A coletividade (e a casa nova!)

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Além de muitas outras coisas, viver em coletivo tem se mostrado um desafio. A nossa família já é um coletivo, acho que todas são todas e tem um pézinho na aventura do conhecimento e do respeito ao outro. Aqui é nossa nova casa, um segundo céu pra desbravar depois de ser picado pelo bicho da vida sustentável na Chapada Diamantina.

Nosso pouso agora é em Goiás, num Ecocentro que enche os olhos da gente toda vez que andamos pelos seus cinco hectares de terra fértil, água pura, natureza que brilha e gente de alma transformadora. Aqui conseguimos realizar um desejo antigo de poder trocar boa parte da nossa subsistência por trabalho, um pulo gigante pra chegar cada vez mais próximo ao desapego sufocante da grana. A troca é um troço tão lindo que não me entra na cartola como as pessoas ainda se negam tanto a ela!

A casa que ocupamos é uma bioconstrução que respeita o contexto onde se insere e foi pensada para causar o mínimo de danos possível à natureza, servindo muito bem aos seus moradores. Nossa água é presente da chuva e traz a alegria de nos fazer independentes do sistema público de abastecimento, além de nos deixar orgulhosos de saber aproveitar/cuidar/economizar algo tão importante que a mãe terra nos deu. O lixo é, praticamente, 100% aproveitado: orgânicos para composteiras, plásticos e papéis para dentro de garrafas pet que viram tijolos ecológicos depois de cheios. O banho quente é regido pela presença do sol e o banheiro é seco, todo o material depositado ali é usado como adubo graças a um sistema ma-ra-vi-lho-so que não usa água para descargas, ufa!

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E tem gente. Gente que é daqui, que tá de passagem, de outro país, gente que acredita nessa vida simples e bonita que se vive nesse lugar. Cada pessoa tem sua função, seu espaço, sua personalidade, seus sorrisos, suas fraquezas, seus pedaços. Mas cada uma delas, de nós, é peça fundamental para um todo bem grande. Pois é, aí é que a porca torce o rabo, meu bem! A vida em coletivo é uma matemática com resultados surpreendentes, mas também com equações complicadas na soma de ideias, compartilhamento de opiniões ou divisões de espaços/limites/tarefas. O que não dá pra perder de vista nessa aula é que todo e qualquer exercício que se faça não vale um pingo se não tiver o respeito na frente, alterando diretamente a ordem dos fatores.

E esse desafio veio em uma boa e santa hora, quando a gente se viu completamente imerso na vontade latente de se transformar, de se cavucar pra dentro, de se reconhecer, enfrentar as faltas e se fazer mais puro. Nada melhor que o outro como espelho que reflete, mesmo sem perceber, suas transformações e o equilíbrio que elas precisam ter entre seu bem estar e dos que estão ao seu redor. Aqui tem disso todo dia e é de graça! Paga-se com amor e gratidão pela chance de poder experenciar essa outra possibilidade de ser e de viver.

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A sensação que tenho é que fui sorteada pelo universo para aprender mais sobre a diferença, talvez entendesse menos dessa belezura do que pensava. Apesar de muito atraída por ela, nunca a tinha sentido tão presente nos quatro cantos da minha rotina. Acordar pela manhã e encontrar com alguém é uma montanha russa. Além da sua energia, que pode ter sido afetada diretamente pelo teor dos seus sonhos, o clima, seu humor, a forma como dormiu, suas tarefas, o bolo que queimou ou as flores que recebeu, você precisa lidar com a energia do outro, seja ela boa ou ruim pra vossa senhoria naquele momento. E respeitar. E não julgar, nunca. E esse rebolado exige prática, exige a consciência de que as pessoas sorriem e choram por diferentes razões e essas não são mais ou menos importantes que as nossas, certeza besta que não nos cabe. Respirar fundo ajuda bastante, dá uma fresca no interior do peito e deve estimular no cérebro o canal da tolerância e do respeito!

E cada ponto difícil dessa delícia que é compartilhar a existência, ser parte de um grupo que nada junto rumo àquela praia da transformação, é também um ponto a ser celebrado. As dificuldades que moram dentro das relações são como bússolas que, além de indicar direções, instigam nosso movimento, acredito eu. Essa coisa de ser um no meio de muitos e, ao mesmo tempo, soltar os braços do singular pra abraçar o plural, é rica por demais e nos ensina todo santo dia. Meio que como viver em família mesmo, mas numa proporção e intensidade um taaaaaaaanto diferentes.

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O fato é que temos aprendido muito aqui nessa nova casa tão cheia de árvore, bicho e gente. Temos compartilhado a educação nos nossos filhos com pessoas cheias de consciência e de alegria, gente que espalha amor e carinho por onde eles passam. É lindo ver Tomé saindo de casa cheio de liberdade e voltando todo dia com uma nova informação sobre um pássaro, uma planta medicinal ou uma bioconstrução. Nina se mostra cada vez mais curiosa e atrevida em seu caminhar e na percepção do imenso entorno verde. Os dois, assim como nós, sentem que a família cresceu, agora somos muitos dentro dessa casa e nosso lar continua sendo onde nosso coração está.

A natureza continua sendo nosso guia maior, aquele que ensina em silêncio, muitas vezes apenas pela presença que basta. O tempo dos seus ciclos, a delicadeza das suas transformações, a força que reverbera e a harmonia bonita entre seus elementos tem sido nossa maior inspiração. Esse é o maior coletivo daqui, a mais doce dança entre espaços ocupados e seres ocupantes, todos regidos pela mágica do respeito mútuo.

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Estamos bem, muito melhor que antes, nem tanto quanto amanhã. Estamos aqui e agora, estamos vivendo esse momento de troca, reciclagem e imersão no outro. Gratos, muito gratos pelo universo que tem sido tão generoso com nossos caminhos, nos oferecendo ferramentas vivas para nos transformarmos na mudança que queremos ver no mundo. Tenho pra mim que a coletividade é bonita por demais, sem ela não conseguiria entender a grandeza do todo, não seria capaz de me doar com verdade, não me permitiria ser com tanto afinco. Hoje a minha carta ao universo, a minha gratidão, tem como destinatário esse coletivo que abraçou a mim e aos meus. Que nossa missão, como família e como agentes da transformação na qual acreditamos, seja sempre enfeitada com o respeito e o amor que sentimos pela natureza desse lugar.

Hoje todo o meu amor mora aqui, espalhado pelos quatro cantos da coletividade que me ensina a ser melhor, pendurado em cada galho dessas árvores que me instigam a ser maior.

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O amor livre

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Sinto que esta é uma boa hora para falar sobre ele. A princípio, porque é o primeiro texto de 2015 e nada mais justo que ele venha enfeitado daquilo que desejamos ao mundo inteiro nesses 365 dias do novo ano. Depois, e principalmente, porque hoje consigo verbalizar com toda a minha verdade o que esse sentimento representa para mim e pra nossa família. É importante dizer que esse devaneio particular e atrevido sobre um sentimento tão universal é escrito à quatro mãos, eu e Hugo pensamos e sentimos juntos cada palavra derramada aqui.

Há tempos enxergamos que o amor é a chave de tudo, a tampa da panela, o X da questão, o pingo do i. Foi ele o fio condutor para nossas maiores conquistas, nosso encontro de almas, nossos filhos, nossa felicidade. Mas, mesmo sem saber e muito satisfeitos com o que já tínhamos, não conhecíamos o amor puro e genuíno. Vivíamos então, até o tempo mágico dessa descoberta, um amor vestido com roupas sociais, amarras, tabus, gêneros, pré-conceitos, sexo, medidas, imposições, obrigações e zilhões de “acessórios” que o impediam de ser puro, pelado, ser só o amor em sua essência e verdade absolutas.

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Foi então que Hugo, com toda a efervescência da revolução que pulsa em seu peito desde sempre, me propôs a reflexão sobre o amor livre. Me senti tão perdida nessa hora que minha cabeça rodava em círculos e não conseguia imaginar outro fim pra mim senão cair de tontura no chão. Começar a pensar o amor despido de amarras sociais dentro de um relacionamento romântico, um casamento tradicionalmente monogâmico é como começar pela pior (leia-se melhor) parte, árremaria! Antes do sim ou não para essa aventura, meu peito gritou pela necessidade de entender melhor o que o amor livre queria me dizer e onde poderia nos levar. Me joguei então nos diálogos intensos com o Hugo, li muita coisa na internet, ouvi a experiência de amigos, respirei fundo e fiz silêncio.

E foi esse silêncio que trouxe o entendimento que eu mais precisava e nenhuma palavra lida ou ouvida havia trazido ainda. A clareza de que esse sentimento genuíno não deveria existir somente como opositor ao amor romântico, mas sim como algo infinitamente maior, algo que gostaríamos de ensinar aos nossos filhos e espalhar pelos sete mares. Além disso, a certeza de que todos nós viemos a esse mundo com o coração cheio desse amor puro, ele sempre foi meu, era só um momento de sacudir a poeira da vida e redescobrir esse tesouro. Então meu peito se abriu como um portal e começamos nossa caminhada de mãos dadas rumo à liberdade que nos foi negada pela crueldade dos tabus sociais.photo 4

Não, não foi e ainda não é 100% fácil se despir de algo que você acreditou a vida inteira, mesmo que por falta de opção. E, como já disse antes, começar a prática desse processo dentro do casamento é ainda mais complicado do que dentro de qualquer outro tipo relação. Mas é também a mais intensa, a mais profunda, a mais bonita, a mais real e talvez a mais necessária.

Foi foda entender toda a imensidão do desapego, descobrir que ele anda de mãos dadas com a confiança no amor que se constrói diariamente, sacar que a felicidade do outro não mora única e exclusivamente em você e na relação que vocês têm, e nem a sua! Foi uma paulada na orelha deixar o outro ir, se permitir ir também sem se deixar vencer pelo medo de ninguém voltar. Foi dolorosamente libertador entender que, se você realmente ama alguém, você respeita a liberdade desse espírito e ama tudo o que o faz feliz, mesmo que não seja ou não venha de você. E tudo fica mais claro ainda quando você tira o seu umbigo do centro do mundo e entende que o egoísmo é carro sem freio em ladeira abaixo. Libertar o outro só é genuíno quando você se permite essa liberdade também, a coisa só funciona quando é boa para ambas as partes. Confesso que, sem o suporte do Hugo e a certeza do seu amor sem medida, as coisas teriam outro tom.

O ciúmes, o apego, a fidelidade prometida, o medo, a insegurança, o contrato, tudo isso esconde a pureza do amor e o condena a uma vida leviana. Não é justo que sejamos esse sentimento opacoh quando ele deveria ser o brilho que conduz toda nossa existência.

Passado esse primeiro momento de nos despir da sujeira acumulada por anos nas paredes do nosso coração, é hora de deslizar na suavidade desse amor livre, genuíno e verdadeiro. Um processo lindo de ser a verdade que buscamos nos outros, a verdade que queremos mostrar aos nossos filhos como a opção que nunca tivemos. Amar sem arestas é como multiplicar por mil a grandeza desse sentimento universal. É bonito por demais ver a coisa se alastrando, ver as energias comuns se atraindo, seu ciclo de amigos crescendo de gente aberta às aventuras do mundo.

