Já se passaram quase 365 dias do meu último post por aqui, acho que foi minha maior hibernação desde que abri essa gaveta de devaneios. Mas foi muito necessário, até pra entender onde mora a escrita dentro de mim e o caminho que ela vem costurando na minha vida. Antes eu não conseguia me expressar pela fala, então qualquer guardanapo sujo e lápis sem ponta eram uma bote salva vidas em alto mar. Esse tempo sem escrever me fez enxergar que aprendi a resolver as coisas pela fala, pelo ouvir, pela manifestação viva daquilo que eu sou e sinto junto ao outro e a mim mesma. Escrever saiu do lugar do socorro aflito para descansar na cama confortável da paixão descompromissada.

Muita coisa aconteceu nesse tempo, tanta coisa que eu nem me lembro como eu era da última vez que estive por aqui. É surreal o tanto que o mundo muda toda vez que damos um passo, assim como a nossa incrível capacidade de sermos agentes criadores da nossa própria realidade. A expansão da consciência, essa que vem se manifestando em todo canto do mundo e em tantos milhões de pessoas, fazem a gente se ligar nisso de forma muito clara. Nós é que criamos sáporra toda, então não há ninguém mais responsável pelo que vivemos senão nós mesmos e ponto. Acho que esse foi um ponto crucial que me empurrou para a hibernação desse quase um ano, eu tava ali na escola da vida aprendendo a ser responsável pela minha existência e por tudo de bom e ruim que o universo me traz todo santo dia.

A teoria, nossos pais, a sociedade, a cultura, os padrões, etc.,  são categóricos quando dizem que devemos cuidar de nós mesmos, da vida, das nossas atitudes e ações. Mas o lance é que ninguém ensina a fazer isso como deve ser, é tudo li na superfície da vida ordinária de pagar contas em dia, não fazer mal ao outro, respeitar a natureza e blá. Tudo isso é massa também, e o começo pra uma existência organizada e sensata, mas não é nem um terço daquilo que realmente precisa ser entendido para dar sequência em todo o resto. A gente precisa aprender a cuidar de nós mesmos antes de qualquer coisa. E isso quer dizer também saber identificar a linha muito, muito tênue entre o que é nosso e o que é do outro. Essa nova era traz a certeza bem bonita de que somos um, mas não existe unidade alguma se cada partícula desse todo não tiver a consciência de si mesmo enquanto indivíduo único. Não dá pra somar em harmonia quando não se tem harmonia em cada fator da soma. E a prática disso é foda, porque requer de nós mesmos o enfrentamento daquilo que sempre fomos. A quem dessa batalha interna foge, só resta a eterna comodidade de culpar o outro por aquilo que não consegue resolver em si mesmo.

Foi nessa onda que andei surfando nos últimos meses, tomando caldo atrás de caldo na turbulência do mar aberto que e olhar pra dentro e cair nadando de braçada nas sombras que a gente carrega. E vai carregar pra sempre, porque são as sombras que nos levam pra luz, o que já é sabido há tempos. Andei percebendo que eu tava sentada numa cadeira muito confortável de projetar as coisas no outro, uma negação sem fim em olhar pra forma como eu recebia as atitudes/sentimentos das pessoas e sofrendo com o julgamento enorme que fazia de tudo. O confortável nem sempre é o que traz conforto e paz. Não é o que eu recebo do outro, mas como eu recebo o que o mundo me traz e o que eu quero e posso fazer com isso. Até onde aquilo me dói porque sai rasgando uma sombra grande que não quero ver. Até onde eu quero curar essa sombra ou seguir inventando culpas para despistar minha incapacidade de resolver meus problemas. Até que ponto eu sou emocionalmente dependente do outro e me frusto porque ninguém, a não ser eu mesma, vai conseguir mudar o que me arde no peito.

Eu sou uma mãe, uma mulher, uma filha, eu sou mais uma pedaço de uma linhagem enorme que vem dos meus ancestrais e vai seguir reafirmando a existência do meu sangue nessa terra, eu sou a natureza que faz o mundo respirar desde que é mundo. Não dá pra ser tanta coisa e querer negar a força de tudo isso porque não aprendi a honrar a grandeza do que eu fui, sou e vou ser. Assim como não é justo com o presente que me foi dado de viver aqui seguir responsabilizando as pessoas e as mazelas do mundo pelo que eu vivo agora e não me faz feliz e plena. Me foi dada a possibilidade da escolha, então a responsabilidade de tudo o que eu trago pra mim é só minha, de mais ninguém. Essa certeza que encontrei me trouxe um alívio sem medidas, porque eu parei de querer transformar o outro, saca? Porque essa frustração que o julgamento traz pra gente é uma corda no pescoço, um perigo constante que pode te pegar de jeito sem que você perceba.

