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Esta semana recebi uma mensagem em uma das minhas redes sociais de uma pessoa que não conheço, mas que parece não se importar em invadir espaços para ofender o outro (típico, não?). No texto ele jogava palavras bem duras e ríspidas, dizendo que eu não poderia me manifestar em relação ao caos político do Brasil porque era alguém que tinha escolhido fugir de tudo e me esconder no mato. Que eu deveria ficar calada e aceitar o que estava acontecendo, uma vez que a vida que eu levo é pura alienação, que eu jamais poderia ter prioridade para questionar o candidato dele porque eu não entendo nada de política, economia, etc. Pois bem, meu amigo, segue aqui a minha resposta, que vale também para todos os outros que pensam e julgam como você.

Sim, eu não entendo muito de política, economia e a porra toda, talvez você esteja bem mais a frente de mim nesses assuntos super relevantes para um País em crise constante. Talvez eu devesse sim me inteirar mais de tudo, estudar, pesquisar, debater para conseguir travar diálogos sensatos e coerentes baseados em dados/fatos reais. Mas, neste momento, me preocupa mais o amor, por mais clichê que seja. Digo isso porque não são números, estatísticas ou especulações que constróem a estabilidade e força de um país. São pessoas, gente que é, acima de qualquer ideologia ou conhecimento político, humana. E, pra ser bem honesta contigo, as eleições deste ano me dizem algo muito mais grave do que os próprios políticos e seus planos de governo, elas estão gritando a doença da humanidade. E, infelizmente, a cura desse mal não mora no número 13 ou 17.

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Então, aqui te conto duas coisas importantes que me vejo no direito de dizer com prioridade, porque é o que eu vivo, acredito e sou. Minha opção por viver “no mato” não representa uma fuga e nunca me senti culpada por isso. Pelo contrário, ela foi a escolha mais bonita e certeira que fiz quando percebi que poderia ser um agente transformador desse mundo cão pelo simples fato de me juntar aos que estavam em outros espaços geográficos tentando construir realidades e formas diferentes de organização social. Um movimento silencioso de quebra de padrões e uma tentativa de não mais ser conivente com um sistema falido que não me representa mais. Eu escolhi fazer política todos os dias da minha vida e não apenas uma vez a cada quatro anos. E com todo respeito aos que escolheram o contrário, o que é bem importante. Cada guerreiro tem seu posto e eu bem sei do meu, te aconselho a se perguntar o quanto você tem honrado o seu nas batalhas que anda travando aleatoria e desrespeitosamente.

O que eu tenho visto, sentido, discutido sobre o seu candidato é que ele trouxe à tona algo muito surreal e necessário para que possamos nos reconhecer e entender mais os lugares onde estamos enquanto seres humanos, antes de sermos eleitores. A identificação de milhões de pessoas com o comportamento, com a incoerência, com o ódio, com os conceitos e valores retorcidos pregados por ele nada mais são, ao meu ver, do que reflexos assustadores de iguais. Você e os seus encontraram em um mito midiático a libertação e a coragem para assumir todo o vazio que os habita. É como se estivessem usando uma figura pública como corpo que tem voz para disseminar esse ódio que os consome na insatisfação de não serem pessoas sensatas. Eu sinto muito por isso, eu te perdôo por isso. Não deve ser fácil não ter coragem de assumir por si só as sombras que te movem, não deve ser fácil temer a diferença entre as pessoas, suas raças, cores, suas opções sexuais, suas escolhas, sua liberdade. Imagino o quanto deve ser sofrido pra vocês o insistente exercício de se agarrar ao julgamento constante sobre o outro pra sobreviver à uma era onde a multiplicidade nunca mais recuará. Esta é a última chance que vocês têm para se libertar de vocês mesmos, o façam com consciência e coragem, por favor.

Agradeço o seu conselho de aceitar o que está acontecendo e me conformar com a derrota do meu candidato, mas o recuso com a mesma veemência com a qual foi dado. Eu não estou conformada porque tenho em mim a esperança, o romantismo, a utopia, qualquer nome que caiba nesse sentimento incrivelmente confortante de acreditar em pessoas e no amor que nos habita. Tanto que estou aqui, acreditando que você pode ser alguém melhor quando se abrir pra isso e começar a amar a você mesmo, sem ter que se esconder em candidatos, fake news, ideologias desesperadas e furadas, desrespeito, sentimentos nocivos à você mesmo e ao mundo inteiro. Mesmo que seu candidato ganhe, que o ódio e a cegueira de milhões de pessoas vençam a luta por salvar o que restou da tal democracia, eu não me darei por vencida. Porque, como já disse antes, minha revolução é diária, constante, forte, firmada em valores e ideais do bem, esses que eu sou e tento praticar cada vez mais. Agora, vale pensar também que, caso seja esse o “fim” desta crise eleitoral, será também o fim de privilégios talvez nunca questionados por você.