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Hoje somos infinitamente mais felizes que antes, somos mais completos um no outro e nos pertencemos com a força do vento que corre solto. A liberdade é a maior prova de amor que qualquer relação pode ter, a consciência do amor genuíno é indescritivelmente libertadora. É fato que ainda nos esbarramos em algumas esquinas, percebemos tropeços, nos permitimos conversas e insatisfações. Nenhum processo é tão simples que se resolva em pequenos passos do ponteiro. Ainda estamos caminhando, ainda estamos nos construindo como espíritos inteiramente conectados à força maior do universo, o amor.

Sentimos que nos conhecemos mais como homem, mulher e parceiros que somos. Estamos tão próximos que nos vemos dentro, sempre de olho na distância leve dos respiros individuais. Respeitamos mais nossos desejos que pulam vivos do peito direto pra boca, sem nenhum receio de mágoas ou proibições. Vivemos e nos entregamos por inteiro, dormimos e acordamos um nos braços do outro sempre certos de que assim será pelo tempo infinito que durar, e que será sempre puro feito água da nascente. Oferecemos ao nosso amor tickets de viagem para destinos desconhecidos e, toda vez que ele volta, chega maior e mais bonito, volta mais forte e certeiro.

Sem a mínima intenção de catequizar o amor livre, deixamos aqui nossa experiência pessoal na intenção de levarmos esse questionamento pra frente. Sim, o amor precisa ser uma pergunta, acima de tudo. Como, quando, onde, por quem, por que, de que forma, mais, menos, leve, pesado, verdadeiro ou não. Permitir o questionamento é caminhar rumo à transformação, principalmente quando é possível fazê-lo sem o peso do julgamento precipitado.

Então, que possamos amar mais, que sejamos a mais pura essência desse amor, que sejamos mais a verdade que esperamos do mundo, que consigamos nos transformar em espíritos mais evoluídos e amáveis, que sejamos valentes para nos despir das terríveis amarras impostas, que possamos respeitar mais a liberdade de ser.

Ninguém é amor pela metade e ninguém é livre sozinho!

Sejamos!

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A família

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Uma das coisas que mais tenho pensado ultimamente é sobre regressar ao ninho. Depois de saírmos da Chapada, estamos passando um tempo em Minas, onde nascemos e fomos criados com asas, estas que nos levam e trazem de volta quando não sabemos o rumo certo a seguir. Um porto seguro sempre vai ser um porto seguro quando nele se enxerga o amor. Aqui, nesse caso, a família e os amigos são nosso colo e muitas mãos estendidas pra abraços, trocas e puxões de orelha necessários.

Quando eu e Hugo saímos daqui, há um bom tempo atrás, ainda éramos singular e a família ainda era um núcleo do qual fazíamos parte. Hoje somos plural, temos dois filhos e nossa própria família. É claro que ainda somos filhos, netos, irmãos, primos. Mas também somos pais e estamos aprendendo a colocar uma coisa dentro da outra, visto que esses laços familiares não se rompem quando você constrói seu próprio ninho.

Na real, esse aprendizado tem sido mais intenso do que imaginava, talvez por ter vivido tanto tempo fora de casa e agora voltar em outra “configuração”. A gente cresce com uma obrigação intrínseca de viver uma vida feliz em família, de sermos bem resolvidos nas diferenças dentro desse núcleo, de esconder as dificuldades da convivência porque é feio e errado não ser ou estar feliz com esse grupo de pessoas. Não é porque existem brigas, problemas, mágoas e tristeza que não existe amor. Muito pelo contrário, é porque o amor mora ali, do começo ao fim, que as coisas ruins se permitem acontecer: porque o remédio pra elas a gente sabe que tem e enfrenta os leões sem medo pra ser cada dia melhor pro outro.

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Tem sido uma aventura na corda bamba viver minha família perto da minha família, se é que você me entende. O tempo inteiro as relações se misturam, a filha que eu fui, a mãe que eu sou, a filha e a mãe que eu tenho, meus irmãos, Tomé irmão da Nina, meu pai, o pai dos meus filhos, meus avós, meus pais como avós. Um emaranhado de memórias que vão e voltam, questionamentos sobre o passado para tentar garantir a clareza do presente, comparações, expectativas a serem correspondidas ou ignoradas, descobertas de feridas abertas, outras curadas e silêncio.

Talvez essa volta pro ninho tenha acontecido em boa hora, pra poder descansar de um susto em solo e colo firmes, pra poder revisitar esse lugar família que a distância geográfica não me permitia enxergar como deveria. É estranho e muito necessário ter que sair de um espaço para poder reconhecer que reformas precisam ser feitas. E eu bem acho que a mágica da coisa mora por aí, porque família é pra sempre, se a gente quiser. E tudo aquilo que nos proporciona o bem e nos desperta a vontade espontânea de um retorno no mesmo tom, merece ser melhorado todo dia, mesmo que a trancos e barrancos.

Se hoje a minha busca é também por poder ser uma pessoa cada dia mais consciente, leve, forte e cheia de amor da cabeça aos pés para meus filhos, é necessário reconhecer que alguém também já fez e ainda faz isso por mim. Esse reconhecimento é extremamente natural porque se manifesta pela gratidão e amor pelos meus. No fundo, o que eu queria mesmo, era derramar nesse divã aqui a admiração, o afeto, o respeito e o amor incondicional que sinto pelos meus irmãos e, especialmente, pela minha mãe. Dizer a eles que nossa união vai ser pra sempre celebrada com o melhor que tenho em mim, mesmo que distante da rotina em família. E se hoje vivo essa liberdade de ser e estar onde quero com meus filhos e meu companheiro, é porque tenho dentro do peito a certeza de que minhas raízes foram bem plantadas, que boa parte de mim é feita dessas pessoas.

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Mamãe, Branca, Fio, Bê, Gabriel e papai: gratidão eterna pela liberdade de nos permitir. Pela liberdade de crescermos longe da obrigação de sermos uma família perfeita. Pelo entendimento e consciência das nossas vontades, dos nossos caminhos, das nossas responsabilidades. Pelas discussões que levam ao crescimento, pelas risadas que compartilhamos em tardes de café quando estamos juntos. Gratidão pelo sentimento de nos pertencermos, pela força desse sentimento. Gratidão por tudo o que ainda não descobrimos ou não vivemos, por tudo o que ainda seremos. Somos uma família feliz porque queremos e buscamos isso, porque nos respeitamos e temos dentro de nós o doce e mais puro amor. E que sigamos nesse caminho florido, entendendo que nada é tão fácil quanto parece, mas que somos uns dos outros e isso é mais que suficiente para sermos a família que queremos ser. Meu amor pra vocês, nessa e em todas as outras vidas que ainda nos encontraremos!

Foto do querido Athos Souza.

Foto do querido Athos Souza.

O recomeço

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Não sei nem por onde começar a contar sobre esse final. Talvez dizendo que preferimos chamá-lo de recomeço, essa palavra já é velha conhecida e não nos intimida nem um tico. A vida deu uma cambalhota, uma rasteira, um empurrão, um sacolejo nos ombros, um aviso, uma oportunidade, uma escolha. Outra vez, todo dia, pra sempre, escolhas. As terras onde moramos na Chapada foram vendidas e, no tempo de um susto, tivemos que decidir o próximo cenário da vida. Sim, eu sentei embaixo do pé de pitanga e chorei. Mas o choramingo foi breve porque a gente tem dois mininu pra criar e uma vida inteira pra ser feliz.

A vida tá pedindo pra gente furar a bolha verde e, quando ela nos disse isso, alguma coisa lá dentro do peito consentiu com uma  força estranha. E, quando isso aconteceu, a gente se deu conta de que um sentimento novo estava começando a dar as caras, de que estávamos precisando colocar em prática o que esse tempo aqui nos trouxe de teorias. Demorei tanto tempo pra vir aqui derramar esta despedida porque ela demorou um tanto pra se fazer pronta no meu peito, foi foda fazer essa viagem forçada pra dentro e voltar mais forte pra continuar seguindo estrada. Peço mil desculpas pelo sumiço e agradeço de coração todas as mensagens lindas que recebemos nesse tempo fora do ar, essa energia boa chegou aqui em forma de abraço apertado e aconchego.

Mas eu sempre fui muito intensa em meus momentos, crises, processos e minha cabeça trabalha em conexão com meu corpo, costumando ter o tempo deles de assimilar as mazelas e bonitezas dessa vida bandida. Agora, depois de quase um mês longe da Chapada, percebo que o entendimento chegou de mansinho e trouxe com ele a aceitação, a entrega e a gratidão. Foi preciso me descolar daquele contexto pra poder enxergar bem o que ele foi pra gente durante este um ano de experiência, saímos de lá exatamente no mesmo dia em que chegamos e isso não foi proposital, os ciclos se fecham quando precisam e esse escolheu ser insisivo no data. Foi doído ter que deixar tudo pra trás, confesso. A sensação de ter que sair de “casa” correndo foi como ter o peito rasgado, o chão sumido, meu castelo de areia chutado por vinte pés. É engraçado perceber como a gente se entrega pra uma coisa com tanta alma e acredita prepotentemente que é o único responsável pelo seus caminhos. Mas é nessa que a gente derrapa, porque esquecemos que a vida é que tem razão.

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E, no meio de tanta escuridão, quando a bolha já não era mais verde e sim marrom, esse mesmo universo que nos tirou a certeza de um lugar pra chamar de casa, nos trouxe o azul de um mar cheio de possibilidades. E nos obrigou a repensar nossos desejos e necessidades, nos empurrou pra conversas noite afora, soprou no nosso ouvido boa dose de liberdade, nos fez lembrar que almas ciganas não pertencem à espaços físicos e sim à outras almas ciganas que caminham de mãos dadas rumo à próxima aventura. Aos poucos, meu coração foi voltando ao seu tamanho normal e deixando escorrer pelas milhões de células do meu corpo esse sentimento estranho de perda. Nessa hora, minha mente se ergueu e voltou a trabalhar com força e clareza para pensar a frente, pra imaginar caminhos melhores, pra continuar seguindo com a força de uma leoa que busca o melhor para sua matilha.

Sorte minha ter comigo um cara que ultrapassa todas as barreiras do inatingível, um amor que transcende vidas físicas e espirituais, uma conexão absurdamente forte e longe de qualquer adjetivo que meu vocabulário entende. Sorte nossa termos duas crianças especiais que são nossos guias, que orientam nossas escolhas, que nos abraçam com sorrisos frágeis e são lembretes diários de que não há problema nesse mundo maior que a certeza de que juntos somos melhores e invencíveis.

Passado o susto, ainda aproveitando a lindeza das noites de rede, lua e estrelas da Chapada, tivemos longas conversas sobre o que vivemos, o que aprendemos nesse tempo, o que queríamos e o que não queríamos dali pra frente. Viramos então nossos olhos e nosso coração para os pequenos e sentimos que as necessidades deles estavam mudando, principalmente para Tomé. Aos longo de seus curtos três anos e meio, o bichinho cresce tão rápido que, se não mativermos os olhos abertos, a rotina nos rouba essa percepção do que ele precisa ou pede até com expressões de seu próprio corpo. É lindo demais saber ler um ser tão pequeno e tão importante ao mesmo tempo, é necessário também. E Tomé anda pedindo gente pra trocar, outras crianças pra aprender, outros espaços para explorar, mais experiências diferentes pra lidar, desafios pra enfrentar. Nós também sentimos o mesmo, acho que tanto tempo de isolamento trouxe a sabedoria do equilíbrio, agora precisamos de um meio termo. Alguns excessos são mesmo reflexos da falta, acho que agora conseguimos entender isso bem. Onde sobra silêncio ecoa mais alto o grito.

