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A escola

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Não sei o quão infindável é essa discussão, mas sei o quão particular ela é e chegou batendo na nossa porta já há algum tempo. Antes de contar como lidamos com ela dentro da nossa casa, acho necessário dizer como nos preparamos para recebê-la. Pois foi de peito aberto, com a consciência de que a resposta para nossas dúvidas estaria nas crianças. Antes de pensarmos como a sociedade pensa, como nossos pais pensaram, como o sistema impõe, como nós (eu e Hugo) vivemos a escola, como seria “certo ou errado”, pensamos nas reais necessidades das crianças.

E isso tudo quer dizer sobrepor o bem estar delas ao nosso, coisa que a natureza, perfeita que é, já ensina como condição essencial da maternidade/paternidade antes mesmo das criOnças nascerem. Somos pais em tempo integral há quase quatro anos e vivemos longe da família ou de qualquer ajuda para educá-los boa parte desse tempo. Traduzindo: estamos mortos com farofa! Mas essa foi nossa escolha desde a gravidez e talvez uma das mais bonitas e certeiras que já fizemos. E no começo deste ano o esgotamento bateu forte, mas tão forte, que realmente pensamos em matricular Nina e Tomé na escola. Talvez isso fosse sobrepor nosso bem estar ao deles e isso iria na direção contrária do que sempre seguimos. Mas, por outro lado, pais cansados e infelizes não conseguem ser pais completos, e isso também não condiz com a forma que escolhemos viver esse amor sem fim. Somos e seremos de corpo e alma sempre, nossos filhos são passagens de ida pra a plenitude.

 Então, como sempre fazemos, deixamos que Tomé e Nina respondessem à nossas inúmeras dúvidas de forma bem natural, mesmo sem saber que uma pergunta tão importante lhes foi feita. E, também como sempre fazem, estão nos trazendo respostas diárias que nos carregam pelas mãos rumo à uma certeza: não, eles não precisam de uma escola nesse momento!

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Não sei contar nos dedos quantas coisas lindas Tomé já aprendeu nesse último ano tendo como casa a natureza. Hoje ele te conta sobre plantas medicinais, nome de pássaros e seus hábitos rotineiros, espécies raras do cerrado, dá conta de reciclar seu lixo, fala sobre o funcionamento das composteiras, ensina a usar um banheiro seco, planta e cuida do pequeno jardim que fizemos pra ele e por aí vai. Mas, o mais importante de tudo, ao nosso ver, é a base forte na qual ele vem construindo sua personalidade, seu caráter: seus dias são cheios de liberdade (que bem anda de mãos dadas com a responsabilidade), o respeito à natureza e ao outro são lições diárias ensinadas por nós e por todas as pessoas que vivem/passam por aqui, a beleza das coisas simples, a riqueza da diferença e da diversidade, a verdade das coisas e das pessoas, o pé no chão e a troca de energias com a terra, a importância do coletivo/compartilhar, a essência do amor genuíno em tudo que nos move.

Daí um belo dia vem uma criança de fora do Ecocentro, uma criança que frequenta uma escola, assiste televisão, usa o mesmo tênis daquele super herói que todo mundo tem que ter, recebeu uma educação “dentro do sistema”, come uma porcaria a cada meia hora, se gaba de todas as coisas que ganhou e que tem e que comprou e que vai ganhar e que vai ter e blá blá blá pra passar o dia com Tomé. E no final da tarde ele chega em casa apontando um pedaço de madeira que saiu daqui como uma vara de pescar e voltou como uma arma. E nessa hora eu quero morrer, meu chão se parte em dois e meu peito se aperta.