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Não sei se você tem filhos, amigos, família, imagino que sim, nenhum homem é uma ilha. Mas vale ponderar que todas as pessoas que você ama podem ser vítimas de um mesmo tiro no pé, esse tiro que está apontado para uma parcela da população e pode sair pela culatra de outra bem maior. Talvez, a partir do dia 01 de janeiro de 2019, você não mais tenha a liberdade que teve agora de invadir o espaço de outra pessoa sem sofrer algum tipo de represália, talvez não mais consiga andar nas ruas da cidade que mora sem sofrer algum tipo de violência verba, ou física, talvez perca amigos ou familiares negros, homossexuais, talvez não mais consiga se expressar livremente, talvez sinta um medo doído de ser quem você realmente é. Mas, pelo que tenho visto e ouvido por aí, e creio que seja também seu pensamento, nada disso importa. Porque estamos falando de economia, de colocar o Brasil pra frente, de tirá-lo das mãos de um partido que já fez muita merda. Mais uma vez, um entendimento truncado e ancorado em ódio, o mais cego dos sentimentos humanos. Você acredita mesmo que um homem sem coragem de enfrentar seu oponente em rede nacional, uma pessoa que não consegue estabelecer um diálogo sensato com seus eleitores, alguém que não conhece o próprio país a ponto de não conseguir formular soluções viáveis para ele, alguém que acredita em armas como  sinônimo de segurança pública, uma pessoa que não respeita mulheres (inclusive sua mãe ou sua filha),  que mente para você já fazendo caixa 2 antes mesmo de tomar o poder, entre tantas outras podridões, vai realmente proporcionar ao Brasil quatro anos de ordem e progresso?

E, caso mesmo sabendo de tudo isso que não é novidade nenhuma para ninguém, você ainda acredite ser esse o melhor, te desejo toda a sorte que você vai precisar. Sim, todos nós vamos precisar de coragem para dar conta dos tempos sombrios que podem estar chegando, mas talvez isso seja ainda mais difícil para vocês e todos os outros que insistem nesse erro. Porque nós, que aqui lutamos para evitar tal desastre, temos no sangue o fervor da revolução, somos a clareza de não estarmos a favor apenas de partidos políticos e sim gritando por um respiro de sanidade mental e valores dignos da democracia que governa nosso país. Não nos importa agora somente um partido, nos importam vidas, nos importa a eminência da morte em vão, nos importa o respeito e o direito de sermos respeitados enquanto cidadãos. Nada pode nos parar, nem uma derrota eleitoral, nem um candidato como o seu. Será sim ainda mais difícil resistir, mas seremos a resistência que legitimará nossa existência, estaremos alertas, a postos, lutando incansavelmente por cada direito nosso arrancado. E, quem sabe, um dia nos encontraremos no front, porque esses direitos também serão arrancados de você. Estamos no mesmo barco, meu amigo, por hora remando em direções contrárias. Mas daqui a pouco seremos o mesmo mar de devastação, seu voto equivocado não te liberta de afogar com o todo.

E, pra encerrar meu direito de resposta aos seus questionamentos, enquanto ainda somos livres para debater civilizadamente sem opressões, te dou de presente algo que tenho de sobra: a liberdade de se permitir em paz, de ouvir com o coração, de manifestar sem julgamentos ou ofensas, de olhar para o outro com amor e se descobrir amor também, de pedir ajuda, de ser com coragem, de ter flexibilidade para mudar, de expandir a consciência e poder fazer a sua parte na história, sem esperar que mitos vazios o façam por você. Progressos são caminhos pra frente, as promessas de um país bem sucedido e sem corrupção feitas por seu candidato são disfarces inúteis para a instalação de um fascismo escroto do qual você também será vítima. Te desejo sorte, cara, acho que tu vai precisar muito mais que eu!

#ELENÃO

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17 comentários em “Resposta à um eleitor que dorme

  1. Manu, sua vida é inspiradora e com certeza também um ato político de demonstrar que não é preciso viver dentro de um sistema viciado. Parabéns pela delicadeza e humanidade na resposta a este senhor infeliz; e obrigada por nos mostrar mais um dos seus diversos atos amorosos. Força para nós nesses momentos de desumanidade.

  2. Sou sempre grata a quem escolhe/tem a coragem de viver “fora da caixa” e fico ainda mais quando esta escolha não limita o olhar sobre todos nós. Abração!!!

  3. Manu concordo que o amor é o sentimento mais importante. Mas vc tá acreditando em várias historinhas inventadas e/ou manipuladas pela mídia que usa palavras e trechos isolados para criar um personagem do “mal” e não é assim.
    Os tempos estão mudando aos poucos com relação ao preconceito. E isso é uma onda cultural e planetária sem volta. Vc tá mesmo acreditando que isso vai retroceder? Quanta ingenuidade hein!
    Esse papinho de preconceito já encheu o saco. Sim pessoas sofrem mas vc vai discutir só isso? Só esse assunto é importante para o país? O problema é muito maior e precisa urgentememte de renovação política.
    Olha, o país sofreu e sofre com as merdas do seu partido que é comandado por pessoas comprovadamente podres.
    Vamos agir e dar o benefício da dúvida para a mudança.. se depois não der certo a gente parte pra briga novamente mas pelo amor que vc tanto prega, o país precisa sair das mãos desses bandidos.. tenha dó pelo amor de Deus.