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Então agora nos vemos diante dessa vontade de conjugar um pouco de cada coisa, de viver em algum lugar onde possamos ter nossa horta e grama verde pra pisar sem sapato, mas também poder praticar essas pessoas que nos tornamos depois de um ano vivendo essa escolha bonita. Ainda não sabemos onde nem quando, estamos respirando com calma e cuidado esse novo destino. Reler esse caderno de devaneios hoje me fez ver tudo diferente, nada melhor nem pior, apenas com a sutileza e grandeza da diferença. Nada foi em vão, nada foi definitivamente ruim, nada foi certo ou errado. Foi como queríamos que fosse, como demos conta de ser, como o amor nos guiou, como escolhemos viver essa experiência.

Daqui pra frente é outra história, e tenho pra mim que mais bonita ainda. Somos uma família unida e, antes disso, somos pessoas fortes com alma inquieta e cheia de luz. Temos um pé na terra e outro no vento, nossa vida ganha sentido na dança do destino, na turbulência das reviravoltas, na força das escolhas, na verdade do amor que vibra cada vez mais certeiro em nossos dias. Seguimos rumo à outra casa, seja ela qual for. Depois disso tudo fica mais forte ainda a certeza de que moramos um dentro do outro, de que podemos ir e vir quantas vezes quisermos, de que espaços físicos são palcos para interpretarmos nossa evolução espiritual e que nossa casa é esse ninho onde a gente se encontra, se perde e se ama tanto.

Sigamos, sempre! Agora um pouco maiores, sem nos esquecer de que somos ainda um brotinho longe de desabrochar flor. Mas é bonito por demais sentir que as raízes são fortes, fincadas num chão de coragem, essa que é nosso passaporte para os mil recomeços que ainda temos vida afora. Aho!

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O primeiro ano

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Em julho de 2013 a gente abria essa gaveta de devaneios e derramava uma despedida. Estávamos quebrando uma barreira, pulando um muro, rompendo bordas, demolindo paredes e fronteiras também geográficas. Como no tempo de um suspiro profundo que circula pelos cantos do corpo antes de sair  do peito, um ano já se passou desde que chegamos aqui. E, pensando sobre o começo dessa aventura, acho que consigo descrever mais como me sentia antes dela do que falar sobre em que nos transformamos ao longo desses 300 e tantos dias. Talvez porque o passado, mesmo que recente, seja o lugar onde guardamos a memória do que já entendemos. O presente, um pouco mais cruel, exige da gente clareza pra conjugar as lembranças do passado+experiências do presente+perspectivas do futuro.

Antes desse divisor de águas éramos uma família em construção, éramos sedentos por uma mudança no estilo de vida, éramos insatisfeitos com os excessos da cidade, éramos desafiados pelo desconhecido, éramos um saco de dúvida misturada à muita coragem. Hoje ainda estamos em “construção”, porém com um entendimento maior de como queremos navegar nesse mar aberto que é um núcleo familiar. Algumas certezas escorreram com a enchurrada quando as chuvas fortes aconteceram dentro da gente, a individualidade vem ganhando espaço e contrariando a ideia de que pra ser juntos tem que deixar de ser um, a verdade chegou como lençol branco que protege a cama onde dorme tranquilo o amor. Nosso estilo de vida mudou da água pro vinho e estamos, ainda, nos embriagando dessa mudança. Como todo bom bêbado, tem hora que trocamos as pernas e  caímos, mas damos boas risadas e nos divertimos dançando a coreografia que o universo nos propôs nesse momento. A cidade ganhou outra conotação pra nós, aos poucos ela foi deixando de ser um monstro de 37 cabeças e nos contando que algumas dessas cabeças são essenciais para o bem estar da nossa. As cidades cinzas não precisam ser lugares de permanência, elas podem ser pontes entre dois terrenos necessários, elas podem ser espaços de trânsito rumo ao seu oposto, passagens bonitas que enchem a mochila com seus excessos pra suprir as faltas de outro canto. Quanto mais conhecemos dessa vida aqui sentimos que o desafio pode ser ainda bem maior, nisso acho que não mudamos muito. É tipo um vício, estamos sempre esperando a próxima dose. E temos dúvidas, só que agora temos bem mais que antes. Isso porque estamos ampliando nossos horizontes gigantescamente, perguntar sobre uma sala é uma coisa, sobre uma casa inteira é outra. Esse caminho tem sido a tapas e beijos, mas também muito forte e de mãos dadas. A conexão com outro coração vibrando junto, dentro e ao lado é ouro nessa missão de buscar evolução e ser feliz na vida! Afinal, viemos aqui pra que, mermão?

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Fazer esse balanço é bem difícil pra mim, ao menos. Porque no meio desse pouco tempo, quase um contrato de experiência, a gente viveu nada e tanta coisa ao mesmo tempo. As crianças também, Tomé e Nina cresceram muito nesse intervalo, de forma bem simples e numa boniteza só. Quando penso pra escrever aqui ou releio o que escrevo, sinto meio um tom de despedida ecoando das palavras, mas esse sentimento vem sem querer, ele nasce a medida que vou soltando as coisas e essas outras escondidas pegam carona e vão se descolando do peito também. No fundo, acho que é bem isso mesmo, estamos dizendo até logo à esse primeiro tempo de vida larga e nos preparando para uma nova jornada. É como se tivéssemos, aqui e até agora, calçado bons sapatos para seguir o caminho que é longo e muito bem quisto por nós quatro. O relógio bateu a hora de olhar pra frente, de buscar algo ainda maior, de deixar a inquietude correr solta pelo corpo sem repressão, de nos desafiar outra vez, de nos perder para podermos nos encontrar diferentes, de ouvir o canto da alma cigana e livre.

Hugo me deu isso dia desses e achei bem bonito, tem muito a ver com nosso agora: “nômade não é forçosamente alguém que se movimenta: existem viagens num mesmo lugar, viagens em intensidade, e mesmo historicamente os nômades não são aqueles que se mudam à maneira dos migrantes; ao contrário, são aqueles que não mudam, e põem-se a nomadizar para permanecerem no mesmo lugar, escapando dos códigos” (Deleuze 2006: 327-328). Se não somos, estamos nômades, quatro nômades unidos por muito amor e prontos pra qualquer viagem, pra dentro ou fora de nós.

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Um ano inteiro cabe coisa demais, inclusive muita gratidão por cada mínima coisa que fizemos, vivemos, descobrimos juntos. Cabe tanta coisa que o tempo ainda não me deu tempo de digerir tudo. E a gente já quer mudar tudo. Mudar é sempre nosso melhor lugar. Então seguimos dormindo terra firme e acordando vento leve, olhando com esperteza para as possibilidades sopradas sutilmente pela vida, nos agarrando à perguntas que nos norteiam, abrindo o peito para que toda a imensidão da plenitude entre e se acomode sem pressa de sair.

Foi libertador, cada amarra desatada nesse processo foi como ganhar asas maiores.

Está sendo imenso, cada grão de entendimento é um afago na consciência.

Vai ser sempre de uma beleza surpreendente, estamos conectados uns aos outros e, dentro de cada corpo, somos espíritos buscando luz e emanando amor.

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A rede

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Esta gaveta de devaneios aqui é meu divã, é nela que entro toda vez que preciso entender alguma coisa que tá acontecendo na bolha verde e no meu peito. Sempre tive a sensação de que quando a gente “fala”, consegue visualizar melhor o sentimento, como se a as palavras fossem o corpo do que perambula lá dentro. Na real, falar nunca foi meu forte, as palavras da minha infância e adolescência moraram muito mais no papel do que na boca. Mas o tempo deu jeito de me ensinar a cuspir as coisas, principalmente as ruins, aquelas que vão criando uma borda preta ao redor do coração quando a gente não põe pra fora. Hoje eu falo mais que a nêga do leite, falo com jeito, falo baixo, falo na hora certa (ao menos, tento!), falo só quando e com quem quero falar. Mas escrever me leva a lugares onde nunca conseguiria chegar pela boca, o texto é onipresente, não tem bordas ou fronteiras, é um registro, uma memória, tem pernas próprias, é falar sem ser interrompido, é entrar em contato com um outro “eu” que escreve.

E essa firula toda pra dizer o quão longe este blog tem ido e pra quão perto pessoas lindas ele tem nos trazido. Gente que  nunca vimos, que não sei do que gosta, que nunca nos viu, que se parece com a gente, que adora nossas criOnças, que chora pitanga comigo, que nos enfeita com energia boa, que pergunta se a gente tá bem, se choveu, como anda a horta, gente que dá dicas, que compartilha conhecimento, escreve mensagens de afeto, reclama da vida na cidade, manda roupa dos seus filhos para os nossos, multiplica os devadeios, entra na nossa casa sem saber, quer ver a gente feliz, manda carta, brinquedo e livro, escreve poesia, preenche espaços vazios e nos faz sentir rodeados por uma multidão quando estamos fisicamente só os quatro.

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Não sei se alguém tem ideia do que é isso, acho que nem eu tenho direito. Essa rede lheeeenda vem sendo tecida diariamente com um carinho que nem dá pra descrever, que é voluntário, que é genuíno, que sinto ser leve e forte, por isso chega aqui de forma tão doce e gostosa de sentir. Não sei contar quantas vezes me peguei pensando na moça que está presa na rotina alucinante de São Paulo e quer criar a filha livre no interior, na menina de 14 anos que se espelha na gente pra desenhar seu futuro, no cara que se inspirou na liberdade das escolhas e pegou estrada sem rumo pra viver a vida larga que a gente tanto sonha. É, acima de tudo, imensamente gratificante fazer parte, em algum momento, da vida de outras pessoas e receber na nossa outras tantas, todos os dias.

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A mágica também mora no cruzamento dessas teias, quando as pessoas se encontram e se identificam nos comentários do blog, quando se esbarram em redes sociais, quando trocam alguma coisa entre si. Eu acho massa e fico toda besta me sentindo correio elegante que cruza caminhos do bem. Então pensei que esse post poderia ser também meio “utilidade pública” e expor coisas bem legais que algumas pessoas, que nos acompanham por aqui, fazem. Como não sei do talento de todo mundo, vou começar a brincadeira com aqueles que já conheço. Algumas são pessoas que já abracei, outras encotrei apenas no mundo virtual, mas todas com muito amor pelo que fazem. Se você também tem uma belezura pra mostrar, deixe um comentário com um link ou coisa do tipo que vou dando update no post e aumentando a lista de coisa boa pra gente se jogar! Então segura que lá vai:

Temco: Marcinha arrasa no artesanato com tecidos lindos, meu queixo cai toda vez que entro no site.

Que Trenzinho!: Patrícia enfeita seu neném com roupas, acessórios e adesivos lindíssimos pro quarto deles, a bichinha tem bom gosto, viu?

Gourmet Chocolates da Sorte: a gordinha aqui morre por um chocolate e a Cíntia me mata toda vez que vejo foto dos que ela faz.

Poeme-se: a Mariana é uma florzinha que derrama poesia na vida da gente e tem uma lojinha virtual com quadros, camisetas, pôsters e mais um cadinho de fofura.

–  Leitura da Aura: Ruah Flor de Câmi (Camila) faz um trabalho bem bonito e intenso pra quem busca uma conexão maior com seu ser, ô lindeza!

Retalho Hand Craft: Thiago tem mãos de fada e faz, entre outras coisas, umas carteiras ecológicas de chorar, espia só.