A verdade é que ninguém transforma ninguém, a gente só pode mudar a nós mesmos. Um “conceito” tão simples que neguei por tanto tempo sem perceber. Ao outro só podemos levar amor, a nossa cura reverbera a quem for, mas porque curas internas são contagiosas quase que por osmose, não porque existe o pretensioso propósito de curar as feridas alheias. Se eu me curo, eu sou um braço infinito para acolher as curas do outro, em seus tempos, das maneiras que ele dá conta, se ele quer. E assim, imagino eu, a corrente se fortalece e se expande. Em gomos fortes, simétricos e perfeitamente harmônicos, como a geometria sagrada da natureza esta aí pra mostrar a quem quer ver há tempos.

Ainda tô em cima da prancha, hoje surfando numa maré bem mais calma. Mas já sinto aquela leveza do mar tranquilo, já sei nadar controlando minha respiração quando caio na água. Tenho caído menos, tenho me sentido mais segura das distâncias que posso percorrer e mais consciente dos lugares que quero e posso chegar. Respeito mais o tempo das ondas, admiro mais as ilhas que encontro no caminho, vejo mais beleza em todo por do sol que acontece. E, o mais importante de tudo, hoje sei que sou eu quem navega esse mar. Não que eu tenha o controle de tudo, seria essa uma terrível pretensão aquariana. Mas tenho a firmeza do navegante que sou, acredito na pessoa que esta ali, remando onda atrás de onda, buscando a eterna transformação do ser que sou. Buscando a plenitude do amor e da verdade que me habita.

PS: gratidão a todo mundo que escreveu, durante esse sumiço, querendo saber notícias e nos enviando good vibes. Na próxima eu volto contanto sobre a casinha, sinto que tem muita gente que participou dessa vivência incrível e merece saber como anda tudo por aqui na morada de barro e amor!

Anúncios

18 comentários em “O (eterno) retorno

  1. Eba!!! Voltou a Manu blogueira!!! Daquela que eu me apaixonei quando li por primeira vez. Amor a primeira lida 😉
    Feliz de saber que você está tão bem. Beijos amiga!

  2. A prancha quebra e as ondas parecem ficar maiores nesse exato momento… Mas e a cordinha amarrada no teu tornozelo? Ela te liga à prancha. Pensa que essa corda é tua essência. Pensa que essa corda é toda a tua vontade, lá em 2013 quando começou essa gaveta de devaneios como você fala. Se agarre nessa força. Na vontade de mudança que te guiou pra tudo isso. Pra essa casinha de barro e amor. A prancha a gente cola ou arruma outra. Mas a cordinha tá sempre lá.

    Um beijo de paz e um abraço de luz.
    À todos vocês.

  3. Eita mulher de luz. Sempre abrindo janelas na minha cabeça. Coragem, Manu, que você leva a vida de um jeito muito lindo. Abraço apertado, beijo grande (meu e do Tomás ❤ )

  4. Amadurecer com sensatez: dói, dá trabalho, cansa e um monte de coisa desmorona…mas estas coisas são as pedras que servirão como alicerce sólido. E dessa “linhagem enorme” vc herdou a sabedoria de encaixar, como num quebra cabeça, essas pedras. Como fez na casinha, aí na Bahia.

  5. Ei, Manu! Que bom ler vc hoje. Gratidão. _/\_
    Sabe, comecei a leitura ontem, mas como o universo cuida das coisas sem dó, terminei de ler só agora… Ontem ainda ñ dava. Não estava pronta pra receber.
    Obrigada. Essa sua cura me chacoalhou aqui, com certeza.
    No momento eu tô tipo na tela azul do Windows…
    Loading.

    Beijo grande! E um especial na Nina. ❤

  6. Gratidão por dividir e preencher um espaço aqui dentro com a sua visão, experiência e sentimentos!
    Minha admiração, respeito e muitas boas energias sempre!

  7. Continuamos acompanhando sua trajetória por aqui e pelo Instagram! Continua firme e doce nas palavras. Um abraçaço cheio de paz e amor!

  8. Você me deixa emocionada. Inspiração pra eu seguir meu caminho. Gratidão por compartilhar esse pedaço seu aqui. Amor e felicidade pra vocês sempre ❤

Solte o verbo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s