    1. Angela,
      Pelo visto você não entendeu muito do que escrevi, meu posicionamento vai muito além de preconceito e amor, apesar de acreditar que isso está acima de qualquer tema político. Respeito seu ponto de vista e confesso que ele me alivia um tanto quando vejo que estou certa, sua manifestação ofensiva aqui reforça o perfil e o pensamento de pessoas como esse cara que me escreveu e a quem direcionei essa reposta.

      Percebo também que a falta de informação e a raiva é que direcionam argumentos vazios, os mesmos que tenho visto desde o começo da campanha, ao contrário do número crescente de absurdos que tem saído da boca do próprio candidato. Não preciso de “historinhas inventadas e/ou manipuladas pela mídia que usa palavras e trechos isolados para criar um personagem do “mal”, ele por si próprio já consegue fazer isso sozinho de tão bom que é em ser péssimo.

      Por último, creio que a ingenuidade aqui mora em acreditar que “se depois não der certo a gente parte pra briga novamente”. Talvez, se as pessoas parassem de olhar para a campanha alheia e prestassem mais atenção no candidato que realmente escolheram apoiar (mesmo que por desespero e medo de repetir um erro) saberiam que seus planos de ditadura e fim do ativismo social não permitem ao povo brigar por nada. Infelizmente, este direito não teríamos mais!

      Te agradeço pelo manifestação do seu ponto de vista e reafirmo aqui o meu. A minha “ingenuidade”, o” papinho de preconceito que já encheu o saco”e o “amor que eu tanto prego” seguem me guiando rumo à escolha que deixa minha consciência em paz. Espero que um dia esses sentimentos te encontrem, de coração! 🙂

    2. Oi, Angela, boa noite. =)
      Desculpa me “intrometer”, mas gostaria de trocar uma ideia contigo.

      Assim como vc, tb acredito que não tem como retrocedermos e acredito que é sobre isso que a Manu tb fala no texto: não há volta para que tudo o que já avançamos, seremos resistência e conhecemos o caminho da luta. \o/ Por isso, independente do resultado da eleição, não me desencorajo.

      Eu entendo que talvez seja fácil para as não minorias (de poder, as minorias são sobre poder e não sobre quantidade) se cansarem com esse papo de preconceito. Afinal de contas, não é a pele deles que arde, né? Porém, falando agora de mim, mesmo fazendo parte de uma minoria (mulher cis), sou branca, hétero e tive muito acesso a cultura e educação, por isso não me sinto diretamente atingida. Todavia, sou TOTAL empatia por quem não está nessa mesma “condição de privilégio” que eu e, por isso, luto e sou resistência. Saca? E discutir isso é muito importante, tendo em vista que abrange MUITA gente. Sem contar que estamos falando sobre mortes. E vida é uma parada que é importante. Sua manutenção e direito. Acho que sobre isso não há como divergir.

      Bom, eu moro em Campo Grande – MS e recentemente a cidade experimentou um “voto de protesto”, “voto por mudança”, ao eleger o candidato Bernal, do PP, para a prefeitura, em 2012. Na época ele era deputado e tinha um histórico de trabalho ruim no legislativo, mas mesmo assim ganhou a eleição… Se vc pesquisar sobre, verá o que aconteceu.

      Devemos (também) focar na parte administrativa nessas eleições. E para isso é fundamental analisarmos a trajetória política dos candidatos, bem como seus planos de governo e, a partir dessa reflexão e análise, pensarmos no que seria melhor para o Brasil. Se isso for feito de maneira consciente, independente de quem sair como escolhido para voto, tá blza.

      No mais, gostaria de lhe sugerir este vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=blAuBwaeqEI E uma reflexão: o partido com mais “questões” na Lava Jato é o PP. O Bolsonaro saiu deste partido em 2016. Além disso, ele também tem processo sobre injúria e incitação ao crime de estupro e investigação por ter tb recebido grana da JBS: https://www.youtube.com/watch?v=D62y7u04-U8

      É muito interessante todo esse aprendizado que estamos tendo. Democracia é uma coisa nova para o país e ainda somos bebês engatinhando. hehehehe Mas já caminhamos muito e a cada eleição aprendemos mais. Aprendemos que política se discute sim e que as coisas só melhorarão à medida que nos responsabilizarmos pela coisa toda, quando passarmos a ser cidadãos melhores. Porque afinal de contas, candidato (a) algum nos “livrará” da nossa obrigação de participação política: checar, interagir, cobrar, reivindicar.

  4. Acabei de receber uma msg com seu texto. Não lii o que vc recebeu, mas pela resposta da pra perceber a sensatez e o espírito elevado de suas ponderações. Também partilho do mesmo sentimento de compaixão por essas pessoas que estão tomadas pela cegueira do ódio. É triste. Quase desolador. Mas ainda bem que nem todos sucumbem a este mal.

Solte o verbo!

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