Inkaiko Bags: as bolsas (e os cintos e as pulseiras e as carteiras e tudo mais) da Mell são uma coisa, eu tenho e amo.

Renata Pineze Fotografia: ela e o maridón tem um olho pra coisa que dá até arrepio!

Retalhos Craft: A Jamile saiu da cidade pra morar no interior com a família também, faz um bocado de coisas fofas pra gente grande e pequena.

Fabu Pires: o cara mora longe, mas eu sonho em ter um quadro dele na minha parede!

Whisgo: essa plataforma é filha de um amigo querido e é um barato! Nela você troca experiências de viagens com outras pessoas, organiza as memórias e informações da sua trip em cadernos e mais um bocado de coisas interessantes. (no Instagram e no Facebook)

– (e mais um tanto que me esqueci agora, sorry, gente!)

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Também queria agradecer, com todo meu coração de melão, a todo mundo que nos acompanha e nos dá força pra seguir seguindo! Eu, Hugo e as crianças sentimos cada sopro de amor que vem daí de fora, abraçamos cada desejo de felicidade que  chega de longe e plantamos na terra cada palavra de incentivo que recebemos, para que crescam e prosperem por muito tempo. A caminha que deriva dessa nossa escolha não é fácil, isso já é sabido, mas fica muito mais leve quando a gente sente que não está sozinho e que, mais ainda, caminha de mãos dadas com tanta gente do bem.

Aproveito a carona pra pedir desculpas pelos comentários que ainda não respondi, tem hora que me perco nessa confusão de casa, criança, freelas e tudo junto ao mesmo tempo agora. Mas sempre leio as mensagens, com olhos brilhando de alegria e satisfação, podem acreditar.

É bonito demais escolher um caminho tão único e receber, em cada curva dessa estrada, flores que vão nos enfeitando de certeza. Tomara que um dia a vida nos dê a sorte de encontrar essas milhares de pessoas que nos lêem todo dia para dar um abraço-quebra-cotela de gratidão em cada uma!

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O aniversário

 

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Tomé fez três anos.

Três anos é tempo suficiente para se dar três voltas completas ao mundo, conhecer culturas incríveis, trocar experiências valiosas, se perder e se encontrar em lugares inóspitos. Há três anos eu dou voltas em torno do meu próprio eixo tentando reconhecer todas as minhas bordas e limites, viajo pra dentro dos buracos mais escuros da maternidade e saio deles cada vez mais forte e cheia de perguntas que me fazem querer voltar. Há três anos vivo, sem ir muito longe geograficamente, as experiências mais intensas de troca, de entrega, de loucura, de choro, de felicidade imensurável, de inconstância, de dúvidas, de amor que não consigo adjetivar, não mesmo.

Três anos é tempo suficiente pra se especializar em algum tema e ser um profissional bem sucedido. Nesses três anos Tomé nos ensinou coisas que nenhum livro ainda escreveu, nos trouxe entendimentos, verdades e aceitações que nenhuma escola poderia proporcionar. Durante esse tempo, fomos matriculados no melhor de todos os cursos, onde não há notas mas sim muitas provas, não há professor melhor que o bom senso, as reprovações nos ajudam a subir degraus evolutivos, o conteúdo é infindável, os alunos sempre serão os mais velhos, por mais que acreditemos estar ensinando o tempo todo. Talvez nunca chegaremos ao “nível” de bons profissionais, quem sabe isso aconteça perto de virarmos algodão doce e ganharmos o céu. Mas, querendo, temos 365 chances de sermos bem sucedidos na montanha russa que é educar e ser educado por um filho. E ser bem sucedido não quer dizer fazer como todo mundo faz ou como a cultura na qual você foi educado te enquadrou. A gente tem é que ter esperteza e silêncio pra poder observá-los todo santo dia e sentir como estão crescendo. São eles os guardiões das respostas que tanto buscamos em revistas, artigos, filmes e uma parafernália de palavras que nos ensurdecem pro que eles nos contam.

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Três anos é tempo suficiente para se tornar gente que fala, anda, pensa, interage e mais um monte de coisas. E nesse tempo, enquanto Tomé aprendia, a gente reaprendia. Por isso eu sempre digo que cada filho é uma chance que a vida nos dá de começarmos tudo outra vez, só que agora de forma mais bonita e inteira. Nós aprendemos a andar com cuidado pelas ruas, a prestar mais atenção aos riscos que podem nos fragilizar, a vigiar os passos que guiam a família toda. Repensamos a forma de nos alimentar para instigar, de forma bem natural, o aprendizado do alimento saudável e benéfico pro corpo. Reconhecemos o poder e a energia das palavras, nos vigiamos para medí-las e fazê-las nascer da boca de forma consciente, ponderada e cheia de verdade. Além disso, mais um mundo de coisas que fomos aprendendo com e por ele: dormir pouco pra vigiar seu sono, sonhar mais alto pra ele seguir avante, controlar nossas emoções pra ele ter espaço de manifestar as dele, compartilhar experiências pra multiplicar amor. E mais e mais e mais e mais…

Então resolvemos celebrar todo esse tempo de renascimento, esses três anos em que estamos crescendo juntos como pais, filho, família, amigos, parceiros. Sentimos que temos muitos motivos pra isso, ah se temos! Acontece que nunca fomos muito fãs da forma tradicional de comemorar aniversários, dessa fórmula pronta que o capitalismo impôs fazendo de refém nossa criatividade e trocando o verdadeiro sentido da coisa por presentes caros. Sem ninguém pedir minha opinião e sem julgar os que acreditam nessa forma de celebrar (cada macaco no seu galho, beibe!), penso que tudo isso é muito cruel e uma pena!

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Nossa celebração aconteceu no pomar, espaço que papai limpou com muito capricho. Mas, antes disso, ajudei Tomé a fazer os convites do piquenique e fomos entregar pessoalmente nas casas das poucas crianças que moram por perto. Cortamos caixas de ovos, enchemos de terra, plantamos uma mudinha de suculenta, ele desenhou num papel, cortamos em pequenos quadradinhos, eu escrevi data e hora, amarramos com um retalho de pano e pronto! Custo zero e diversão garantida, foi massa ver ele curtindo esse processo todo!

Usamos as bandeirinhas que vovó Tetê havia trazido pra gente há um tempo atrás pra enfeitar o pé de amora, local do nosso encontro. Colocamos a mesa da sala lá fora, fizemos um bolo, biscoitinhos de tapioca e suco de manga do quintal. A ideia foi ninguém trazer presente, mas sim contribuir com o que tinha sobrando na horta, no pomar, na terra. E veio maça, banana, laranja, mandioca cozida, uva e lá vai coisa boa! Juntos, construímos uma mesa farta e uma reunião simples e gostosa, bem como Tomé é e merecia. Ele, que sempre achou que aniversário era um lugar e não uma data (porque já tinha ido a duas festas aqui e imaginava que a palavra “versário” era a casa dessas crianças!), falava o tempo todo que estava tudo lindo e que estava feliz. Bingo! Era isso o mais importante.

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Tomé, meu filho, que a vida seja tão larga quanto seu sorriso de todo dia. Que tenhamos clareza para poder enxergar os melhores caminhos e seguirmos por eles de mãos dadas. Que venham mais muitos anos cheios de curvas, linhas retas, montanhas e estrada afora. Porque sentimos e respeitamos seu espírito livre, a grandeza da sua alma, a força da sua personalidade, a bondade que já brota forte no seu coração. Gratidão por tudo que conseguimos ser e fazer até aqui, por toda a luz que você nos direciona, por todo o amor diário e sem tamanho que você derrama em nosso peito. É com ele e por ele que buscamos ser melhor, ser completos, ser família, ser essa delícia que a gente saber ser juntos. Renascer há três anos atrás foi o melhor presente de todos, que esse sentimento seja multiplicado a cada 365 dias, por uma vida inteira.

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A gratidão

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A vida me deu de presente, na época da faculdade, amigas dessas que a gente guarda naquele porta-joias com pedrinhas de brilhante herdado da bisavó. E uma delas sempre trilhou um caminho bem corajoso de viajar pra dentro de si mesma em busca do auto-conhecimento e espiritualidade. Foi dela que ouvi, pela primeira vez, a palavra gratidão em seu verdadeiro e mais puro sentido. Por essa nossa mania cruel de pré julgar tudo o que é diferente a primeira vista, a troca de “obrigada” por “gratidão” em nossas conversas me soou pra la de gíria hippie jagatá. Pobre de mim e de da minha falta de sensibilidade!

Foi então que o tempo veio me dando a clareza do entendimento, bendito seja meu camarada. A gratidão é um lance tão grande que a gente demora mesmo pra sacar o que é, que não se compra ou pede emprestado, só existe se for genuíno.

Eu venho pensando muito nisso, venho me aproximando da gratidão de forma já nem tão tímida e percebendo que ela tá muito mais na minha vida do que imaginava. Outra surpresa foi dar de cara com ela nos momentos de perrengue, em todos. A medida que reconhecemos os sentimentos, vamos, inevitavelmente, fazendo conexões entre eles e acreditando que cada um tem seu porque no todo (até aqueles fédazunha de doído tem!). Daí pra achar o diamante no meio das pedras é um pulo! Agora me diz se esse sentimento não é tão nobre que mereça gratidão? Tomar tapa na orelha e achar bonito parece utopia, mas outro dia li não sei onde algo tipo “pra que serve a utopia se ela mora no horizonte e esse é inatingível?” E a resposta era: “pra caminhar”. É isso! Se tudo vale a pena quando a alma não é pequena, beibe, segura na mão da utopia e vai.

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Ser grata pelas coisas e pessoas que somos é meio que dizer sim pra vida, é dar carta branca pra ela continuar esse fluxo mágico e doido de experiências que nos empurram degrau acima numa evolução necessária. Gratidão é uma carta de amor ao universo e dá pra escrever uma por dia, mas isso também é uma escolha. Eu gosto de pensar que o caminho pode ser sempre mais leve e que, se essa possibilidade existe, prefiro desprender minha energia nela. Talvez seja por isso que encher o peito de gratidão e espalhá-la pelos cantos da rotina tem me ajudado tanto. Porque quando somos gratos somos mais completos, a gratidão diminui o desconforto da não aceitação.

Mas pra falar que é ou que tem é preciso sentir com verdade, senão é auto boicote. As palavras ganham vida na boca mas, quando não saem lá de dentro, já nascem mortas. E assim é também com a ternura, com a compaixão, com o afeto, com o zelo, com um monte de sentimentos que a gente deixa num canto pegando poeira e se esquece de que juntos sabem ser bem melhores. Juntos eles nos tornam todo dia melhores.

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Aqui na bolha verde a gratidão tá nadando de braçada! Mas não só pela beleza do cenário, pelo alimento orgânico, pela infância livre, pelo silêncio da noite, pela rede na varanda ou pelo sossego no peito. Mas principalmente por ter se mostrado um sentimento tão presente nos momentos de turbulência. Quando a horta dá errado, quando as crianças estão insatisfeitas, quando o coração tá inquieto e pedindo colo, a gratidão aparece ali misturada com uma avalanche de outros sentimentos típicos de crises e caos. E é de uma riqueza sem fim conseguir peneirar essa mistureba toda e separá-la dos demais. Colocá-la ali num cantinho, botar roupa quente e se apegar a ela. Não se apoiar de modo que o restante do processo seja ignorado, mas caminhar ao lado já é um conforto e uma força que a alma agradece.