Não queremos criar nossos filhos em uma bolha verde pra sempre, esse seria um tempo muito longo e não temos a prepotência de querer controlá-lo. Mas sentimos que ainda não é hora de expor Tomé e Nina à conceitos e valores com os quais não concordamos, dos quais não estamos fugindo ou ignorando, apenas optando por não vivê-los em nossa rotina. Proteger não é a melhor maneira de educar e privar não é proteger. Muitas dessas crianças estão aparecendo por aqui e as tenho visto com outros olhos quando descobrimos que podemos usar essa diferença a nosso favor. A gente nunca teria tido a chance de explicar a ele o que é uma arma, o quão violenta ela é, se esse outro menino não tivesse aparecido por aqui com essa “brincadeira”. Talvez ele aprendesse sobre isso de outra forma, num outro tempo, com outras pessoas e tudo poderia ser pior.

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A maldade humana e tudo aquilo que não queremos pra eles vai sim chegar, a menos que nos isolemos cada vez mais da sociedade. Mas creio que podemos escolher a forma e o tempo para apresentar-lhes as mazelas do mundo, o que não queremos é que a escola faça isso por nós, porque certamente o faria de forma bem mais dura e seca. Estamos aprendendo sobre isso, cada dia mais, sempre de peito aberto, rindo e chorando com nossas descobertas. Um dia, quem sabe, tudo irá mudar, quando eles nos pedirem para frequentar uma sala de aula.

Tudo isso também nos trouxe uma outra reflexão importante: precisamos ser pais melhores, mais antenados e proporcionar a eles um ambiente de estímulos além dos que o meio ambiente em que vivem lhes oferece diariamente. Optar por esse momento longe da escola quer dizer, entre outras coisas, oferecer conhecimento dentro de casa. Nunca tivemos, eu e Hugo, liberdade para manifestar nossos desejos dentro de uma escola. Não fomos estimulados de acordo com nossas aptidões, não nos foi respeitado o interesse pela arte, pela dança, por qualquer outra coisa que nos identificássemos mais nessa época de descobertas. Não tivemos muitas escolhas e possibilidades nos foram negadas. A escola nunca potencializou nossas potências, muito pelo contrário, muitas delas foram reprimidas pelas equações matemáticas, químicas e físicas que nunca usamos na vida. Queremos que Tomé e Nina cresçam com muito espaço para manifestar seus dons, seus gostos, suas habilidades, sejam eles quais forem. Por isso precisamos, como pais, nos preparar para intensificar esse ambiente de expressões livres, de observações, de atividades multidisciplinares de acordo com o tempo de desenvolvimento deles, do corpo, da consciência, da alma de cada um. Ainda temos um longo caminho pela frente e estamos muito seguros de que não os deixaremos desamparados nesse florescer, estamos decididos a nos preparar com muito amor e criatividade para esse momento bonito e extremamente importante.

Não queríamos que as palavras derramadas aqui soassem como um julgamento às famílias que têm seus filhos na escola, que optaram por uma educação tradicional e são felizes dentro desse modelo. Estamos, nesse nosso diário aberto, contando como tem sido pra gente esse momento, falando da nossa família, da forma como nós enxergamos e escolhemos viver esse momento. Respeitamos e admiramos toda forma de educação que carregue em si o bem estar dos pequenos e o desenvolvimento de homens conscientes. Essa é mais uma nota sobre mais uma escolha, estamos escolhendo educar crianças transformadoras, respeitando todo o seu potencial como seres de luz que são. E isso, (in) felizmente, não conseguimos sentir que poderia acontecer dentro das quatro paredes de uma sala de aula, nossos filhos pedem mais verdade e liberdade para ser por inteiro.

Temos um estilo de vida que permite essa escolha, temos o tempo como parceiro nessa viagem, muito respeito pelo mundo que estão descobrindo e construindo. Ainda não sabemos se esse é o caminho certo, mas é o que pulsa dentro da gente agora. E, na real, nada por aqui é para sempre, sabe? Vamos remando nosso barquinho em águas claras, calmas, respeitando o vento que sopra, o ritmo do rio, e navegando rumo à esse encontro bonito por demais, o encontro das nossas crianças com a verdade, o respeito e a liberdade dos seus espíritos.

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