A gratidão é parceira ponta firme dessa evolução que buscamos para nos tornarmos melhor toda manhã. Sem ela os degraus parecem maiores, os muros mais altos, os cantos mais escuros. Quando ela aparece é sinal de que meio caminho já foi percorrido e que o peito da gente tá aberto o suficiente pra recebermos a clareza e o desprendimento necessário para crescer mais um cadinho.

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Então eu abri a porta de casa e deixei esse sentimento tão bonito entrar. Hoje eu sou imensamente grata por tudo o que a gente tem vivido, e tudo quer dizer a parte doce e a azeda também. Uma coisa ajuda e complementa a outra, só se sabe o que é escuro porque existe o claro. E eu quero mais é soltar mil cartas de amor ao universo a vida inteira, sejam elas cheias de sorriso largo ou de chororô. O importante é que nunca me faltem motivos pra ser grata, pra saber honrar esse sentimento e a vida que tem me ensinado tanto entre um tapa aqui e um beijo ali.

Camila, irmã jagatá que eu amo tanto, minha eterna gratidão por esse encontro!

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O sumiço – II

 

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Sumimos, né?

É que o mundo subiu no telhado por aqui, árremaria!

A gente tá num momento de reorganizar as gavetas, tirar poeira, jogar água, colocar coisa nova no lugar das velhas, repensar, transformar. E esse momento tá pedindo um silêncio, uma calmaria no ninho, atenção redobrada pra tudo aqui dentro.

Então peço desculpas pelo sumiço e prometo que logo a gente volta com alguma coisa a dizer sobre mais esse momento que estamos vivendo aqui.  Também não me esqueci dos comentários que ainda não respondi, uma hora eu chego, tá?

Gratidão pelo carinho que voa até aqui todo dia, essa energia boa que rola faz um bem danado pra gente!

Um beijo de bom dia em todo mundo!

A mulher

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O exercício de se desprender de certas coisas parece ser infindável por aqui. Quanto mais tempo ficamos, mais nossa percepção sobre algumas relações vai mudando e exigindo da gente uma faxina interna daquelas de suar a camisa. Estamos meio cobra trocando de pele, aumentando um gominho na ponta do chocalho, amadurecendo e ficando (ao menos tentando) mais bonitos internamente. Muitas vezes tudo isso nos dói, muitas mesmo. Mas sabemos onde queremos chegar e essa certeza sopra no ar toda a poeira fina e marrom que acontece no caminho.

A bola da vez pra mim é a figura feminina (Hugo também tem os processos dele e uma hora ele chega pra derramar isso por aqui também!). A mulher que eu era, a que elas são por aqui, a que eu sou e a que eu quero me tornar, a que minha filha pode aprender a ser e meu filho a respeitar. Esse bolo de questões me leva pra uma viagem bem intensa láááááá  pra dentro, e essa é sempre hora de apertar os cintos, ai! Então achei melhor melhor começar pela observação, pelo silêncio antes da interrogação ou da afirmação, pelo peito aberto que evita o julgamento e o auto flagelo.

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As mulheres daqui são espinhas dorsais fortes e eretas. Elas estão na arrumação e limpeza da casa, no cuidado rotineiro com a fragilidade dos mais velhos, debaixo do sol forte batendo enxada na plantação, na feira vendendo a colheita, na educação dos filhos, num bico ou outro fira de casa, na beira do fogão a lenha, nos problemas a serem resolvidos na cidade, na cama do marido. Sem elas os maridos, filhos, genros, sobrinhos, netos e irmãos seriam bem menos fortes para dar conta de todo o resto (que não é pouco também). São elas as guardiãs do bem estar masculino, a outra roldana da harmoniosa engrenagem família.

Meu lado queimador de sutiã, que veio de uma vida independente, trabalhando sempre fora, sem muita cozinha ou tanque, quase nada de tempo para se dedicar ou entender como se cuida (bem) de um lar ou de um marido, tem abaixado a cabeça e encontrado outra forma de ser mulher por aqui. Aos poucos, começo a perceber que o conceito de submissão não tem nada a ver com o que se vê nas relações por aqui (ou que eu, infelizmente, aprendi por aí), que coisa de mulher pode ser sim coisa de mulher e que ela não precisa fazer nada além daquilo pra provar alguma coisa pro homem dentro ou fora de casa. Que existe uma aceitação plena do seu espaço e que isso não esbarra num orgulho ou numa necessidade de ser mais ou ser diferente. Muito pelo contrário, elas são conscientes da importância do trabalho que fazem e não almejam outra posição porque ali é o lugar onde conseguem esparramar todo seu amor pelos seus. Cuidar tão de perto, de muita coisa, de tanta gente, com tanto afinco, todo santo dia, durante uma vida inteira, não é para qualquer um.

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E eu acho isso lindo, como nunca senti antes. Porque tô começando a entender e querer me doar pra esse lugar com toda vontade que vibra aqui dentro. Tô trocando de pele e deixando ruir uma mulher que vivia do lado de fora de casa pra tentar erguer outra que da o sangue por esse ninho cheio de trabalho feio com amor. Não há de ser uma rotina fácil, cansa, exige disciplina diária, coragem e paciência. Mas em troca vem coisa que eu nem sei contar aqui, coisa que eu ainda vou descobrir e sentir com o passar do tempo, coisa que eu já consigo perceber me enchendo de satisfação. E, na real, é isso que importa mesmo, não ser uma regra ou uma exceção, mas ser aquilo que se quer e da conta de ser. Eu escolhi ser dona de casa, ser zeladora do meu castelo, protetora dos meus pintinhos, escudeira fiel do meu companheiro. Optei pelo que creio ser o desafio mais gostoso, pela adrenalina da transformação, pelo que eu acredito e não pelo que me impuseram ou me disseram que era pouco para uma mulher.

Então é dada a largada, que venham as delícias e mazelas desse caminho novo, dessa nova figura feminina. Me desejem boa sorte, porque amor pra renascer e seguir tentando evoluir a gente aqui tem pra dar e vender!

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A viagem

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Depois de nove meses saí da Chapada para voltar a Minas, rompendo, pela primeira vez, as barreiras dessa nossa bolha verde. Por isso andei ausente aqui do Notas e também por isso voltei correndo, pra tentar organizar em palavras esse furacão que a viagem provocou no meu peito. Tem hora que eu preciso cuspir as coisas pra entender melhor o que elas são e como estão em mim, e as palavras sempre foram melhores aliadas nesse processo. Então, meu bem, senta que lá vem chumbo grosso! Rá!

O que botou meus pés na estrada foi o Festival de Fotografia de Tiradentes, um freela que já faço desde 2011 e que esse ano me deu a delícia de uma exposição com algumas fotos de Tomé. Então, casquei no cerrado com Nina, o irmão dela, uma malinha vagabunda de roupas, muita animação e um borboletário inteiro no estômago. Tive a sorte de ter comigo nessa empreitada uma amiga/irmã que veio de Sampa e minha santa mãezinha para ajudar a dar conta do recado filho 1+filho 2+ trabalho (sem essas boas quatro mãos extras a mamãe polvo aqui teria perdido metade da juba!).

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Fiquei 10 dias longe de casa e, se ficasse 11, teria um mini infarto, confesso. Esse momento fora daqui foi um cacho de sensações que ainda está dependurado aqui dentro. Vou descascando uma por uma, amassando, sendo amassada, misturando outras coisas, engasgando com o doce e o amargo, tirando as partes podres, devorando com boca boa, enchendo a barriga. Foi lindo rever os (bons) amigos e perceber que a saudade hoje é diretamente proporcional ao amor que nos une além mar. Revisitar a casa da mãe e dos avós foi um carinho na alma e um afago na memória, que trouxe de volta até o cheiro de tantos bons momentos juntos. Encontrar gente nova, falar sobre coisas que não terra, planta, praga e bicho, ver mais de 50 pessoas juntas num mesmo lugar, comer uma porcaria ou outra foi divertido e deu um frescor “nas ideia”!

Foi massa também perceber que a coisa do consumo exagerado saiu desse corpo que me pertence e ficou enterrado num pedaço de chão qualquer por aí. Em meio a tanta oferta, loja, coisa, tranqueira, propaganda, atrativos, necessidades inventadas, novidades e tecnologias que deixam a gente tonta, passei batido na vontade de ter alguma coisa. Meus objetos de desejo durante toda a viagem foram um caminhão de madeira, um quebra cabeça e um jogo da memória pro Tomé, além da goiabada cascão pra Hugo, tudo por 60 realidades. E o mais interessante é que foi tudo muito natural, não fiz esforço algum para negar meus desejos, eles só não existiram e ponto. Acho que hoje preciso mais de coisas que preenchem os quereres da alma do que coisas que consigo pegar com as mãos, amém mil vezes!

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Mas, por outro lado, um tanto de coisas me incomodou e me fez viver 10 dias com os pés lá e com o coração aqui. As crianças foram o reflexo dessa confusão e me surpreendeu sentir o quão habituadas e adaptadas elas estão com a vida na Chapada, e esse era o recado que eles me davam diariamente. A cidade (e a cultura que nela vibra) impôs sapato no pé e tirou o pé descalço, xixi no banheiro e não no matinho, calor insuportável sem brisa fresca, muita informação visual e pouco tempo para digeri-la, barulho de carro, buzina, gente conversando e nada de passarinho ou silêncio. Isso sem contar que passei quase 10 noites sem dormir tentando acalmar a agitação da Nina que me dizia, entre um choro e outro, que a calmaria da nossa casa era o melhor lugar do mundo (e toda vez que ela “falava” isso eu me perguntava 24582485 vezes se ela realmente precisava passar por isso. Coisa/culpa/besteira de mãe, deve ser).

Sair daqui foi uma experiência estranha e valiosa, ao mesmo tempo. Hoje sinto como se essa aventura tivesse atravessado meu caminho para me dizer que tô sim na estrada certa. Que nossos filhos parecem estar felizes com a infância que estamos proporcionando a eles, que eu amo demais meu companheiro e que, por isso, a gente precisa deixar nossa relação respirar um bocado da nossa ausência vez ou outra. Que família e amigos são tão delícia quanto dançar na sala like no one’s watching! Sinto que eu comecei a acalmar no peito aquele sentimento insistente e desbotado de não pertencer a lugar nenhum. Que eu pertenço mesmo é ao meu amontoado de amor Hugo+Tomé+Nina, nesse lugar eu fico linda, loira e japonesa.

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Minha gratidão e meu amor eterno à mamãe+irmãos, vovó+vovô, amigos+seus filhotes, Festival de Fotografia de Tiradentes+equipe linda por toda a delícia que foi (re) vê-los e morrer de rir, inclusive da saudade que sentimos uns dos outros.

Sair foi bom, mas voltar pro aconchego da nossa bolha verde foi muito melhor!

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O sumiço

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Gente, ando meio sumida deste devaneio sem fim que é o Notas. Mas é que andei viajando e só agora voltei pra casa, ufa! Tô organizando a vida dentro e fora do peito e já venho contar como foi esse primeiro rompimento da bolha verde!

Beijo pra todo mundo!

Manu

O orgânico

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Desde que chegamos aqui, plantar nosso próprio alimento esteve no topo da lista de “prioridades”. Não só porque temos espaço de sobra pra isso, não só porque é um “hábito” de quem mora na roça, não só porque queremos diminuir nossa lista do supermercado e nossos custos ao final do mês. Mas porque queremos e precisamos nos alimentar bem, porque entendemos que o que vem do quintal de casa é imensamente mais colorido, gostoso e saudável do que aquilo que se encontra numa prateleira, porque é uma delícia plantar e ver a dupla natureza+tempo transformar aquela semente minúscula numa cenoura cheia de vida, porque a saúde dos nossos filhos merece o respeito e o cuidado de uma alimentação rica e completa, porque a gente cansou de ser “cúmplice” das empresas que dominam o mundo de forma tão suja e desleal (porque é isso que fazemos quando compramos algumas marcas).

Mas plantar de acordo com a agricultura tradicional não condiz com nossa vida verde aqui na Chapada. Se viemos, queremos, nos propusemos e somos, então que façamos direito e bem feito! O uso de agrotóxicos e qualquer tipo de fertilizante químico não faz parte da nossa rotina, optamos mesmo pelo plantio e consumo de alimentos orgânicos. Isso é lindo e música para os ouvidos de muita gente, mas é também um caminhão de dificuldades que se carrega nas costas, árremaria! Confesso que há um tempo atrás quase desistimos e chutamos o pau da nossa barraquinha natureba, mas a gente é osso duro de roer, balança mas não cai, enverga mas não quebra. A coisa é meio que aquela história do capetinha pendurado na orelha esquerda e o anjinho na direita, um te jogando na cara os problemas e outro te soprando os benefícios. Mas a gente gosta mesmo é de ouvir o coração e ele sempre fala (grita) mais alto por aqui. Então atrasamos todo o nosso plano de plantio para poder seguir nossa caminhada livre dos químicos, eca!

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Aqui na região as famílias plantam de tudo um pouco. Os que produzem em grande escala usam agrotóxico, os menores só fertilizantes químicos, outros só pulverizam contra pragas, mas todo mundo tem um dedo, uma mão ou um braço no “veneno”. Mas isso é quase uma “tradição”, as formas de cuidar da terra vão passando de geração em geração e hoje é bem difícil quebrar essa corrente para mostrar algo diferente. Apesar de não acharmos o mais legal, respeitamos e vamos, como quem não quer nada, mostrando uma nova possibilidade aqui e outra ali. O que não se pode é fechar os olhos para esse tempo todo de mão na terra que eles têm, são todos meio que pequenos tutoriais ambulantes e eu uma metralhadora de perguntas atrás deles. Eles também respeitam nossa opção pelo orgânico, nos alertam sobre as dificuldades e são super curiosos com as novidades que trazemos da internet.

Mas o que eu queria dizer mesmo nesse tagarelar sem fim, é que pra plantar de acordo com os conceitos da permacultura, sem nenhuma interferência de produtos químicos, com todo o cuidado e respeito que a terra precisa é coisa pra macho, meu bem! A gente tem sofrido na pele (olha o drama!) as dificuldades dessa escolha e tem aprendido cada dia mais com todas elas. Na prática, o que torna tudo um pouco mais trabalhoso são coisas do tipo: temos que produzir nosso próprio adubo, isso implica em grandes e trabalhosas composteiras. É preciso adubar a terra quase de 15 em 15 dias, uma frequência diferente de quando se usa um fertilizante químico.  O combate às fédazunha das pragas que aparecem é feito com “rondas” diárias em planta por planta e com muito caldo de pimenta+alho+fumo+paciência+outras mandingas! E mais algumas coisinhas, mais alguns estudos e estudos e estudos (e eu tenho um marido que é ninja em estudar!). Isso porque a “receita” de uma produção natural existe, mas ela pode dar certo ou errado, exigir um ajuste ou outro dependendo do contexto chuva+sol+terra+vento+altitude+lua e daí vai.

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Então, depois de chorar tanta pitanga, eu te digo que ainda assim vale muito a pena! Porque essa forma de cultivo é a que te coloca mais próximo do verdadeiro ciclo da natureza. É a maneira mais completa de enxergar todo o processo com as belezas e feiuras que ele tem.  Porque a natureza é tão sábia que te exige crescer junto com cada batata plantada, te ensina a ter paciência e persistência que você leva para além da horta de casa. E esse aprendizado tem sido muito enriquecedor, tem se mostrado um caminho cada vez mais longo e nos trazido a lucidez de que estamos apenas no começo dessa estrada.

E te digo mais, não tem coisa mais gostosa nessa vida verde do que aprender a respeitar a terra e vê-la retribuindo com frutos saudáveis. Não tem dinheiro nesse mundo que pague abrir e porta da cozinha e buscar seu almoço no quintal, sentir o gosto fresco e puro dos alimentos, perceber o corpo agradecendo por este bom trato. Então, mesmo que você não tenha espaço para uma super horta em casa, tente plantar alguma coisa que mais consome e se dê o prazer de viver essa experiência linda de plantar o próprio alimento. Agora, se achar que não leva jeito mesmo pra coisa e que isso é jagatá demais pro seu estilo de vida, ao menos dê preferência aos produtores e alimentos orgânicos que circulam por aí. Sua saúde, a natureza e nós agradecemos, porque tá mais que na hora da gente aprender a cuidar mais do que somos, temos e queremos ser!

Ah! E se alguém tiver alguma experiência legal para compartilhar sobre o assunto, a gente vai adorar, estamos doidinhos para aprender mais!

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A grana

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A dependência exagerada do dinheiro sempre foi uma feridinha no nosso pé (pra não falar uma pereba mesmo!). O lance de trabalhar pra pagar contas, trabalhar mais porque as contas aumentaram, ganhar mais porque precisa-se de mais e precisar custa caro, soa pra gente como correr atrás do rabo. Então, quando nos mudamos pra cá, trouxemos na nossa matula o objetivo de tentar algo bem próximo da auto-suficiência. Temos plena consciência de que este é um caminho bem longo, mas sem a ferida no pé fica mais fácil caminhar.

Toda essa firula pra tocar em um assunto que muita gente vem me pedindo por e-mail, mensagem de Facebook e nos comentários deste meu caderno de devaneio: quanto de dinheiro a gente precisa pra jogar a vida bandida fora e começar essa outra história no meio do mato? Pois bem, antes da resposta, algumas considerações beeeeem importantes:

–       pra viver essa vida você tem que estar pronto para se entregar a ela de corpo e alma, não adianta estar aqui com metade do coração preso em uma saudade doída de lá;

–       é preciso entender que este cenário verde não combina com sapato de salto e batom vermelho, se é que você me entende;

–       as necessidades são reduzidas a metade, mesmo porque você não tem um quarteirão fechado de lojas nos 500km mais próximos;

–       o desapego é seu exercício diário, tipo yoga pela manhã;

–       a criatividade tem que ser elevada à máxima potência uma vez que, se realmente precisa de algo que não tem, você pensa trinta vezes nas possibilidades de fazer antes de comprar pronto;

–       a felicidade dos seus filhos não está nas roupas mais bacanudas e nos 184795 brinquedos que falam, pulam e fritam ovos. Reaproveitar peças usadas de outras crianças é a forma mais inteligente de economizar e evitar a pemba do consumismo exagerado, assim como não se compra em loja alguma a delícia de uma tarde com massinha feita em casa e trepação no pé de goiaba;

–       tem hora que você pira em não ter uma reserva no banco pra “se alguma coisa acontecer”, mas meia hora depois passa;

–       “dinheiro é um pedaço de papel que não se leva par ao céu”, um mantra a se aprender.

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E mais um monte de coisas que eu poderia ficar aqui tagarelando por horas, e tantas outras dessa relação que eu ainda nem descobri, uia! Mas, voltando à coisa prática da nossa experiência, vamos começar do começo.

Os cinco hectares de terra foram comprados pela minha sogra e seu ex-marido, ela mora na França e a terra estava parada com a casa ¾ pronta. Viemos e terminamos o que faltava na sua estrutura, acabamento, alguns móveis e outras cositas mas. Também investimos em ferramentas pra trabalhar e todo o sistema de irrigação da terra (canos, mangueiras, bomba de água e uma parafernalha sem fim).

Nossos custos fixos mensais são internet e eletricidade, enquanto não criamos nosso próprio sistema de energia solar, que tá guardadinho na lista de planos atrevidos! Soma-se aqui também um bocado de bosta de vaca. Enquanto não temos a nossa, temos que comprar esterco de outras fazendas para cuidar da horta orgânica, plantas e pomar.

A lista do supermercado vai diminuindo cada vez mais a medida que a gente vai aprendendo a trocar uma coisa pela outra, vai aumentando nossa produção própria e vai abrindo mão de coisas que acreditava não poder viver sem, tipo biscoito Passatempo recheado! Alguns exemplos: Tomé não usa mais fralda e as da Nina são de pano herdadas do filho de uma querida amiga de SP. Lencinhos de limpar bumbum foram trocados por algodão e chá de camomila, que é um super cicatrizante (plantamos a camomila no herbário pra isso também).  Sabão em pó foi trocado pela Wash Ball e o detergente virou sabão de côco pra não sujar a água da pia que irriga as bananeiras. Temos a horta+pomar+galinhas+cabra que nos alimentam bem com sua produção (mas tem hora que acontece de empacar tudo, aafff!). Fazemos iogurte, bolo, geléia e pão em casa, o café a gente troca com o vizinho e por aí vai…

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A grana que trouxemos pra cá foi a venda do nosso carro, algo em torno de 15 mil “realidades”. Todo ele foi gasto com investimentos na casa, na terra e em nosso sustento, lembrando que no começo não tínhamos produção de nada e por isso gastávamos mais. Hoje vivemos com muito pouco e seguimos planejando uma série de benfeitorias muito necessárias em nossa terra. Por isso, enquanto não tiramos 100% do que o plantio nos oferece, contamos com alguns freelas de produção de texto que faço pela internet. Um trampo termina o quarto de hóspedes, outro melhora o galinheiro, outro faz a caixa d’água. E assim seguimos, algumas horas bem perto do olho do furacão, a aprender essa nova forma de viver o dinheiro. O mais importante é entender que não é ele quem manda nessa bagaça! Somos nós que ditamos as regras por aqui e damos a ele o tamanho que queremos dentro de nossas vidas. E não é utopia, não é impossível, é uma escolha, mais uma vez. Talvez enfrentar a grana de frente seja o maior desafio dessa nossa cultura capitalista, pobres de nós! Mas, como me disse o amigo Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem. E isso, mermão, aqui tem de sobra! Rá!

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A liberdade

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Estes dias tem ventado muito aqui na Chapada, um vento forte e insistente que faz barulho e deixa nosso cabelo piaçava mode on. Da janela do meu quarto fico olhando a paisagem enquanto Nina cochila no meu colo. Vigio, em silêncio, a dança das árvores e sinto que essa ventania vem soprando algumas coisas dentro de mim.

Desde que me entendo por gente tenho uma certa fascinação por vento e borboleta. Demorei um tempo pra entender, mas hoje sou certa de que esses foram os primeiros ícones “paupáveis” de uma sensação que me guia nesta vida bandida, a liberadade. Minha infância foi na fazenda dos meus avós, numa cidade-ovo perto de Barbacena, onde tomei durante anos pílulas deliciosas de pé no chão, barro na roupa, corrida no mato, lombo de cavalo, brincadeira na chuva. Acho que lá também fui picada pelo mosquito bicho solto, esse que tem um veneno tão forte que corre no meu sangue até hoje. Depois de crescida, tive meus pais abrindo portas pra mim o tempo todo, me mostrando um mundo lá fora, me dando bases fortes pra sair de casa e ganhar estrada. Nessa hora adolescente, ganhei de presente uma frase que não me lembro bem de onde veio, mas dizia algo tipo “asas pra quem tem, céu pra quem o quer”. Daí em diante nunca mais larguei minha fantasia de borboleta, sendo carnaval ou não, pego carona no vento e desfilo com ela por onde for.

Se hoje paro pra pensar, percebo quantas coisas a liberadade já me tirou nessa vida. Namorados atrevidos que queriam cortar minhas assinhas, amigos que não entendiam vôos distantes, empregos que me exigiam bunda quieta na cadeira por muito tempo, dinheiro que não pagava viagens mundo afora. A liberdade é cúmplice da escolha e da coragem, pra viver e entender a danada a gente tem que sacar que coisas vão pra outras virem. E eu sou completamente a-pai-xo-na-da pela sensação de ser livre, de guiar meus passos, de fazer meus caminhos, de me deixar levar pelo vento, de seguir sem rumo, de abrir mão dos planos, de deixar o acaso falar mais alto, de correr solta, de ser leve.

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Agora a minha liberdade não é mais adolescente, ela tem família, é mais madura e responsável, mas nem por isso menor. A nossa relação de amor agora é em grupo porque me casei com outro bicho solto, porque meus filhos vivem como eu vivi a infância e podem crescer como eu: dando uma banana para a mamãe aos 15 anos e ganhando mundo com mochila nas costas (ai meu coração!).

É fato que a constância da vida adulta tenta rasgar minha fantasia de borboleta frequentemente. Mas eu, que não sou boba e osso bem duro de roer, bato de frente e pago pra ver. A maternidade foi a primeira tentativa mais séria, ouvi inúmeras vezes coisas tipo “ah, menina, agora acabou sua andança! Filho prende a gente por demais!”. Daí pensei eu “consigo” mesma: se ser mãe é algo que pode roubar minha liberdade, a tal da maternindade só pode ser tão boa ou melhor que a coisa que eu mais prezo nessa vida. Sendo assim, vamos ver pra crer, que venham as crianças! E vieram, e quando eu comecei a sentir que poderia mesmo estar com as pontas das asas quebradiças, tratei de pegar as malas e me picar com meu companheiro soltinho na vala que nem eu!

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Hoje, aqui nesse matão de meu Deus, no meio desse nada, cercada de verde, sou tão livre quanto esse vento que sopra na minha janela. Isso porque, depois de tanto tempo de casamento, saquei que a liberdade é muito maior do que o ir e vir. Ela é pra gente aqui a leveza das nossas próprias escolhas, a não culpa ou peso sobre nossos erros, a simplicidade do nosso caminho, a grandeza do nosso amor como família, a força do agora, a não preocupação com um futuro distante, o respeito à individualidade de cada um, o não enquadramento à um rótulo social do qual não gostamos, o prazer de sentir o tempo passar manso, o café com bolo e brincadeira no meio do expediente de uma terça-feira despretensiosa.

A minha fantasia de borboleta pode estar velha, amassada, com um furo aqui e outro ali.  Mas dela eu não me desfaço e é com ela que convido o vento pra dançar essa música tão boa que é a vida. Bora ser livre, minha gente!

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A mãe

 

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Ando tomando uma rasteira atrás da outra da maternidade, vim aqui hoje chorar minhas pitangas com quem costuma, gentilmente, visitar essa minha gaveta de devaneios. Minha doce ilusão de que tudo seria mais fácil nessa segunda viagem ao fantástico mundo das mães virou purpurina no vento. Algumas coisas “técnicas” até são, tipo os truques mágicos para fazer dormir, a habilidade para pegar as coisas no chão com o pé, fazer xixi com neném no colo, trocar fralda em cinco segundos e de olho fechado e mais um milhão de peripércias que a rotina nos ensina.

Até aí tudo bem, acontece que o buraco é mais embaixo (na verdade, mais pra dentro). A montanha russa na qual a gente entra quando vira mãe está hoje muito mais rápida e emocionante com duas crianças em casa e dentro do meu coração, táqueopariu! A começar pelas relações entre nós: pai e filho 1 e 2, mãe e filho 1 e 2, mãe e pai, filho 1 e filho 2. Como Nina chegou há apenas 3 meses, estamos aprendendo tudo isso juntos, cada um no seu tempo e da sua forma, entre tapas e beijos.  Eu, como galinha protetora, fico querendo dar conta de todo esse emaranhado de sentimentos que rolam no meu galinheiro durante nossa jornada de crescer a e como família. Besta que sou, comecei agora a entender que não dou conta (e não tenho que dar mesmo) de resolver os problemas que cada um de nós encontra nesse caminho.

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Então agora soltei um pouco o osso dos outros e foquei no meu, que anda duro de roer, cá entre nós. Aqui em casa a gente funciona meio que como um dominó, se uma peça cai, todo mundo vai junto. Com muita força na peruca e amor pra dar e vender, fui/estou revendo minha posição como mãe nesse quebra-cabeças que é o núcleo familiar:

–       a relação de amor e ódio que Tomé tem com a irmã é dele e eu não tenho muito o que fazer senão observar pra entender e orientar. Ele precisa ser livre prá viver essa novidade e manifestar da forma como bem entender. Ao invés de ficar metendo minha mão atrevida na história deles, agora eu apenas estendo essa mão para dar apoio, prá ele entender que “tamo junto” nessa viagem;

–       também não morro mais de tristeza quando ele olha prá mim e diz que vai à cidade com o pai e que “você não vai com a gente e vai ficar aqui em casa sozinha com a Nina, mamãe”! Diminuí o melodrama em 70% e agora morro de rir, ufa!

–       meu tempo de mulher do meu marido diminuiu um tanto para aumentar o de mãe e pai. O que era uma tragédia grega se transformou na delicada rotina de simples gestos e cuidados que reafirmam nosso carinho como casal. Entre uma tarefa e outra nos encontramos para um abraço de mão suja de terra ou um beijinho com um bebê no meio;

–       o lado muiézinha foi embora e nem me deu tchau. Já chorei muito essa não despedida, mas resolvi me divertir e acho lindo vestir calça suja, calçar bota velha e pegar na enxada com mão cheia de calos. Descobrir que a beleza feminina é tão intensa que se manifesta mais para dentro do que pra fora é libertador por demais, recomendo!

–       tem coisa que só quem é mãe entende, nossos céus e infernos não são legíveis à outras pessoas (principalmente os infernos). Então larguei mão do chororô e da birra por ser incompreendida e decidi capinar um lote para conversar e resolver as coisas eu “consigo mesma”;

–       e tem mais coisa, muito mais. E ainda vai ter mais, muito mais. Avemaria!

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Mas o mais legal de tudo é passar por essa tormenta a cada três meses, é entender que isso nunca vai acabar, é chorar e rir de si mesmo o tempo todo, é perceber que você está mudando, é observar a mudança no outro, é assumir os erros/perdas/vacilos, é ter vontade de tentar outra vez, é colocar pra fora nem que seja gritando sozinha no meio do mato, é olhar pra dentro e não perder a essência de vista, é não desanimar, é buscar lucidez  pra agir, é ouvir o que pulsa no peito, é se atentar aos detalhes, é tanta coisa que eu ainda não descobri o que é.

Amor. É só isso que a gente precisa levar de monte na mala durante essa viagem longa que é ser mãe. E isso aqui em casa tem de sobra, ah tem! E é por isso que, mesmo depois de uma tarde inteira chorando pitangas e arrumando as gavetas do coração, eu fecho os olhos e escuto uma vozinha lá no fundo dizendo pra mim: que tal um terceiro filho?

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O povo

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A vida sempre me presenteou com gente linda enfeitando todos os cantos pelos quais passei, lucky me! É como se nesse processo doido de preencher as linhas do caderno em branco que nascemos fossemos encontrando letras, palavras e desenhos que se encaixam e vão construindo nossa história. Muitas delas me deram conforto, interrogações, alegria, amor. Outras ainda moram em mim pelo incômodo, pela forma como foram espelho e me fizeram descobrir coisas escondidas lá no brejo do meu peito. Na intensa missão de não ser uma ilha, é bem válido levar na mala boa dose de atenção e coragem para entender como, quando e porque as pessoas nos completam.

Aqui tenho vivido o outro de forma bem intensa. Cercada de mais mato que gente, venho aprendendo como nunca o valor das pessoas. O povo daqui é lindo, meu deus! Moramos em uma região povoada por mais ou menos 10 casas e cada uma delas com, no mínimo, seis pessoas. Todas estas famílias fazem parte de uma grande família, todo mundo aqui é parente de todo mundo. Ainda me confundo com tantos laços e acho que Dodô é irmão de Lena e filho de Iázinha quando, na verdade, Lena é esposa de Dodô, que é irmão de Cristiane, que é sogra de Iázinha e a confusão por aí segue. Nós somos os únicos “intrusos” nesse grande ninho, mas fomos recebidos como se sempre tivéssemos sido parte dele. A matriarca de toda essa gente é vovó Zi, uma senhora de 86 anos, nossa vizinha, minha melhor amiga.

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Vovó Zi é uma árvore forte e suas raízes espalhadas por essa terra são pedaços de todo o bem querer que ela carrega em seus imensos 1,50 de altura. Cada filho, neto, bisneto, sobrinho, genro ou nora espalha por gerações a simplicidade, a honestidade, o carisma, o zelo, a honra, o respeito, a fé e o amor que dela brotou. Quando ela entra em silêncio pela porta da nossa casa para uma prosa de final de tarde, é como se uma brisa fresca batesse e limpasse cada canto desse lugar. A leveza de seus passo miúdos é sinônimo da calma que o tempo impôs ao corpo. O câncer na pele é a lembrança constante de uma vida inteira vivida na lida de muié macho. O amor pelas flores e a esperteza para os mistérios da terra são respeito e desejo de envelhecer igual.

Eu sempre sinto que tenho muito a aprender aqui, quando eles pensam que nós é que trazemos conhecimento da cidade. Mal sabem eles que aquele tanto de gente anda meio perdido e sem saber de muita coisa, ao menos se esquecendo das mais importantes. O costume aqui é entrar sem bater porque todo mundo é bem vindo, é levar couve pros vizinhos se a chuva foi boa e a horta tá cheia, é dividir a água da nascente em “partes” iguais, é trocar mudas para que nada deixe de crescer nessa terra, é cumprimentar com olho no olho e aperto de mão firme, é prometer e cumprir, é cuidar das crianças dos outros, é pagar os favores com muita gratidão e um litro de leite ou meio quilo de café fresquinho.

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Tudo bem simples e verdadeiro. E acho que é essa pureza que beira a inocência é que me encanta e me provoca tanto para uma mudança urgente. Ainda dá tempo de ser melhor, agora é a hora de limpar o brejo do peito e buscar nessas pessoas a grandeza que aquela outra vida me escondeu. Aqui a gente consegue imaginar de forma bem clara como o tempo passará em cada um de nós, um rio largo e cheio de força. Espero de verdade que consigamos viver esse povo com a beleza que ele merece e, pra isso, precisamos nos tornar mais bonitos também. E acho que esse seria um bom começo de ano, sabe? Desistir daquela velha e cansada lista do que fazer ou não nos próximos 365 dias e pensar em como SER uma mudança positiva durante cada segundo deles. Nossa família tá pegando carona na grandeza desse povo aqui e te deseja o mesmo, quem sabe assim o mundo ganha de presente mais vovós Zi e fica mais cheio de doçura e amor.

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O perrengue

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Muita gente pensa que nossa vida aqui é um mar de rosas, um conto de fadas, propaganda de margarina. E essa gente toda tá quase certa mesmo, estamos caminhando pra isso porque nós realmente queremos essa vida. Mas todo percurso, tenha ele o destino final que tiver, tem curvas, buracos, quebra-molas, pedras, pneu furado. Conosco não poderia ser diferente, esse caminho longo o qual escolhemos trilhar é uma lindeza, mas tem perrengue também, meu bem.

Então, se ficar o bicho pega e se correr o bicho come, nós optamos por fazer carinho no bicho. Nossa rotina aqui não combina com uma coleção enorme de problemas pesados, chatos, grandes, gordos, insistentes, sofridos, chorões. Isso não quer dizer que eles não existam, apenas existem do tamanho que nós olhamos para eles, do peso que conseguimos lhes dar. Além disso, tem a vantagem do contexto, do cenário onde estamos inseridos, ufa! Aqui o perrengue é mais sereno, menos cruel, mais baiano na rede.

Pra falar bem a verdade, eu tenho uma preguiça danada  de sofrer os “problemas” dessa minha vida. Então, com muita praticidade, a gente enxerga, sente, racionaliza, pensa, age, soluciona e fim. Tudo sem arrastar muitos adjetivos sofridos ou custosos, carece disso não, minha gente! Qualquer tipo de perrengue toma da gente o espaço que nós mesmos lhe permitimos ocupar. Se a gente coloca fermento nele, cresce que é uma beleza e acaba nos consumindo. Se deixamos ele se esparramar sem rédeas, vai molhando tudo e nos encharca. Se o enfrentamos com medo, ele monta em cima. Se o ignoramos, ele se fortalece e nos dá boas rasteiras. Ter problema, na verdade, é um problema seu (meu, dele, dela..). Afinal de contas, assombração sabe pra quem aparece, né não?

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Listo aqui algumas encrencas que têm nos desafiado nesse começo de vida roceira delícia. Muitas delas (a maioria) podem parecer idiotas aos olhos de quem vive outro tipo de vida. Mas é o que eu já disse aqui nesse devaneio sem fim: é tudo uma questão de escolha e nós escolhemos viver “pobRemas” pequenos, simplesmente porque  cansamos e não queremos mais os grandes. Então vou chorar aqui nossas pitangas rotineiras:

–       a chuva chegou e chegou á vista, tá pagando todo o tempo que gastou em outro canto do mapa até chegar aqui. Sem reclamar (porque fizemos muita dança e ovo na janela pra recebê-la), vamos aprendendo a lidar com tudo o que ela trás, tipo: detona diariamente meus canteiros de flor, encharca nossa sala cheia de goteiras, as roupas e sapatos ficam naquela catinga de cachorro molhado;

–       conseguimos virar a terra que estava seca demais mas agora tá tudo parado porque o trator não consegue gradear o terreno que tá molhado demais. Nada de plantação até agora, aaarrrggghhhh!

–       as galinhas deram para fugir do galinheiro, as dondocas vivem comendo nossas mudas e cercando nossa horta;

–       a cabrinha foi picada por uma cobra e morreu. E agora como é que protege nossos bichos desses bichos?

–       entreter um ogrinho de dois anos e meio super/mega/hiper ativo dentro de casa quando o céu ta desabando lá fora é rebolar nos 30;

–       esses fédazunha de besourinhos estão atacando nossas plantas e comendo tudo, da couve ao pé de maçã. Uma bela duma guerra declarada!

–       a caixa d’água esvaziou e tem ar nos canos, nada de água nos banheiros e muitos banhos de balde;

–       a luz acaba quase todo dia com chuva ou sem. Missão banho/jantar/cama de um bebê e uma criOnça a luz de velas é gincana das melhores pra suar a camisa;

–       enfim o fim do dinheiro reserva, agora é pensar no “sevirol” e correr atrás do capilé até a plantação bombar!

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Todo dia aparece um pepininho desse nipe aí, a gente sabe que sem eles não tem graça. Então o melhor mesmo é saber tocar o barco e não comer bola pra ele não virar. A gente ainda tá aprendendo os problemas daqui, mas de uma forma bem leve e sadia, sem se arrastar e aumentar a proporção da coisa. Nessas horas, quando percebemos a miudeza das nossas questões diárias, sentimos também a certeza de que fizemos uma boa escolha. Já que tem que haver perrengue nessa vida bandida, que seja com vento no rosto, vista linda pras montanhas, Billie Holiday na vitrola, muito amor no peito e gratidão profunda pela formosura que é se aventurar pelo caminho.

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A saudade

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Quando a gente tem alma cigana, aprende-se a ser amigo da saudade. Na verdade, essa é quase uma imposição da vida fora de casa, me dei conta disso bem cedo, quando juntei minha matula e fui viver longe da família, aos 16 anos. Às vezes, sinto que minha alma resolveu viver essa amizade meio que como uma defesa para não sofrer esse conflito: o corpo querendo voar mundo afora e o coração sem sair do lado de quem se ama e quer bem.

Muita gente nos pergunta porque optamos por viver tão longe dos nossos, tipo “não dava pra viver essa aventura ali mesmo no interior de Minas ou em algum mato mais próximo de casa?”. Não, mil vezes não! Pra quem vive a vida de peito aberto, desrespeitar o destino é ofensa das mais graves, assim como se apegar à relações, bens materiais, lembranças do que se foi. O lance é encontrar roupa nova para sentimentos já conhecidos, é isso que aprendemos desde muito tempo. Nossa saudade hoje tem saia de babado, blusa de flores e sapato confortável. Nós a vestimos com amor e carinho, e em troca ela não nos dói. Essa forma de cultivar tal sentimento companheiro de quem vive solto foi a mais doce e respeitosa que encontramos até hoje.

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Todas as pessoas, lugares, experiências, coisas, trocas, momentos que vivemos estão guardados em nossa memória. Algumas de maneira tão forte que as sentimos vivas quando vibram em nosso corpo, quando percebemos sensações que nos transportam pra um tempo passado. Isso é lindo e alimenta nossa alma com um bocado de lembrança boa e a certeza de uma vida bem vivida. É como se tivéssemos nascido uma parede branca e, durante o caminhar, fossemos encontrando peças coloridas e nos transformando em um mosaico enorme que só será completo quando virarmos algodão doce no céu. E nada disso nos dói, causa tristeza, pesar ou vontade de que tivesse sido diferente. A saudade que sentimos é mansa e nos faz bem, afaga nosso peito e nos mostra quanto amor já demos e recebemos nessa estrada.

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Outra coisa massa que a saudade nos proporciona é a possibilidade de repensar as relações das quais nos separamos geograficamente quando nos mudamos. É realmente incrível como conseguimos nos enxergar melhor em determinado contexto quando estamos fora dele. Então estamos repensando nossos laços familiares, amizades de hoje e de ontem, desatando nós, entendendo porquês, curando feridas, sentindo a importância das pessoas, reavaliando nossos lugares na vida delas e o delas nas nossas. Um exercício natural, cheio de sensibilidade, sorrisos, choro, clareza, surpresas e insistência, porque não é o primeiro e está longe de ser o último. Amém!

Sentimos essa saudade boa de tudo e de todo mundo porque ela não nos remete à falta ou ausência. Pra ser bem honesta, acredito que seja muito pelo contrário. A saudade é um sentimento tão doce e cheio de zelo que pode ser a melhor forma de ponderar o quanto da gente o outro tem. E, cá entre nós, isso é bonito por demais!

O cúmplice

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Eu sempre acreditei em um grande amor, desses que preenchem os cantos do corpo e tomam a alma inteira da gente. Eu sempre quis esse amor. Eu sempre soube que a vida cruzaria nossos caminhos, fosse como e quando tivesse que ser. E acho, cá com meus botões, que essa certeza foi plantada em mim quando tinha seis nos de idade, quando era uma pirralha na escola e conheci um pirralho que se dizia apaixonado por mim. Era um moleque bem pra frente, com um redemoinho engraçado no cabelo liso de doer e dos mais bagunceiros da área. Ele vivia me rodeando, me dando presentes, insistindo nessa paixão. Eu sempre na defensiva, sem saber direito o que ele queria de mim com a incansável determinação de um adulto. Por anos ele foi meu par na quadrilha da escola, até que as mães de outros meninos vieram reclamar junto a diretora e pedir um sorteio para determinar, democraticamente, meu “noivo”. E assim foi feito, sendo sorteado ninguém mais ninguém menos do que o danado do menino apaixonado. “Marmelada! Repita o sorteio, professora!” Mas não adiantava, a vida parecia já ter escolhido meu par, saiu o nome dele pela segunda vez! 25 anos depois disso, aquele moleque insistente apareceu na minha vida com a mesma paixão daquela época. Só então eu pude entender quem ele era, o que ele queria de mim e tudo o que poderíamos construir juntos. Eu sabia que meu grande amor chegaria, só não sabia que ele estava guardado nas gavetas do nosso peito desde a infância.

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Hugo é meu companheiro de aventuras, alguém que me completa de forma tão intensa que não sobra espaço para pensar como seria a vida sem ele agora. É o cara que me enche os olhos toda vez que o vejo de longe, que o observo em silêncio, prestando atenção nos seus trejeitos, sua forma de parar os pés quando fuma um cigarro, no movimento das suas mãos quando fica ansioso. A noite, enquanto Hugo dorme e eu amamento Nina, fico olhando pra ele e lembrando das nossas viagens pelo mundo, pensando na nossa cumplicidade, sentindo a força da nossa união, desejando que ele nunca saia dali, do meu lado, de dentro de mim. E agradeço, com o peito cheio de alegria, por tê-lo como parte tão linda da minha história, que agora é nossa.

Foi ele quem me trouxe a grandeza de ser plural, de dividir tudo e multiplicar por amor. Me ajudou a lidar melhor com as diferenças, aceitá-las quando se dá conta e entendê-las quando se abre o peito pra isso. Me mostrou que ligar o “foda-se” pode ser a melhor saída para uma determinada situação e que ser sempre a boa moça sucks! Nossas trocas são diárias, regadas a boas risadas, choro ou silêncio. Silêncio este que foi trazido por ele também, a não necessidade de discutir, de argumentar, de questionar. Calar, ás vezes, é respeitar o lugar do outro, é olhar pra dentro, é se perguntar e se descobrir.

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Depois de quase quatro anos juntos, ainda choro de amor, ainda sinto arrepios quando ele me toca, ainda me emociono quando olho pra família que construímos juntos. é tudo tão cheio de amor, de verdade, de carinho e respeito que eu nem sei falar. Eu me sinto tão segura ao lado dele, tão forte que poderia viver cem anos recomeçando vidas e vidas com a filharada toda nas costas! Hugo é o cara que me faz crescer todo dia, junto com nossos pequenos e a vida que escolhemos viver. Ele é meu cúmplice nas aventuras dessa estrada, a melhor de todas as surpresas que a vida me deu.

Com os olhos cheio d’água, com o corpo vibrando esse amor que tanto me emociona, agradeço a ele por tudo que foi, é e ainda será. E deixo aqui, nessa pequena declaração de amor, toda a alegria em dividir minha existência com ele e nossos filhos. Quem dera um dia a gente poder traduzir essa plenitude em palavras, melhor mesmo é sentir a certeza de que somos melhores juntos. Te amo, Magrelo, daqui até a lua, ida e volta.

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